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César Muñoz Acebes. Washington, 10 out (EFE).- A América Latina enfrenta um período no qual será muito difícil captar dinheiro no exterior devido à aversão generalizada ao risco, disse hoje o diretor do departamento para essa região do Fundo Monetário Internacional (FMI), Anoop Singh.

Até agora, a região tinha resistido bem às ondas expansivas da crise financeira nos países desenvolvidos, declarada há pouco mais de um ano, mas será sacudida pelo maremoto das últimas semanas, no julgamento do FMI.

Singh prevê que as contas públicas "sentirão a tensão", especialmente porque muitos Governos dependem da receita gerada pela venda de matérias-primas.

Nesse ponto, o FMI tem más notícias para os grandes exportadores desses produtos como Chile, Equador e Bolívia.

"O principal risco agora para a América Latina, à parte dos problemas financeiros, é se o arrefecimento mundial provocar uma redução maior dos preços das matérias-primas", disse Singh em sua última entrevista coletiva como encarregado dessa região no FMI.

O economista indiano, que passará a se ocupar do departamento Ásia-Pacífico, diz que haverá uma queda nos preços, como aconteceu durante as desacelerações econômicas dos últimos 40 anos.

Pelo menos, a baixa beneficiará o Caribe e a América Central, que são importadores de matérias-primas.

Em compensação, alguns países, como o México, sentirão sua ligação com os Estados Unidos, que segundo o FMI sofrerá uma recessão no final deste ano e no início do ano que vem.

Por isso, essas nações enfrentarão a previsível redução das remessas diante das dificuldades econômicas de seus cidadãos que moram no estrangeiro.

A América Latina em seu conjunto sofrerá com o desaparecimento súbito da liquidez. "Será difícil ter acesso aos mercados", disse Singh.

No entanto, o funcionário acredita que as bolsas mostram uma reação excessiva aos problemas econômicos mundiais, algo usual quando há crise, e que as condições possivelmente voltarão a se normalizar e permitirão à América Latina voltar a obter financiamento externo.

Em outras ocasiões, um período, embora breve, sem capital externo seria sinônimo de uma crise de dívida na região, mas não será assim desta vez, segundo José Fajgenbaum, subdiretor do departamento da América Latina.

O funcionário destacou que os Governos latino-americanos têm suas necessidades de financiamento a curto prazo e alguns inclusive para todo o ano de 2009 cobertas.

As empresas não são tão afortunadas e algumas delas provavelmente terão que adiar planos de expansão diante da escassez de créditos nos mercados internacionais, segundo o FMI.

Em todo caso, Singh afirmou que as companhias latino-americanas dependem menos do capital externo do que o setor privado em outras regiões.

Apesar de todos os problemas, o FMI prevê que a América Latina crescerá 4,6% este ano e 3,2% em 2009.

Singh enfatizou que em seus cálculos o organismo assume que os Governos dos países desenvolvidos conseguirão estabilizar o sistema financeiro com intervenções extraordinárias nos mercados.

Essa realidade, por enquanto, parece distante para Wall Street, que hoje pela tarde continuava com as súbitas quedas experimentadas durante toda a semana.

A maioria dos analistas também parece compartilhar uma visão pessimista.

Nouriel Roubini, professor de economia da Universidade de Nova York, predisse hoje em um seminário no Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) que a América Latina entrará em recessão.

Roubini foi uma das poucas vozes que previu a gravidade da crise atual e agora acredita que a recessão nos EUA durará entre 18 e 20 meses, e arrastará consigo o resto do mundo.

Para a América Latina, pelo menos, o problema tem um aspecto positivo: a queda previsível da inflação.

Em agosto, os preços subiram em média 8% na região em termos anuais, a maior taxa em cinco anos.

No entanto, a desaceleração econômica mundial e a queda dos preços do petróleo e de outras matérias-primas desinflarão esse número, segundo o Fundo.

"O entorno global sobre a inflação está mudando", disse Singh.

Isso permitirá a alguns Governos, como o brasileiro, o chileno e o mexicano, estimular a economia com medidas fiscais ou monetárias, afirmou o FMI. EFE cma/ab/ma

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