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Os banqueiros londrinos estão criticando asperamente o presidente Sarkozy. Há dois dias, a City acusa o presidente francês de querer derrubar a praça de Londres para ser substituída por Paris.

Por que essa guerra entre França e Inglaterra? Há oito dias, a Comissão Europeia em Bruxelas nomeou seus novos comissários. E Sarkozy conseguiu impor a José Barroso, presidente da Comissão, o francês Michel Barnier, que não é um liberal, como comissário para o mercado interno e serviços financeiros.

Esse cargo, que tem um papel chave no sistema financeiro europeu era ocupado por Charlie Mc Creevy, um irlandês ultraliberal. Londres apreciava muito esse Charlie que se recusava, mesmo depois da tormenta financeira, "regulamentar" os bancos e as finanças da Europa.

Charlie McCreevy desapareceu. É o francês Michel Barnier que ocupa agora o posto. A City londrina espuma de raiva. A seus olhos, Sarkozy incendeia a praça londrina. Ele está completamente louco. Quer que os mercados sejam "regulados", que horror! A "belle époque" liberal das finanças acabou. Entramos numa fase de controle. E, com o tempo, esse delinquente do Sarkozy pretende demolir a City.

Em vinte e quatro horas essas suspeitas inflamaram o mundo financeiro britânico. É preciso dizer que Sarkozy, feliz por ter conseguido colocar um títere seu no centro do sistema financeiro da Europa, Michel Barnier, não conseguiu evitar uma demonstração de força, como é de hábito, dizendo que "a crise surgiu da deriva do modelo anglo-saxão".

"Quero para o mundo a vitória do modelo europeu, que não tem nada a ver com os excessos do capitalismo financeiro", afirmou o presidente francês.

E foi essa frase que provocou o furor da City. A diretora da Associação de Bancos britânicos Angela Knight retrucou: "Se alguns na Europa pensam ser capazes de reverter os anos de trabalho que foram necessários para fazer do Reino Unido o centro financeiro do planeta, eles estão redondamente enganados".

E o jornal britânico The Times acrescentou que "a história se repete com um novo ataque francês contra a City". Uma caricatura mostra Sarkozy seguindo os passos do general de Gaulle (odiado na Inglaterra) e de Napoleão (ainda mais detestado). E o diário conclui que "os ataques populistas de Sarkozy contra o capitalismo financeiro são desinformados e provocativos".

Essa querela não é frívola. Londres quer que os negócios sejam retomados, tão logo passe a crise, como se nada tivesse sucedido. A orgia dos traders, das bonificações, dos pacotes de indenizações para os executivos do alto escalão e dos especuladores, devem recomeçar, depois de um pequeno entreato.

Mas, ao contrário, a França e outros países europeus não querem que as finanças retomem essa trajetória maluca. Paris deseja que a supervisão financeira, longe de ser relaxada, seja, pelo contrario, endurecida.

Duas outras autoridades internacionais apoiam a proposta "reguladora" de Sarkozy: Dominique Strauss-Kahn, diretor do Fundo Monetário Internacional (FMI), e Jean-Claude Trichet, o patrão do Banco Central Europeu (BCE), já se manifestaram nesse mesmo sentido. Segundo eles, os eleitores são contribuintes. E, no futuro, não aceitarão mais vir em socorro das finanças internacionais.

Nos dois campos, francês e britânico, os mais sensatos tentam apagar as chamas. Alguns banqueiros da City procuram se consolar, lembrando que essas arranhadas de Sarkozy só produzirão pequenas escoriações nas finanças britânicas, pois a Europa sempre necessitará de uma praça financeira forte como a City.

Do lado francês, o que se diz é que os ingleses, querendo ou não, terão de reduzir suas pretensões e aceitar que o mundo, depois da crise financeira, mudou.

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