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A China caminha para mudar o seu regime cambial, previram ontem dois economistas de prestígio mundial - o inglês Jim ONeill, analista-chefe do Goldman Sachs, e Arminio Fraga, sócio-fundado do Gávea Investimentos e ex-presidente do Banco Central (BC). ONeill e Fraga participaram ontem do seminário Uma Agenda para os Brics, promovido pela Prefeitura do Rio no Palácio da Cidade.

O seminário, com representantes de Brasil, Rússia, China e Índia, os quatro Brics, termina hoje.

ONeill, criador do termo Brics, disse que a previsão do Goldman Sachs para o crescimento do Brasil em 2010 foi elevada para 6,4%. Pessoalmente, acha que pode chegar a 7%.

Segundo ONeill, "o Ocidente está exagerando o impacto do câmbio chinês". Ainda assim, ele prevê que o país asiático caminhe para um regime cambial com mais volatilidade e flutuação, o que pode ser precedido por alguma revalorização do yuan, a moeda chinesa.

Frisando que as mudanças na China às vezes são muito lentas, ele vê chances de que a flexibilização cambial aconteça este ano. As motivações dos dirigentes chineses em fazer a mudança seriam as de tirar a questão cambial do foco ocidental, e combater a inflação e a especulação. Indicadores do Goldman Sachs apontam o risco de superaquecimento da economia chinesa, que teria atingido recentemente um ritmo anualizado de crescimento entre 12% e 14%.

O economista notou que houve uma valorização real do yuan de 20% nos últimos cinco anos, e mencionou que os modelos de câmbio do Goldman Sachs mostram a moeda chinesa próxima do valor de equilíbrio: "Não há evidências de uma moeda selvagemente desalinhada".

O mais importante, para ele, é que já há fortes sinais de que a China está fazendo a transição de economia baseada na poupança e na exportação para um modelo mais calcado no consumo doméstico - que é o resultado desejado pelo Ocidente quando cobra a mudança cambial.

ONeill mencionou que o crescimento das vendas de varejo na China desde o início de 2007 foi maior do que a queda das vendas nos Estados Unidos no mesmo período. Além disso, as importações recentemente passaram a crescer muito mais rápido do que as exportações, e deram um salto de quase 90% no último indicador mensal.

Fraga, por sua vez, previu que a China, na sua ascensão ao papel de grande potência global, em algum momento vai optar por não mais manter a sua moeda atrelada ao dólar - inclusive para que possa praticar a política monetária tradicional, na qual se administra os juros em função da inflação, e não do câmbio.

"Vamos ver a moeda chinesa se fortalecer ao longo dos anos", previu o economista, mas ressalvando também, como ONeill, que os prazos para as mudanças na China podem ser muito longos. "A única coisa que anda rápido na China é a economia", observou Fraga.

Liu Youfa, vice-presidente do Instituto de Estudos Internacionais da China, disse que o yuan vai se tornar uma moeda forte - mas de forma gradual - e que a taxa de câmbio atual tem suas razões. Ele observou que, como 70% das reservas internacionais chinesas são em dólar, não interessa aos chineses a desvalorização da moeda americana, que diminui o valor de suas reservas. As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.

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