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Por Cláudio Gradilone SÃO PAULO (Reuters) - Os acionistas da Petrobras foram surpreendidos por duas notícias negativas na última semana de novembro. A primeira foi a retirada das ações da empresa do Índice de Sustentabilidade Empresarial (ISE) e a segunda foi a divulgação de que a estatal tinha tomado 2 bilhões de reais emprestados da Caixa Econômica Federal e 750 milhões de reais do Banco do Brasil.

O impacto dessas duas notícias é ruim para as ações, e deve gerar uma reflexão nos acionistas da Petrobras.

Começando pelo ISE. A Bolsa de Valores de São Paulo não divulgou os motivos oficiais para a retirada, mas a convicção do mercado é de que as ações saíram do índice devido ao modo com que a estatal trata o meio ambiente.

O exemplo mais apropriado é a péssima qualidade do óleo diesel brasileiro, considerado o mais poluente do mundo. A solução desse problema vem sendo sucessivamente adiada, o que afetou a avaliação ambiental da empresa.

A decisão foi recebida com um retumbante silêncio por parte dos acionistas. As ações praticamente não se mexeram, apesar de a notícia poder pressionar as cotações para baixo. Não que os investidores estejam muito preocupados com o meio ambiente, mas os gestores de fundos de ações classificados como "verdes" ou "sustentáveis" têm de manter as carteiras enquadradas ao índice e, por isso, deverão vender as ações da estatal ao longo da próxima semana.

Já a segunda notícia, da necessidade de a empresa captar dinheiro para quitar impostos, repercutiu mal no mercado. Na terça-feira, o Conselho Monetário Nacional (CMN) eliminou os limites de endividamento da Petrobras no mercado financeiro doméstico.

Pouco depois o senador Tasso Jereissatti (PSDB-CE), um dos mais estridentes líderes da oposição, denunciou formalmente que a Petrobras tinha tomado 2 bilhões de reais emprestados da Caixa Econômica Federal e mais 750 milhões de reais do Banco do Brasil.

A justificativa da empresa, divulgada no dia seguinte, apenas piorou as coisas. Segundo a Petrobras, a elevação das cotações do dólar em outubro aumentou o custo dos royalties que teriam de ser pagos como imposto. O recolhimento dos impostos é trimestral e forçou a estatal a pagar 4,7 bilhões de reais em royalties.

PERSPECTIVAS RUINS

Essa notícia é ruim por dois motivos.

O primeiro é microeconômico. A tarefa básica de qualquer gestor de empresa, pequena ou gigante, é procurar antecipar as necessidades de caixa para evitar problemas. O fato de a Petrobras ter de captar uma fábula de dinheiro da Caixa mostra que esse planejamento foi falho. Empresas mal-geridas perdem valor em bolsa.

O segundo motivo ruim é macroeconômico. A decisão de liberar a estatal para fazer dívida tem lógica quando se pensa que a Petrobras é uma empresa que tem de investir para explorar os recursos do petróleo no pré-sal. Mas é apavorante quando se recorda que, ao longo dos anos, o caixa da estatal foi usado muitas vezes para tapar os incontáveis buracos no Orçamento do governo, à custa dos acionistas minoritários.

Os tempos são outros, o Orçamento público está mais equilibrado e os mecanismos de controle são (ou deveriam ser) mais rígidos. Mesmo assim, o fato de a Petrobras poder se endividar sem limites em um momento em que seu acionista controlador é um gastador compulsivo não tranquiliza os acionistas.

Moral da história: perspectivas ruins para a principal ação da bolsa brasileira.

* O jornalista Cláudio Gradilone assina a coluna Portfólio para a Reuters; as opiniões expressas são de sua responsabilidade.

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