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No festival de Cannes, Malcom Gladwell usa exemplos bélicos e tecnológicos para defender que ser pioneiro atrapalha nos lucros

O que existe em comum entre a Apple, o Google, a Amazon e a vitória de Israel na guerra do Líbano, em 1982? Nenhum desses casos de sucesso – se é que se pode chamar assim o êxito num conflito – foi o inventor da tecnologia que os levou à glória. Eles basicamente copiaram alguém. A partir desses exemplos, o autor de best-sellers Malcom Gladwell afirmou, numa palestra do festival de publicidade de Cannes , que a atual obsessão por “ser o primeiro” pode conduzir pessoas e empresas a uma posição na qual é difícil lucrar.

Gladwell:
Divulgação
Gladwell: "Criar a solução tecnológica é mais fácil do que saber o que o consumidor quer"
Com livros como “Ponto de Desequilíbrio” (“The Tipping Point”, no original) e “Blink - A decisão num piscar de olhos”, Gladwell alcançou todas as listas de mais vendidos nos EUA e tornou-se palestrante de prestígio – em Cannes, falou no seminário da gigante Kraft Foods.

Ele começou a explicar sua ideia usando o exemplo bélico – aliás, quase sempre útil a autores do tipo. “Os EUA são ótimos inovadores, fazem as melhores parafernálias para a guerra – mas isso impede que reflitam sobre as implicações delas no conflito”, disse. “Por outro lado, a URSS tem um exercito intelectualizado, que teorizou e previu o potencial de diversas inovações – mas isso não fez deles grandes inventores”.

Então, Israel entra na história. Para Gladwell, o país não precisou inventar nada, apenas colocar em prática o melhor do que dispunham os pioneiros americanos e soviéticos. Israel não foi o primeiro, mas foi o que "capitalizou" os resultados. “O país havia sido arrasado na guerra do Yom Kippur e estava desesperado [ com a perspectiva do novo conflito ]. Por isso usou melhor as tecnologias”, diz.

Steve Jobs, para o autor, é como Israel. “Nos anos 1970, os PHDs da Xerox dispunham de milhões de dólares em orçamento para criar invenções e fizeram um mouse caríssimo e inviável. Jobs era apenas um jovem com uma empresa de garagem, estava desesperado por uma ideia lucrativa, então viu o mouse da Xerox e transformou no primeiro mouse comercial, vendido por US$ 15”, conta.

O autor seguiu elencando exemplos de empresas que não inventaram o sistema que as tornou ricas – como o Google, a Amazon e o Facebook. “Mas eram firmas lideradas por pessoas que estavam famintas e desesperadas [ no sentido figurado ], não por inventores com milhões de dólares e tempo para criar”, diz.

“A cultura que torna possível a inovação não é favorável à implementação do produto”, afirma. A conclusão de Gladwell é que ser o primeiro a fazer algo nem sempre é prova de que alguém será o melhor naquilo. “Acho que criar uma solução tecnológica é mais fácil do que descobrir o que os consumidores querem”, diz.

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