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Novo CEO da Singularity University diz saber como a energia limpa pode vencer as petrolíferas, como fazer israelenses e palestinos trabalharem juntos – e mais

Nail:
Reprodução/Facebook da SU
Nail: "teremos projetos em mais de 50 países, de empresas que solucionam problemas locais"
A vida de Rob Nail, 38, pode parecer um sonho. Ele fundou uma empresa de sucesso – não só isso, uma empresa de robótica ultramoderna, que fornecia tecnologia para cientistas trabalharem na cura do câncer. Parece legal? Ficou ainda melhor. Em 2007, vendeu o negócio para uma corporação gigante, ficou rico e decidiu passar um tempo surfando na Indonésia. Pense. Só uma coisa muito bacana faria alguém nessa situação voltar ao batente. Para Rob, essa coisa foi a Singularity University, ou Universidade da Singularidade, da qual virou CEO em outubro.

“O propósito da universidade é encontrar soluções para os grandes problemas, como energia, comida, água, saúde, educação, pobreza”, explica ele. “Trazemos pessoas do Bando Mundial, da ONU, de fundações, para entender quais são os reais problemas. Depois, chamamos executivos e cientistas, para ver como estão lidando com essas questões. No final, as turmas desenvolvem projetos que possam impactar um bilhão de pessoas em dez anos.”

Rob falou ao iG sobre a crise econômica, fez críticas ao Vale do Silício, na Califórnia (EUA) – onde fica a Universidade e as empresas mais inovadoras do mundo – e revelou novos projetos revolucionários. Por exemplo, fazer israelenses e palestinos trabalharem lado a lado, ou usar o próprio capitalismo para fazer a energia limpa bater as grandes petrolíferas. Veja, abaixo, os principais trechos da entrevista.

iG: Como a Universidade da Singularidade (US) vê a crise econômica internacional?
Rob Nail: A grande sacada da singularidade foi perceber que a evolução exponencial da tecnologia (conhecida por Lei de Moore) se aplica a uma série de outras áreas, como biotecnologia, robótica e negócios. Em qualquer um desses campos, a evolução gera mais evolução, permitindo mudanças cada vez mais rápidas, numa curva exponencial. Mas se isso correr sem que sejam previstas as implicações, o resultado pode ser muito ruim. A crise está arraigada nessa aceleração exponencial – e não totalmente compreendida – das coisas. Ao mesmo tempo, isso tudo criou as maiores oportunidades de negócios jamais vistas.

Do meu ponto de vista, uma grande razão é também o envelhecimento da população. Os EUA são um país onde a população envelheceu. A geração ‘baby boom’ está velha, não gasta mais dinheiro, não produz mais bens. Isso, infelizmente, ocorre nos EUA e impacta o mundo.

iG: Qual ideia da US poderia causar impacto positivo nesse cenário?
Rob Nail: Existem várias. Muitas saíram da universidade e se tornaram empresas, como a Get Around [ que atua no compartilhamento de veículos ], que tem grande potencial de impacto nos EUA, onde há 400 milhões de automóveis e 300 milhões de pessoas, ou a SU Coin, uma moeda virtual local .

Neste último programa, aconteceu algo interessante. Um empresário israelense viu uma de nossas competições e disse que pagaria se quiséssemos fazer uma competição na Palestina. Fizemos a competição. Estudantes israelenses e palestinos trabalharam juntos nos projetos. E um dos vencedores criou algo que vamos lançar agora, chamado Peace Project.

Alunos no campus da Universidade da Singularidade: ideias que podem impactar um bilhão de pessoas
Reprodução/Facebook da SU
Alunos no campus da Universidade da Singularidade: ideias que podem impactar um bilhão de pessoas
O projeto levanta fundos de pessoas interessadas na paz. Esses fundos servem para fazer israelenses e palestinos trabalharem juntos. Como? Existem muitos sites de contratação de freelancers [ trabalhos temporários ] na internet. Se um grupo [ interessado em pegar um trabalho ] for formado por dois israelenses e dois palestinos, por exemplo, eles recebem uma espécie de patrocínio desse fundo. Então, se um trabalho no site ia custar 60 mil dólares, esse grupo pode se oferecer para fazer por 30 mil, porque o fundo paga os outro 30 mil para eles. É um projeto que será lançado em breve.

iG: Qual seria uma crítica justa que poderia ser feita ao Vale do Silício?
Rob Nail: O Vale é uma cultura bastante isolada. Acontece de um empreendedor tentar criar uma solução para os africanos, sem nunca ter posto os pés em uma vila africana. Coisas assim. É uma comunidade bastante desconectada. Além disso, somos tão otimistas, achamos tanto que conseguimos solucionar qualquer problema, há tanto dinheiro lá, que às vezes o jovem empreendedor do Vale do Silício é muito inocente.

iG: Por que você abandonou a carreira para ir surfar?
Rob Nail: Eu vendi minha empresa. Fazia MBA e desisti para fundar uma empresa, para fazer robôs. Vendi para a Agilent, uma grande corporação. O que eu amava na minha empresa é que trabalhávamos com cientistas que estavam buscando a cura do câncer. Eu fazia uma tecnologia ‘supercool’, que os cientistas usavam. Era incrível. Quando vendi, a Agilent só se importava com os resultados financeiros, o foco era números, não impacto. Então, decidi parar [ em setembro de 2009 ].

Fiquei três meses na Indonésia, em Bali... Mas aí encontrei Peter Diamandis [ fundador da X Prize Foundation, que dá prêmios de até US$ 10 milhões para idéias revolucionárias ] e ele me contou que estava fundando a US. Eu fui conhecer e pirei. Coloquei dinheiro para custear o início da universidade, me tornei sócio e, em outubro, virei CEO [ Rob também é cofundador de outra empresa, a Alite Design ].

iG: O que faz um CEO da US?
Rob Nail: Quero expandir o componente educacional. Eu estava no México há duas semanas, fui para Hungria, Israel, agora estou aqui e vou para o Chile, Moscou, Itália... É preciso espalhar a visão e construir grupos locais. Lançar competições ao redor do mundo, para encontrar idéias que possam impactar um milhão de pessoas em São Paulo, Budapeste ou qualquer lugar. Encontrar caminhos para fazer essas idéias virarem empresas. No próximo ano, vamos criar centenas de projetos em cinquenta ou cem países, para que se tornem empresas que solucionem problemas locais.

iG: As grandes corporações permitiriam que uma ideia revolucionária virasse realidade?
Rob Nail: Veja essa história. No começo do século 19, Napoleão deu um jantar para o rei de Sião, um jantar muito luxuoso. Para os generais, foi dado talheres de prata. Napoleão e sua família usaram ouro. Para o rei, que era o convidado mais especial, foi dado talheres de alumínio. Porque naquela época, alumínio era algo muito raro. Mas o alumínio é abundante na natureza. Cem anos depois, descobrimos a eletrólise [ que tornou o alumínio banal ] e agora jogamos alumínio no lixo.

Agora pense no problema da energia. Hoje, todos brigam – petrolíferas, empresas, governos – por esse recurso que parece escasso. Mas, em uma hora, o planeta é banhado com mais energia do sol do que toda a humanidade usa durante um ano. Nós não temos um problema de energia, temos problema para captar energia. O preço dos painéis solares caiu mais de 50% no último ano – e isso está acelerando. Algumas pessoas já dizem que, ainda nessa década, o custo de energia solar será menor que o da energia baseada em carvão. Isso altera a estrutura de poder. É uma questão de preço de commodity: se for mais barato, a mudança acontece. Uma petrolífera não pode mudar isso.

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