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Recuo da inflação e relativa estabilidade dos mercados mostram que crise política tem impacto contido na esfera econômica

Palocci, Dilma e Mantega, em reunião sobre desenvolvimento econômico no Planalto
Agência Brasil
Palocci, Dilma e Mantega, em reunião sobre desenvolvimento econômico no Planalto
Com a mesma velocidade que a lua-de-mel dos primeiros cem dias de governo de Dilma Rousseff virou pesadelo com a crise envolvendo o ministro Antonio Palocci, chefe da Casa Civil, o colega Guido Mantega ganhou força e credibilidade à frente da Fazenda nas últimas semanas.

Há pouco mais de um mês, o controle da inflação e o combate ao aumento desenfreado dos juros era tido como um temor bastante factível por economistas de renome , deixando Mantega quase isolado na firme confiança de que a os preços voltariam a cair. Agora, por cinco semanas seguidas, a pesquisa de mercado feita pelo Banco Central, mostra recuo nas expectativas para 2011.

Há um mês, Mantega declarou que o IPCA, índice da inflação oficial, estava em um ponto de inflexão e que recuaria , para que a inflação ao fim do ano convergisse ao menos para o teto da meta, de 6,5%. Apesar de ainda elevado, o anúncio do r ecuo do IPCA em maio hoje coroa essa ascensão de Mantega, que consegue manter a economia sob controle mesmo com o abalo de Palocci, tido outrora como o "fiador" de uma política econômica ortodoxa desse governo Dilma.

Discrição com bons resultados

Em Brasília, nenhum membro da equipe econômica assume abertamente, mas o time liderado por  Mantega tem comemorado aqui e acolá o fato de, apesar da grave crise política pela qual passa o governo, os mercados terem se comportado de forma relativamente tranquila desde a primeira divulgação do crescimento abrupto do patrimônio de Palocci .

Durante o período de transição, muitos participantes do mercado financeiro tinham na figura do atual chefe da Casa Civil um “fiador” de que o governo teria um comportamento ortodoxo do ponto de vista fiscal e econômico. O agravamento de crise, porém, foi acompanhado por números melhores da macroeconomia brasileira divulgados recentemente, o que conteve os ânimos mais alarmistas.

Essa avaliação, porém, não será trazida a público por nenhum ministro para que não seja interpretada como uma “alegria com a desgraça alheia”. Desgraça essa, obviamente, do colega Palocci. A discrição é ainda mais importante tendo em vista que nomes de membros da equipe econômica, como Miriam Belchior e até Mantega, circula entre os cotados para a Casa Civil.

A despeito da reclusão, a visão atual de participantes da equipe econômica – integrada por membros do Banco Central e do Ministério do Planejamento, além da equipe da Fazenda – é de que os mercados estiveram bem comportados durante a crise política .

Estabilidade tem valor intrínseco

Ou seja, que as medidas macroprudenciais, o controle da inflação e o ajuste fiscal impostos no início do governo de Dilma Rousseff reforçaram a credibilidade da equipe econômica , independentemente das pessoas que ocupam as suas posições. Nesse contexto, a estabilidade teria um valor intrínseco superior às reviravoltas políticas, avaliam integrantes da equipe.

Ontem, o câmbio fechou abaixo de R$ 1,60 e no último mês o índice Bovespa mostrou oscilação bastante confortável. Em outros momentos, o câmbio disparava e a bolsa despencava em poucos dias, destaca um assessor econômico do governo.

Um interlocutor de Mantega lembra que, em crises anteriores, como a do mensalão, o mercado financeiro usava os elementos para fazer fortes oscilações. “Desta vez, não tem nem marola, que é sempre interesse dos especuladores.”

Uma nova elevação da taxa Selic amanhã, na reunião do Conselho de Política Monetária (Copom), tenderia a reforçar ainda mais a percepção de economistas sobre a austeridade econômica do governo atual.

Secretária de Orçamento está "supertranquila"

Do ponto de vista fiscal, não houve também grande tumulto, como em outros tempos de turbulência política. Quem diz isso ao iG é a própria Célia Correa, secretária de Orçamento Federal, órgão ligado ao Ministério do Planejamento e responsável por delimitar o corte de R$ 50 bilhões no orçamento de 2011.

O corte foi muito bem discutido e o governo continua seguindo-o, sem ampliar os limites de gastos, diz ela. “Os ministérios têm feito seu dever de casa.” O governo federal contou também com um bom incremento das receitas para mostrar resultados fiscais favoráveis no primeiro trimestre do ano, quando o superávit primário cresceu R$ 16,7 bilhões.

Segundo Célia, em função da questão política, não houve absolutamente nenhuma repercussão em matéria fiscal. Em outros momentos, sempre alguém solicitava, por exemplo, um limite adicional para conter a fúria do Congresso. “Estamos sendo vigilantes e rigorosos em relação àquilo que foi proposto na ocasião do corte. Aqui a gente está supertranquilo.”

A desaceleração do índice de inflação divulgado hoje também ajuda a conter a ansiedade do mercado financeiro e de investidores em função da conjuntura política. Embora Palocci ainda tenha seu peso no mundo econômico do país, que continuam a fazer pressão em Brasília por sua permanência na Casa Civil, entende-se que não há escândalo com seu abalo e eventual queda do cargo.

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