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SÃO PAULO (Reuters) - Pressões políticas levaram o principal órgão mundial de normas de contabilidade a concordar com a flexibilização de um regra que poderá amenizar a pressão do mercado sobre bancos atingidos pela crise. O International Accounting Standards Board (Iasb), entidade que emite pronunciamentos sobre práticas de contabilidade válidas para mais de 100 países, incluindo os da União Européia, anunciou nesta terça-feira o alinhamento da regra IAS 39, que regula a contabilização de ativos a valor de mercado ao modelo praticado nos Estados Unidos.

Na prática, empresas e bancos de países que seguem o IFRS, modelo contábil do Iasb, ficarão menos pressionados em períodos de grande incerteza no mercado, quando os preços dos ativos caem acentuadamente e causam perdas contábeis ou redução no patrimônio líquido.

Para efeito de prestação de contas, as companhias poderão adotar um modelo que as permitirá usar como referência o valor do papel na data de sua maturação, em vez de fazer uma atualização mensal.

Essa interpretação mais flexível surgiu depois de a Comissão Européia ter avisado que não aceitaria que os bancos de países do bloco fossem prejudicados na comparação com os dos Estados Unidos, que gozavam de uma regra contábil mais flexível.

Com essa assimetria, instituições européias ou norte-americanas que foram atingidas pelo colapso no mercado de hipotecas poderiam reportar lucro ou prejuízo, dependendo do modelo contábil adotado.

"A decisão tem um componente político. Os europeus não queriam ficar em desvantagem em relação aos europeus", disse à Reuters o presidente do conselho consultivo do Iasb, Nelson Carvalho.

Segundo ele, no entanto, a mudança também teve motivações técnicas, que permitirão refletir as condições econômicas de forma mais realista, mesmo levando em conta condições de mercado extraordinárias, como a atual.

"Recentemente, um grande banco vendeu por 6 bilhões de dólares uma carteira de ativos que valia 30 bilhões de dólares. As condições adversas de mercado poderiam forçar uma desvalorização, mas o preço justo claramente não poderia ser 20 por cento do original", argumentou.

O rigor das regras do Iasb tem sido apontado por críticos como um dos fatores de pressão do mercado sobre instituições financeiras que já estavam à beira do colapso por deterem títulos tóxicos do mercado de hipotecas.

De acordo com Carvalho, ainda será decidido se as empresas poderão aplicar esse parecer mais flexível já a partir do balanço do terceiro trimestre ou apenas no final de 2008.

Segundo o executivo, a regra vai tirar parte da pressão dos investidores sobre os bancos em crise. "Acredito que o mercado deve receber a decisão muito bem", disse.

(Reportagem de Aluísio Alves)

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