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O professor de relações do trabalho da Universidade de São Paulo (USP), José Pastore, alerta para a necessidade de educar mais e melhor os profissionais que atuam em áreas que requerem pouca educação. Ele explica que, no futuro, vai haver muito mais postos de trabalho para pessoas pouco qualificadas do que para as qualificadas. ¿Mas essa situação não é eterna. Ela vai mudar ao longo de uma geração. É pouco tempo, quando comparado com o atraso que perdura na força de trabalho do Brasil.¿ Segundo ele, ¿é imprescindível queimar etapas¿ na educação.

Leia abaixo a íntegra da entrevista:

iG: O Brasil possui hoje falta de mão de obra especializada em várias áreas decisivas para o crescimento do País. Há tempo para recuperar esta defasagem?
Pastore: Com a estrutura atual, não haverá tempo. Estamos numa corrida na qual o alvo é um ponto móvel que se descola a cada dia. Para criar tempo será preciso uma ampliação brutal da rede de escolas, sem perder qualidade! É um enorme desafio.

iG: Quais os setores e profissões com as melhores oportunidades nesta década?
Pastore: Construção (civil e pesada), química e petroquímica, serviços em geral e comércio internacional.

iG: Quais as áreas de atividade que vão absorver mais gente?
Pastore: Respostas seguras à essas questões dependem de pesquisas que o Brasil não tem. Mas o nosso País está inserido na nova economia e terá de acompanhar de perto os movimentos da globalização.

iG: Qual é o comportamento das várias profissões nessa nova economia?
Pastore: As profissões que crescem mais rapidamente são, por ordem decrescente: engenheiros de obras e de computação; pessoal de apoio a esses engenheiros; analistas de sistemas; técnicos em bancos de dados; especialistas em publicações baseadas em informática; advogados e pessoal auxiliar; profissionais da área de saúde, em especial, os de atendimento domiciliar; pessoal ligado à educação escolar e não escolar (personal trainers, ensino domiciliar - ou na empresa - de línguas, arte, artesanato, jardinagem, etc.); assistentes nos campos da medicina, odontologia e fisioterapia; reparadores de equipamento eletrônico; técnicos em química, petroquímica, têxtil, eletrônica, madeira, biologia. Todas requerem uma adequada preparação, exigindo educação bem superior ao segundo grau.

iG: O que vai acontecer com as pessoas que não têm esse nível de educação? Estão condenadas ao desemprego e à estagnação? Pastore: Felizmente não. Na verdade, vai haver muito mais postos de trabalho para pessoas pouco qualificadas do que para as qualificadas. Esse aparente paradoxo se explica pelo fato das profissões que crescem rápido serem minoritárias, e as que crescem devagar, serem majoritárias. Por exemplo, até o final da década, os auxiliares de medicina, odontologia e fisioterapia deverão crescer quatro vezes mais depressa do que os professores primários ao longo desta década. Mas o seu número é relativamente pequeno quando comparado com a enormidade de professores. Por isso, mesmo crescendo devagar, haverá muito mais postos de trabalho para professores primários do que para ao referidos auxiliares. Esse raciocínio vale até mesmo para as profissões que estão diminuindo como é o caso dos lavradores, pescadores e boiadeiros; datilógrafos, almoxarifes, telefonistas e caixas de bancos; operadores de computador, empregados domésticos e costureiros.

iG: Como fica a educação?
Pastore: A baixa qualificação não pode ser aplaudida [mesmo com essa realidade]. Com o passar do tempo, as atividades exercidas por esses profissionais passarão a ser realizadas por meios tecnológicos e eles serão demandados a supervisionar esses meios ou trabalhar em outros setores que exigem mais qualificação. O Brasil precisa educar mais e melhor aqueles que ainda trabalham em profissões que requerem pouca educação. Essa situação não é eterna. Ela vai mudar ao longo de uma geração. É pouco tempo, quando comparado com o atraso que perdura na força de trabalho do Brasil ¿ quatro anos de má escola, em média. É imprescindível queimar etapas. Temos de ampliar brutalmente a rede de escolas, sem perder qualidade. Ou melhor: elevando a qualidade!

iG: Quais as principais mudanças no mercado de trabalho para esta década?
Pastore: A tendência será crescente no campo da qualificação. Acredito ainda que crescerá o numero de empreendedores ¿ pessoas que trabalham por conta própria. Se nada for feito na legislação trabalhista, a informalidade continuará alta.

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