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Conheça a história de pessoas que viram seus ganhos saltarem ao mesmo tempo em que a renda per capita chegou a US$ 10 mil

Michelle Gomes, ao lado do filho: renda saltou 1817%¨entre 1996 e 2010
Arquivo pessoal
Michelle Gomes, ao lado do filho: renda saltou 1817%¨entre 1996 e 2010

Entre 1996 e 2010, a renda per capita do brasileiro saltou de US$ 5 mil para US$ 10 mil. Neste período, a economia passou por um processo de clara evolução – o País viu nascer uma classe média com potencial forte de consumo -, a inflação foi controlada e muitos brasileiros viveram grandes saltos na qualidade de vida. É o caso da empresária Michelle Gomes, 33 anos de idade. Ao contrário da geração da década perdida, que mesmo estudando e buscando melhorar de vida retrocedeu em relação a seus pais, ela conseguiu, em 14 anos, ver sua renda disparar de R$ 365 para R$ 7 mil mensais.

Em 1996, aos 18 anos de idade, Michelle ingressou no mercado de trabalho como projetista em uma empresa de móveis personalizados. Recém-formada na escola técnica, a estudante seguiu o caminho natural de seus colegas. “Esse era o caminho da minha geração: trabalhávamos para pagar uma faculdade", diz. "Eu sou de família simples e meus pais não tinham condições de pagar meus estudos.”

Com o primeiro salário, Michelle se matriculou em um cursinho pré-vestibular, ao mesmo tempo em que experimentava novos voos profissionais. Quando entrou na faculdade, um ano depois, ela ganhava R$ 450, praticamente o valor da mensalidade. “Pedi demissão, porque o salário era insuficiente e eles me fizeram uma contraproposta”, diz.

Atraída pelo novo salário, Michelle se manteve no emprego, mas, no segundo ano de faculdade, viu seus planos mudarem de rota. “Meu pai ficou desemprego e eu precisei trancar a faculdade", afirma. "Todo meu dinheiro era destinado para a família.”

Em 2000, a situação econômica da família se estabilizou – Michelle ganhava mais de R$ 1 mil por mês – e ela decidiu fazer um curso de especialização. Permaneceu na mesma empresa até 2006, chegando a ganhar um salário de R$ 3 mil, quando decidiu deixar tudo e estudar no exterior. “Fiquei na Inglaterra um ano e dez meses e voltei com o ‘kit família’: marido e grávida.”

Como ainda tinha uma reserva de dinheiro da viagem, Michelle se arriscou em um negócio próprio. Abriu um escritório de decoração, em março de 2008, na região da Santa Cecília, na cidade de São Paulo. De lá para cá, tem prosperado nos negócios e, hoje, a renda da empresária é de R$ 7 mil por mês.

Michelle tem boas perspectivas para o futuro de sua família e do próprio País. “A vida que meu filho tem hoje é muito melhor do que a que eu tive”, compara. “Eu acredito que o Brasil também estará melhor para ele, quando ele tiver 33 anos.”

Dez vezes

“O PIB (per capita) dobrou e minha renda se multiplicou dez vezes”. Esta é a avaliação do economista Adriano Santos, 38 anos, cuja renda subiu de R$ 1,4 mil para R$ 10 mil, em 14 anos. “Na época, eu era analista de planejamento econômico, trabalhava em uma empresa nacional, prestadora de serviço, que administrava patrimônios”, diz.

Adriano Santos e sua esposa Adriana: PIB cresceu e renda multiplicou
Arquivo pessoal
Adriano Santos e sua esposa Adriana: PIB cresceu e renda multiplicou
Com oito anos de experiência no mercado, em 1996, Santos ganhava um salário considerado “fora da curva” para ele. “Não tinha nenhuma formação acadêmica. Então, meu salário estava acima do mercado em uns 30%”, diz.

Cinco anos depois, no entanto, a trajetória do economista foi diretamente afetada por um problema que atingiu em cheio a economia mundial: os atentados terroristas de 11 de setembro. “Até 2001, eu cresci muito profissionalmente e cheguei a ser executivo de uma empresa.”

Com a crise de 2001, as empresas reduziram custos e enxugaram seus quadros. Santos não passou ileso. Permaneceu um ano desempregado e viu seu patrimônio ir minguando. “Todo capital que eu tinha acumulado foi consumido com a minha sobrevivência.”

 O economista passou então a reconstruir sua vida financeira. Ingressou em uma metalúrgica especializada no segmento de material elétrico, fez mestrado em marketing e administração de negócios, e viu sua carreira decolar.

“Meu patrimônio subiu de R$ 30 mil para R$ 500 mil”, afirma. Hoje, ele conta com uma casa avaliada em aproximadamente R$ 420 mil e dois automóveis de padrão médio. “Em 2003, a empresa faturava R$ 1,7 milhão por ano. Em 2010, fechamos com faturamento de R$ 13,5 milhões.”

Volta por cima

A gerente de condomínio Cristina Farias teve em 2010 uma trajetória semelhante à da economia brasileira. Um ano antes, ela perdeu o emprego e viu sua realidade financeira se abalar, a exemplo do que aconteceu com o Produto Interno Bruto (PIB), que, em 2009, teve sua primeira queda desde 1992.
Quando a renda per capita do brasileiro era de US$ 5 mil anuais, em 1996, Cristina ganhava cerca de R$ 1,5 mil como compradora júnior em uma loja de material de construção. Recém-formada, ela ainda celebrava o primeiro emprego com carteira assinada.

Arquivo pessoal
"Brasil melhorou muito e seguirá melhorando", diz Cristina Farias
Entre 1996 e 2009, Cristina diz que sua vida financeira “foi só ascensão”. “Sempre conseguia dobrar de salário com a troca de emprego ou promoções”, diz. No ano em que a economia global sofria os impactos da crise mundial, Cristina tinha um salário de R$ 8,5 mil como administradora de uma fazenda na cidade de Petrolina, em Pernambuco.

No fim de 2009 a administradora onde trabalhava fechou e ela entrou em 2010 precisando de recuperação financeira. Em agosto, a oportunidade surgiu. “Comecei como prestadora autônoma e fui contratada em dezembro.”

Hoje, o salário de Cristina é de R$ 4,5 mil, abaixo do que ganhava no emprego anterior, mas mais de 3 vezes maior que os rendimentos que tinha em 1996. “O Brasil melhorou muito nesse tempo e acredito que vai seguir melhorando”, diz. “Quem está chegando agora ao mercado de trabalho, se tiver uma boa formação, terá grandes oportunidades. O mercado está bom”, completa.

US$ 10 mil

Segundo dados divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Produto Interno Bruto (PIB) per capita - resultado da divisão entre as riquezas produzidas por um país e sua população – do Brasil chegou a R$ 19.016 em 2010, o equivalente a US$ 10.237.

Foi a primeira vez na história que a renda per capita do brasileiro ultrapassou a casa dos US$ 10 mil anuais – o que corresponderia a um salário mensal de cerca de R$ 1,4 mil.

O País chega a este patamar com uma classe média em crescente potencial de consumo. Segundo pesquisas do Instituto Data Popular, em 2010, as famílias brasileiras gastaram R$ 2,1 trilhões com consumo. Em oito anos, a participação da classe C subiu de 25,77% para 41,35% do total consumido pelas famílias brasileiras, enquanto a classe AB viu sua fatia recuar de 58,51% para 42,88%.

Segundo projeções do governo, até 2014, 56% da população brasileira estará na classe C, o que equivale a um exército de 113 milhões de pessoas. Em 2009, eram 95 milhões de brasileiros nessa classe social.

Para o professor do Departamento de Economia da Unicamp Cláudio Dedecca, a alta da renda per capita do Brasil é considerável, quando comparada ao desempenho das últimas três décadas. Ele diz que a tendência de alta abre uma janela de oportunidade para o País. “Podemos transformar socialmente o Brasil nos próximos anos, com redução da desigualdade de forma mais acentuada.”

A renda per capita do brasileiro

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Fonte: Ipeadata