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Governo português vai colocar à venda sua participação nas empresas de energia EDP, petrolífera Galp e companhia aérea TAP

Central hidrelétrica de Aguieira, em Portugal: um dos ativos da EDP, empresa de energia que o governo prevê vender suas ações
Adelino Oliveira/Divulgação EDP
Central hidrelétrica de Aguieira, em Portugal: um dos ativos da EDP, empresa de energia que o governo prevê vender suas ações
Obrigado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) a acelerar seu programa de privatizações, Portugal tenta cativar os investidores brasileiros.

As empresas brasileiras já demonstraram interesse publicamente pelas joias da coroa, como a elétrica EDP, a petrolífera Galp e a companhia aérea TAP. A expectativa é que esses e outros negócios – como eventual entrada de uma construtora brasileira no capital da Águas de Portugal, como apurou o iG - ganhem fôlego no segundo semestre, depois da eleição de Pedro Passos Coelho, o candidato da direita, ao cargo de primeiro-ministro, no último domingo.

“Temos falado com várias empresas brasileiras interessadas no programa de privatizações.
É algo que a gente tem feito de uma forma muito intensa em vários setores da economia brasileira”, conta ao iG Diogo Castro e Silva, diretor executivo da Caixa Geral de Depósitos (CGD).

O banco português, que pertence ao Estado português e participou na formulação de processos de venda de ativos públicos, assessorou o ingressso da Portugal Telecom na operadora brasileira Oi. No ano passado, mediou um encontro do Ministro das Finanças do país, Teixeira dos Santos, com fundos de pensões brasileiros.

A Confederação da Indústria Portuguesa (equivalente à CNI no Brasil) também relata “alguns contatos de empresas em busca de informação”, diz António Saraiva, presidente da entidade. “Se empresas portuguesas não tiverem músculo, dimensão e capacidade para participar das privatizações, eu gostaria que houvesse de empresas brasileiras”, afirma. “Em um processo de privatização, acho que as relações entre Portugal e Brasil podem crescer muito mais em termos de reciprocidade.”

A demanda por investimento brasileiro vem num momento “muito favorável”, segundo Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior e consultor, que também afirma ter sido sondado. “As empresas brasileiras estão com muita saúde, captando facilmente no mercado internacional e muito valorizadas”, diz, citando os casos da compra da rede de fast food Burger King pelos investidores brasileiros da 3G Capital, no fim do ano passado. O real valorizado também favorece o movimento.

Mais em menos tempo

O governo português já havia se comprometido com a Comissão Europeia (CE) a vender 5,5 bilhões de euros em ativos até 2013, prazo máximo para colocar o déficit público dos 3% permitidos nas exigências da zona do euro. Nele, previa vender parte dos ativos em companhias como TAP, EDP e Rede Eléctrica Nacional. Com o pedido de resgate, as regras ficaram mais duras. Portugal terá de sair completamente das três empresas e até o fim deste ano, prevê o acordo assinado entre a CE, o FMI e os principais partidos políticos portugueses.

Com os voos de e para o Brasil correspondendo a 30% da operação, num total de 1,37 milhão de passageiros transportados em 2010, a TAP despertou o interesse da companhia aérea TAM. Com a inclusão de Porto Alegre no mês que vem, a portuguesa passará a ligar a Europa com 10 cidades brasileiras. As duas empresas fazem code share desde 2007. A TAM acompanha o negócio e deve avaliar a empresa assim que sair o edital de venda da TAP.

O governo português, único acionista da companhia aérea, já contratou duas instituições para fazer avaliação da TAP, como manda a lei do país. “Seguramente depois da eleição, as coisas andarão mais rápido”, diz António Monteiro, porta-voz da companhia. Além da TAM, a venda tem despertado interesse de empresas de outros países como a IAG – resultante da fusão entre a espanhola Iberia e a britânica British Airways, segundo a imprensa local. A companhia portuguesa voa para 34 países.

Em busca de internacionalização, a Eletrobrás olha para a EDP, que teve lucro líquido de 1,079 bilhão de euros (R$ 2,5 bilhões). O Estado português tem 25% da empresa. A companhia brasileira informa ter interesse em adquirir uma participação de 10%, e comunicou o fato em março à Comissão de Valores Mobiliários (CVM) do Brasil. Caso consiga fechar o negócio, a Eletrobrás obtém uma vaga no conselho de administração – condição “sine qua non” para a entrada - e substitui o governo português no papel de maior acionista. A espanhola Iberdrola, segunda maior, tem 6,79% das ações. A EDP não comentou.

A Petrobras, por sua vez, encerrou as conversas com a italiana Eni, que detém 33,34% da Galp. Embora essa companhia não esteja na lista de privatizações obrigatórias para este ano, Castro e Silva, da Caixa Geral de Depósitos, espera que, passadas eleições, as negociações voltem a se aquecer. “A Petrobras tem um grande desafio pela frente que é o desenvolvimento do pré-sal no Brasil, mas por outro lado também tem a presença em Angola onde a Galp também está presente”, diz.

Posto de combustível da Galp em Portugal: venda de 8% das ações
Divulgação
Posto de combustível da Galp em Portugal: venda de 8% das ações
A participação do governo português na Galp é relativemente pequena: 8%. Desses, 7% foram colocados no mercado no ano passado, em obrigações conversíveis em ações da empresa. O governo, porém, mantém seu direito de recompra em março de 2013 – ano até o qual terá de sair completametne. Além disso, mantém direitos privilegiados de voto. O outro 1% é detido pela Caixa Geral de Depósitos. A Petrobras havia dito em fevereiro que as negociações com a Eni se encerraram sem conclusão por “qualquer participação” na Galp. A empresa italiana foi procurada, mas não se manifestou.

Um analista ouvido pelo iG , que pediu para não ser identificado, afirma ter sido procurado por uma construtora brasileira em busca de informações sobre a Águas de Portugal (AdP). A empresa, 100% pública tem negócios no Brasil (em encerramento), Moçambique e Angola, e teve no ano passado o melhor resultado líquido desde 1993, com 79,5 milhões de euros (R$ 182 milhões). Procurada, a AdP diz desconhecer qualquer interesse do governo em vender a companhia.

Até 2012 o governo terá de identificar e vender outras duas grandes empresas. E, até o fim do ano seguinte, em 2013, além da Galp, o governo deve privatizar a Aeroportos de Portugal, a Caixa Seguros, a Correios de Portugal e uma série de outras pequenas empresas. O Ministério das Finanças foi procurado, mas não se manifestou.

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