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Para produzir vinhos de qualidade semelhante aos franceses, californianos saem à caça de terrenos especiais e acostumaram-se às sucessivas safras perdidas

Kevin Harvey, proprietário da vinícola Rhys, só coloca seu vinho no mercado quando considera que a safra foi excepcional
New York Times
Kevin Harvey, proprietário da vinícola Rhys, só coloca seu vinho no mercado quando considera que a safra foi excepcional
A safra de 2011 não foi gentil com a vinícola Rhys. Tempo frio em junho, tempo quente em setembro e algumas chuvas inoportunas significaram que a colheita da uva caiu 60% a partir de 2009 e 2010.
Mesmo com a safra reduzida, a Rhys decidiu se desfazer de um pouco do vinho, e o vendeu a produtores em massa após identificar que ele não era distintivo o suficiente para lançá-lo sob sua própria marca. Assim é a vida vitícola.

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Para Kevin Harvey, proprietário da Rhys, o déficit foi uma compensação dolorosa por fazer obsessivamente alguns dos melhores pinot noir dos Estados Unidos. Com uvas cultivadas principalmente em vinhas localizadas ao longo de encostas perigosas aqui, nas Montanhas Santa Cruz, na Califórnia, a Rhys produz vinhos cativantes, com uma intensidade saborosa, pedregosa e complexa que oculta as suas marcas graciosas e texturas elegantes. No entanto, em anos como 2011, estabelecer padrões elevados - e mantê-los - custa um preço às finanças da vinícola."É horrível", disse Harvey. "Pelo menos 90% de nossos custos são fixos. Simplesmente não temos todo esse rendimento."

Em 2011 o Rhys não foi lançado por conta da baixa qualidade da safra
New York Times
Em 2011 o Rhys não foi lançado por conta da baixa qualidade da safra
Não que alguém precise sentir pena de Harvey. Ele é um investidor de capital de risco e fanático pela Borgonha que teve um grande êxito na década de 1990 e se lançou com coração, alma e conta bancária no negócio vitícola. Depois de dois experimentos iniciais com vinhedos - um em seu próprio quintal, localizado em uma ladeira, e outro com os vizinhos em uma antiga fazenda de árvores de Natal -, ele começou a explorar as montanhas, buscando locais que permitissem criar vinhos equilibrados, frescos e complexos que necessitassem de uma intervenção mínima. Inicialmente, ele encontrou três locais geologicamente distintos em encostas rochosas, de difícil exploração agrícola.

Com o lançamento de sua primeira safra, de 2004, reconheceu-se quase universalmente os vinhos da Rhys como brilhantes e bastante expressivos em relação ao lugar de onde vêm. Fiquei impressionado na minha primeira visita a Rhys, em 2007, e, em uma recente viagem que fiz à nova adega e cava da vinícola - construída na encosta de uma montanha, no vinhedo Skyline -, descobri que os vinhos se tornaram ainda mais concentrados. Eu degustei os esplêndidos vinhos de 2010, encontrando distinções claramente discerníveis entre eles, o santo graal terroir que os produtores de pinot noir do Novo Mundo se esforçam para produzir, mas raramente conseguem.

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O vinhedo Family Farm, em uma encosta suave que fica ao pé da montanha, produziu um vinho com grande refinamento, uma qualidade floral incomum e sabores minerais encantadores. O vinhedo Home, a primeira plantação, do quintal de Harvey, tecnicamente fora da denominação das Montanhas Santa Cruz, era mais maduro, mais denso e mais concentrado, com um aroma de alcaçuz. O vinhedo Skyline, que fica no alto das montanhas, acima da linha da neblina, ofereceu aromas de violetas e especiarias exóticas, enquanto o vinhedo Horseshoe, em ladeiras íngremes, produziu um vinho austero, com aromas minerais intensos.

Kevin Harvey, dono da vinícola Rhys, na Califórnia. Mau tempo do ano passado reduziu a colheita em 60%
Jim Wilson/The New York Times
Kevin Harvey, dono da vinícola Rhys, na Califórnia. Mau tempo do ano passado reduziu a colheita em 60%

O pinot noir do vinhedo Alpine Road, a pouco menos de um quilômetro de distância, ofereceu sabores mais doces, de frutas vermelhas - "uma gordura de bebê", disse Harvey, o que ele previu que será deixado para trás com a idade. No entanto, o Swan Terrace, parte do vinhedo Alpine que foi engarrafada separadamente porque Harvey e seus colegas acreditam que ele tem um caráter próprio, era de fato notavelmente diferente, com um aroma floral e sabores deliciosamente salgados.

O maior problema dos vinhos Rhys é que são feitos muito poucos deles. Em parte, isso se deve às safras das vinhas montanhosas, que são tão baixas, inclusive em comparação com vinhas de baixo rendimento que há em ambientes mais amigáveis, que podem produzir duas a duas toneladas e meia de uvas por aproximadamente metade de um hectare."Nos vinhedos Alpine e Horseshoe, provavelmente conseguimos em torno de uma tonelada em um ano mediano", disse Harvey, "e em anos como 2005 e 2011, não conseguimos quase nada".

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Para produzir mais vinho e explorar terroirs mais distintivos, Harvey deixou a sua zona de conforto em Santa Cruz alguns anos atrás para comprar um vinhedo no vale Anderson, no condado de Mendocino. A safra de 2008 foi a primeira dessa vinha, designada Bearwallow, e, em 2013, mais de 10 hectares estarão prontos para a produção. O Bearwallow 2010 era mais frutado do que os vinhos de Santa Cruz, que têm aromas de bagas doces e um toque de romã.

Recentemente, Harvey comprou um pomar de maçãs abandonado no extremo sul das Montanhas Santa Cruz. Ele espera plantar mais de 8 hectares no ano que vem.

Em busca de locais em potencial, Harvey se baseia em uma perspectiva detalhada, quase com olhos de perito, dos grandes vinhedos de todo o mundo. Alguns podem considerar seus resultados como contraproducentes na Califórnia.

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"O clima está absolutamente supervalorizado em termos do que deriva do pinot noir", disse ele enquanto passeávamos nas encostas escarpadas do vinhedo Alpine. À distância, neste dia estranhamente claro, mal conseguimos ver o Pacífico. "Nosso local mais quente vai produzir vinhos mais magros, em sua maioria vinhos de estilo de Borgonha, e o mais fresco, os vinhos mais maduros."

Muito mais importante do que isso, segundo ele, é o caráter do solo. Não simplesmente se ele é de xisto ou calcário (ambos ótimos para o pinot noir, garantiu), mas se ele é profundo e rochoso, com a capacidade de absorver e drenar rapidamente a água.

A maioria dos vinhedos grand cru na Borgonha, disse Harvey, não se encontra no meio da encosta da Côte d'Or porque lá é onde muitas pessoas acreditam haver temperaturas ideais, mas porque é onde a água é melhor drenada.

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"É um ambiente de muito equilíbrio", disse ele. "Ele oferece muitos nutrientes logo no início da temporada, e depois um déficit de água, que informa às videiras, 'Eu preciso amadurecer e sair daqui', deslocando-se de um ciclo vegetativo para um ciclo frutal."

É um desafio tentar imitar o alto nível do borgonha grand cru. Ainda assim, Harvey tem uma missão, além dos meios e da determinação para levá-la a cabo.

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