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Para especialistas, economia mais estável exige que inflação tenha um ritmo abaixo do desempenho do PIB

A economia do Brasil pode entrar em um ciclo de crescimento mais estável e com menos pressões sobre os preços ao consumidor se o Produto Interno Bruto (PIB) tiver resultados superiores aos do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) por períodos sucessivos.

Mas para que isso seja possível, segundo alguns especialistas, é necessária a adoção de várias medidas a começar pela redução nos gastos de custeio do governo federal, a ampliação do nível de poupança interna, uma revisão da estrutura tributária e previdenciária, e a melhoria nas condições de infraestrutura do Brasil. Além disso, uma mudança no vetor de desenvolvimento da economia, que no momento está focado no consumo e não na produção e no desenvolvimento de novas tecnologias, seria salutar de acordo com economistas.

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O resultado do PIB anual , divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), já vem expresso em termos reais e é, portanto, a variação da riqueza produzida pelo País e que excedeu a elevação dos preços. Dessa forma, sempre há variação positiva do PIB quando a taxa de crescimento excedeu a alta dos preços.

Mas o problema segue sendo a forte indexação da economia. Uma inflação mais baixa ajudaria, por exemplo, a contornar pressões por reajustes de salários com base na inflação passada e mitigar seus efeitos futuros na economia.

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Levantamento realizado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) e divulgado nesta quarta-feira mostrou que os reajustes salariais em 2011 conquistaram ganho real de 1,38%, em média.

Segundo o Dieese, 86,8% dos 702 acordos coletivos analisados conseguiram aumento acima da inflação medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC), que no ano passado foi de 6,08%. Ainda segundo o Dieese, cerca de 8% dos acordos salariais igualaram a inflação e outros 6% ficaram abaixo no ano passado.

Esses dados confirmam a tendência verificada nos últimos anos de que a maioria das categorias profissionais obteve aumentos reais de salário.

Na avaliação de Emerson Marçal, coordenador do Centro de Macroeconomia Aplicada (Cemap) da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (EESP-FGV) não é sustentável para o País ter uma pressão de inflação de 6,5% , como a acumulada em 2011, sobre a economia no ano seguinte. “Isso torna a tarefa de controle da inflação mais complicada”, disse.

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Nas projeções do professor da FGV, até maio, a inflação acumulada em 12 meses deve cair para um patamar entre 5% e 5,5%. Segundo Marçal, caso o governo queira conter esse índice, além de reduzir as taxas de juros, para manter a atividade econômica, é preciso segurar os gastos públicos e fazer cortes no orçamento em longo prazo. “O ideal seria que o PIB tivesse uma taxa de crescimento maior do que a inflação, sistematicamente, fato que não ocorre há anos”, acrescenta Marçal.

Expansão do consumo das famílias tem sido o principal vetor de crescimento da economia
AE
Expansão do consumo das famílias tem sido o principal vetor de crescimento da economia

Desde 1980, ( ver gráfico ) o desempenho do PIB superou o índice oficial de inflação em 2006, 2007 e 2010, segundo dados do IBGE.

Em fevereiro, a inflação calculada pelo IPCA registrou alta de 0,45% . As altas mais expressivas e de maior peso no índice ficaram com habitação (0,60%), educação (5,62%) e saúde e cuidados pessoais (0,70%). Com o resultado, o indicador dos últimos 12 meses ficou em 5,85%. “Serviços continuam sendo os vilões da inflação por conta da alta demanda por estes bens, o que deixa a inflação, no acumulado do ano, em um patamar desconfortável”, disse o professor da FGV.

Durante um longo período, após a Segunda Guerra Mundial, entre os anos 50 até a década de 70 as políticas na área de economia eram relativamente permissivas com a inflação com base na premissa de que haveria mais crescimento com mais inflação.

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Quando a inflação passou a ser um problema sério nas economias maduras, nos anos 1980, e casou sérios desequilíbrios em economias em desenvolvimento, como o Brasil, essa tese caiu em desuso e deu lugar à ideia de que inflação impede o crescimento.

Daquele momento em diante, os esforços passaram a ser no sentido de priorizar o combate à inflação, já que a menor inflação leva a um crescimento com mais solidez nos fundamentos.

Pedro Paulo Silveira, economista-chefe da TOV Asset Management, avalia que não há muito acordo entre as várias correntes do pensamento econômico em relação ao tema. De acordo com Silveira, um cenário com menor inflação e maior crescimento se aplica muito bem aos países desenvolvidos, mas é pouco aplicável aos emergentes.

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“Os emergentes requerem altas taxas de crescimento e absorção de enormes contingentes populacionais aos mercados de trabalho e de consumo”, disse Silveira. “Essa absorção eleva a demanda por bens primários e pressiona a inflação por meio da elevação de preços de matérias-primas e salários. Nesses casos, mais crescimento leva a mais inflação nesses países. É inevitável que países que passem por fases de forte crescimento, com pressão sobre matérias-primas e salários, enfrentem maiores taxas de inflação que os países com economias mais maduras”, acrescentou o economista da TOV.

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Para Jankiel Santos, economista-chefe do Espirito Santo Investment Bank, só há expansão econômica sem pressões inflacionárias quando existe capacidade de a oferta suprir o aumento da demanda de maneira satisfatória. Ou seja, quando existe capacidade ociosa para produção de bens e serviços que serão demandados pelos consumidores.

“Isto requer que, em um momento inicial, exista uma renúncia ao consumo, que gere poupança para utilização em investimento”, disse Santos. “Voltamos à questão que para se ter maiores regalias no futuro, é preciso antes fazer sacrifícios. Dado que o setor privado já se sacrifica bem, fica restando o setor público fazer sua parte”, acrescentou.

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