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Visita de Obama ao Brasil ocorre em momento em que o País pode assumir a liderança em número de visitantes no estado americano

De repente, o Brasil parece estar por toda parte. Em sua primeira visita à América do Sul, em março, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, visitará o país, que também é o principal parceiro de negócios da Flórida. Os brasileiros estão também comprando luxuosas propriedades de frente para o mar e nos condomínios do centro de Miami - em investimentos que vão de imóveis à rede Burger King – além de saciarem o apetite voraz por compras no comércio da região.

The Miami Herald
Maria Helena Abreu testa uma cama da Artefacto
Uma agente de turismo diz que é como se um enxame de gafanhotos tivesse chegado ao sul da Flórida, devorando ruidosamente as pechinchas do Dadeland ou do Sawgrass Mills. “A tendência agora é vir para a Flórida para comprar, sem parar”, disse Claudia Menezes, da Pegasus Transportation, empresa que opera uma frota de ônibus para passeios convencionais e também para excursões de compras – opção muito popular entre os brasileiros. “Eles compram tudo, desde cremes de US$ 10 da Victoria Secret até bolsas Luis Vuitton e Prada”. Claudia dá um testemunho do consumismo brasileiro: quando a operadora leva os brasileiros de volta ao aeroporto, é necessário colocar um reboque atrás do ônibus para acomodar a bagagem sobressalente.

Para manter o fluxo constante de visitantes brasileiros, a American Airlines oferece 52 vôos semanais entre o Brasil e o Aeroporto Internacional de Miami. “O Brasil está quebrando todos os tipos de recordes. O país se transformou em um astro de rock”, disse Rolando Aedo, vice-presidente de marketing do Centro de Convenções e Visitantes de Miami.

Depois de computados todos os números de 2010, a expectativa é de que mais de 500 mil brasileiros tenham visitado o distrito de Miami-Dade nesse período, deixando ali mais de US$ 1 bilhão. Esses dados elevariam o Brasil ao topo da lista de visitantes internacionais ao estado, destronando o líder perene, o Canadá.

Nos anos de alta do petróleo, os venezuelanos eram lendários pela prática de sempre comprarem mais de um item igual (“Dame dos”, eles diziam) e os latinos-americanos sempre adoraram fazer compras no sul da Flórida. Mas, o que diferencia os brasileiros é que eles são muito mais numerosos – e gastam muito mais. Para suprir a demanda dos brasileiros, o órgão local de turismo publicou guias de compras, mapas e outros materiais em português.

Embora o Aeroporto Internacional de Fort Lauderdale não opere voos diretos provenientes do Brasil, o número de brasileiros que visita o distrito de Broward a cada ano teve um aumento de 50% – chegando a 300 mil no ano passado. O Brasil agora é o segundo maior mercado internacional no distrito de Broward, ficando atrás somente do Canadá.

A corretora de imóveis Fabiana Pimenta, à direita, apresenta um apartamento em Miami para a funcionária pública brasileira Maria Helena Abreu
The Miami Herald
A corretora de imóveis Fabiana Pimenta, à direita, apresenta um apartamento em Miami para a funcionária pública brasileira Maria Helena Abreu

“Eles chegam via Miami, mas frequentam o Sawgrass Mills (no distrito de Broward)”, disse Francine Mason, porta-voz do Centro de Convenções e Visitantes de Fort Lauderdale. Eles também viajam ao estado para visitar familiares. É no distrito de Broward, principalmente nas proximidades de Pompano Beach e Lighthouse Point, que se encontra o maior contingente de brasileiros residentes da Flórida.

Vivendo lá

Segundo estimativas do Consulado do Brasil em Miami, entre 250 mil e 300 mil brasileiros moram na Flórida, a maioria deles em Orlando e nos distritos de Broward e Miami-Dade. Mas, o que provocou essa debandada?

A economia brasileira está em franca expansão e a expectativa é que ela se torne a quinta maior do mundo até 2016. O índice de desemprego se encontra em uma baixa recorde no país. E, talvez, o mais importante seja a moeda brasileira – o real –, que está extremamente forte em relação ao dólar, tornando as viagens e gastanças na Flórida mais acessíveis aos brasileiros.

A corretora de imóveis Fabiana Pimenta
The Miami Herald
A corretora de imóveis Fabiana Pimenta
Para os residentes de São Paulo, uma semana no sul da Flórida sai mais em conta do que o mesmo período no Nordeste do Brasil. “Os imóveis estão caríssimos no Brasil atualmente – para muita gente, os preços são inalcançáveis”, disse Claudia Bacelar, corretora brasileira da filial da Esslinger-Wooten de Coral Gables.

Edgardo Defortuna, principal executivo da Fortuna International, faz uma comparação entre preços de imóveis no Brasil e na Flórida. Ele diz que um apartamento de três quartos no Jade Ocean, em Sunny Isles Beach, custa em torno de US$ 1,6 milhões de dólares, enquanto que um imóvel equivalente em Belo Horizonte sairia por US$ 2,5 milhões.

E este não é o único motivo para a atração de tantos brasileiros: eles simplesmente adoram esse estado americano. “A Flórida sempre foi uma favorita. O clima tropical, as praias, o benefício das compras e é claro que agora tudo ficou mais acessível. Quando vejo os brasileiros fazendo compras aqui, fico em estado de choque!”, Claudia exclama.

Um exemplo disso é o Dolphin Mall, shopping center próximo do Aeroporto Internacional de Miami: lá, os brasileiros estão no topo dos turistas internacionais, ultrapassando os venezuelanos pela primeira vez no ano passado. As informações são de Madelyn Bello Calvar, diretora de marketing do shopping. Ela diz que eles costumam gastam três vezes mais que os consumidores locais.

Marcos Freire, gerente geral do Sawgrass Mills, assiste com satisfação aos turistas que inundam o centro de compras e lotam os ônibus falando português e usando conjuntos de calça e moletom. Pesquisas do Sawgrass Mills mostram que os brasileiros são seus maiores consumidores internacionais, seguidos pelos colombianos e canadenses. “Só que os brasileiros estão muito na frente”, Freire diz.

Quanto aos consumidores, Freire afirma que eles são extremamente aficionados por marcas, lotando seus carrinhos com itens Nike, Adidas, Tommy Hilfiger, além de grandes grifes, televisões, videogames e os últimos lançamentos tecnológicos. O carioca Freire diz que os brasileiros sabem onde comprar nos Estados Unidos. “Eles fazem a lição de casa e chegam já sabendo aonde ir”, ele diz.

Menezes, cuja empresa opera passeios de compras com parada no Sawgrass, diz que antigamente os grupos brasileiros pediam alguns dias na praia, em Orlando ou em Everglades, e talvez um dia para compras. “Agora temos alguns grupos que vêm para quatro ou cinco dias exclusivamente de compras. Este ano, pela primeira vez recebemos excursões para aproveitar as liquidações da Black Friday”.

E não são somente os hotéis e lojas que estão se beneficiando da bandeira verde amarela fincada no sul da Flórida. As vendas de imóveis para brasileiros também estão a todo vapor. “Hoje eles representam o setor estrangeiro mais importante no mercado do sul da Flórida. Eles aumentaram muito nos últimos 12 meses”, diz Defortuna.

Vista parcial da orla de Miami: brasileiros ampliam seu peso no comércio local
Getty Images
Vista parcial da orla de Miami: brasileiros ampliam seu peso no comércio local

Esse aumento foi tão expressivo que, no fim do ano passado, a Fortune International abriu uma filial em São Paulo para vender projetos de luxo - como o Jade Ocean, o Icon Brickell e o Trump Hollywood. “Nunca tinha visto nada igual, tamanha demanda. Todos os dias eu recebo ligações e e-mails com uma nova proposta ou contato do Brasil”, disse a brasileira Fabiana Pimenta, uma das principais corretoras da Fortune. Segundo Defortuna, cerca de um quarto de todas as vendas atuais da Fortune são para brasileiros.

Os compradores

Defortuna diz que, basicamente, eles se dividem em duas categorias: compradores de alto padrão que estão adquirindo um imóvel para uso próprio – mesmo que seja sua segunda, terceira ou quarta casa – e investidores que costumam gravitar em torno de unidades do Brickell ou nas áreas centrais de Miami. Os corretores dizem que quando os brasileiros compram para uso próprio, a preferência é por propriedades à beira-mar de Miami Beach e na região de Sunny Isles Beach.

O aquecimento nas vendas dos imóveis também trouxe resultados positivos a outros segmentos. Cinco anos atrás, a Ornare – sofisticada marca brasileira de cozinhas, banheiros e armários - inaugurou sua primeira loja no Design District de Miami. E, enquanto o mercado local de imóveis sofria uma grande queda, o mesmo não aconteceu com a loja brasileira.

Seus closets com portas em couro, metais de banho sofisticados e cozinhas elegantes encontraram um mercado já pronto na cidade. E, cada vez mais, são os brasileiros os responsáveis pelas compras. As vendas da marca brasileira subiram quase 40% desde o ano passado e agora a Ornare pretende abrir showrooms em mais cinco cidades americanas, diz Claudio Faria, diretor da loja de Miami - que importa praticamente tudo de seu showroom em São Paulo.

Em 2009, os brasileiros representavam apenas 5% das vendas da Ornare em Miami. Segundo Faria, esses números agora chegam a 25%. A designer de interiores Mirtha Arriaran, que tem um escritório de decoração na cidade desde 1995, conta que um de seus clientes brasileiros endinheirados comprou um apartamento em Miami que seria sua décima segunda residência. “Esses brasileiros têm muito, muito dinheiro. Eles não estão atrás de pechinchas. Eles são o tipo de cliente que primeiro escolhe o apartamento e depois pergunta o preço”, ela diz.

Os brasileiros representam aproximadamente 85% da clientela da também brasileira Mirtha, que anda tão ocupada com as vendas de novos imóveis que seu escritório, o MAS Interior Design, não está aceitando novos clientes.

Mas nem todos os brasileiros que compram imóveis na Flórida são multimilionários. “Brickell se tornou muito acessível para a classe média”, disse Claudia. Recentemente, ela vendeu vários apartamentos menores na área por preços abaixo de US$ 200 mil – com taxas de manutenção também mais baixas.

O segmento das empresas aéreas também viu mudanças positivas. A American Airlines só operava voos de Miami para duas cidades brasileiras – Rio de Janeiro e São Paulo. Quatro novos destinos foram adicionados: Brasília, Belo Horizonte, Salvador e Recife. “Estar presente em seis cidades de um mesmo país é extremamente representativo para a American. Estamos em alta no Brasil”, disse Martha Pantin, porta-voz da companhia aérea. A brasileira TAM foi outra a ampliar a frequência de voos diretos de Miami para Brasília e Belo Horizonte, complementando seus voos diários para São Paulo, Rio e Manaus.

Mas, o melhor ainda está por vir. Com a Copa do Mundo de 2014 no Brasil e os Jogos Olímpicos de 2016 no Rio, a American Airlines já está negociando voos extras para o Brasil durante o período anterior e posterior à Copa do Mundo.

Pantin diz que a visão da empresa americana é que Miami será um ponto de trânsito para pessoas do mundo inteiro a caminho dos eventos esportivos. “A Copa do Mundo também irá apresentar aos americanos novos destinos no Brasil”, ela explica.

A conexão empresarial e mercantil entre o Brasil e a Flórida está cada vez mais forte – o Brasil é o parceiro comercial número um do ensolarado estado americano. De acordo com as estatísticas mais recentes, durante os 11 primeiros meses de 2010, o comércio de mercadorias da Flórida com o Brasil chegou a US$ 14,4 bilhões – um aumento de 27% em relação a 2009.

A Enterprise Florida recentemente reabriu seu escritório no Brasil. Além de promover produtos e serviços da Flórida, a empresa também pretende atrair investidores brasileiros para o estado americano.

As brasileiras Embraer e a Odebrecht já dispõem de operações extensivas no sul da Flórida. No ano passado, o banco de investimentos 3G Capital adquiriu o Burger King em um negócio de US$ 4 bilhões.

Manny Mencia, vice-presidente de desenvolvimento internacional da Enterprise Florida comentou a conexão empresarial de seu estado com o Brasil: “Nós acreditamos que, com o crescimento do Brasil como potência econômica mundial, este será um terreno muito fértil para recrutar empresas para a Flórida. Nenhum mercado em expansão oferece tantas oportunidades para a Flórida como o Brasil”, disse

Por Mimi Whitefield. Tradução: Claudia Batista Arantes