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Para o pesquisador e escritor Dan Tapscott, o mundo está se despedindo da era industrial para dar as boas vindas à "geração net"

As finanças das grandes potências estão em frangalhos, as grandes metrópoles estão cada vez mais inchadas e inviáveis, o volume de informação que se produz é muito maior que o que se consegue digerir e setores inteiros da economia estão desaparecendo. Essas podem não ser áreas exatamente correlatas da vida humana, mas, juntas, montam o pano de fundo para um, segundo muitos, justificado pessimismo. Não para Don Tapscott.

O empresário canadense, escritor e consultor especializado em estratégias de negócios, é hoje, aos 64 anos, um dos mais respeitados estudiosos do impacto da tecnologia na vida de empresas e governos. "Eu falo muito de problemas, mas nunca fui tão otimista", afirma. "Estamos no início de mudanças profundas - e positivas". As mudanças estão centradas na maneira como a internet se entranhou na vida das pessoas, disse ele na noite da última terça-feira em São Paulo, em encontro com jornalistas que antecedeu a palestra que fez na Fundação Armando Álvares Penteado (Faap).

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O otimismo é tal que, para Tapscott, "o maior aplicativo da internet vai ser salvar o planeta". Autor ou coautor de 14 livros, o escritor lançou neste ano "Macrowikinomics - Reiniciando os negócios e o mundo" (Ed. Campus), obra que resume "o trabalho de toda a minha vida", afirma ele. Leia a seguir os principais tópicos abordados por Tapscott.

O papel do novo líder

Quando encontro chefes de Estado, percebo que há dois tipos: os que tentam convencer que são inteligentes e os que fazem todo tipo de pergunta. A conversa é bem melhor quando a pessoa se mostra curiosa, que quer aprender. O modelo de liderança está em transformação, e já não cabe mais a figura do líder como um grande visionário, que tem uma ideia e a impõe sobre os outros, como era Winston Churchill (ex-primeiro-ministro britânico). É necessária uma liderança calcada na colaboração. Eu falo muito de problemas, mas nunca fui tão otimista na vida. Estamos no início de mudanças profundas - e positivas. O que precisamos é de uma nova liderança.

As empresas e as redes sociais

É necessário entrar nas redes sociais, mas não pelas razões que se supõe. Você tem que estar lá para interagir com seus clientes, mas as redes sociais se tornaram uma nova forma de produção. Isso está transformando a forma de criar bens e serviços. Hoje em dia temos casos como o da indústria chinesa de motocicletas, muito fragmentada. Várias empresas pequenas se reúnem nas casas de chá e na internet. Não tem Harley Davidson ou Yamaha mandando no mercado. Elas representam 40% da produção mundial de motocicletas. São pares que se unem para criar um bem físico, como uma moto. O mais incrível é que eles podem se unir fora da empresa. A maioria das pessoas pensa em rede social apenas com a ideia de criar uma fan page ou um perfil no Facebook, mas não basta. É preciso mudar a estrutura da corporação. Quem entende há de ter êxito; quem não entende, vai ficar para trás.

Jimmy Wales, cofundador da Wikipedia: um dos exemplos máximos da economia colaborativa
Bloomberg/Getty Images
Jimmy Wales, cofundador da Wikipedia: um dos exemplos máximos da economia colaborativa

Economia da colaboração

Um milhão de pessoas podem criar a Wikipedia, uma enciclopédia dez vezes maior que a Britannica, que está disponível em 90 línguas e tem artigos atualizados em tempo real. De acordo com estudos, a qualidade é tão boa quanto a da Britannica. O que mais se poderia criar? Um sistema operacional? O Linux foi desenvolvido por milhares de programadores que nunca se viram – e domina computadores de pequeno e médio portes. A Microsoft decidiu combater o Linux, chamá-lo de comunista. Mas a IBM abraçou o Linux e deu US$ 400 milhões para o projeto. Assim ela economizou milhões de dólares para desenvolver seu próprio sistema operacional e criou uma plataforma sobre a qual ergueram quase um império - e assim mudaram a dinâmica competitiva do mercado. Barraram a entrada da Microsoft no espaço empresarial. Isso não é socialismo, é capitalismo da mais alta inteligência. É ser eficaz na era da inteligência em rede.

Um mundo em transformação

A era industrial está acabando, e muitas das instituições que nos serviram por séculos passam por estagnação ou mesmo declínio, sejam governos ou modelos de inovação. A mídia também vive uma grande transformação. Os jornais nos Estados Unidos estão falindo - 70 fecharam nos últimos dez anos. Setores inteiros estão entrando em colapso, como a indústria fonográfica, e a televisão está se tornando um aplicativo para ser usado na internet. É uma época de grandes dificuldades, mas também de grandes oportunidades, porque há iniciativas de compartilhamento, de disseminação da informação. As empresas podem ter sucesso mesmo num mundo em crise.

Novos padrões para a educação

Os modelos científicos e as instituições acadêmicas, que têm o professor como a fonte de todo o saber, estão sendo questionados. Hoje, os jovens com um aparelho celular na mão são fontes melhores que o próprio professor. As universidades estão perdendo o monopólio sobre a educação de nível superior. Nos EUA, os melhores alunos nem vão às aulas. É preciso disseminar o acesso à banda larga para que cresça o acesso a esses novos meios de comunicação. O Brasil poderia imitar o que Portugal está fazendo. Lá, todas as crianças terão neste ano um laptop conectado a uma rede de alta velocidade. E não foi o governo português que pagou: tudo foi feito por meio de parceria com a iniciativa privada. É preciso mudar o modelo de aprendizado, mudar o relacionamento entre aluno e professor.

Sinal dos tempos: executivos que se recusavam a digitar no computador
Getty Images/Photodisc
Sinal dos tempos: executivos que se recusavam a digitar no computador "porque não eram secretárias" agora o fazem freneticamente - e com os polegares
"Tenho cara de secretária?"

Nenhuma criança deveria estar numa sala de aula aprendendo matemática. Uma aula é a pior maneira pra isso. Elas precisam de softwares para aprender muito melhor - e vão gostar de aprender. Ainda hoje os professores ficam explicando equações na lousa, mas não existe um modelo único para tudo. Os jovens de hoje não têm medo de tecnologia porque cresceram com isso, assim como a minha geração não tem medo de geladeira. Os modelos de educação estão fracassando. Nos anos 70, já percebemos que os computadores não seriam usados apenas para o processamento de dados, mas por dez anos as pessoas falavam “que bobagem”. E por um motivo bobo: os gestores diziam “eu nunca vou aprender a digitar. Eu tenho cara de secretária?" E agora os executivos digitam com seus polegares. Os líderes do antigo paradigma têm dificuldade de abraçar o novo.

A internet repaginando as cidades

Uma das instituições que precisamos mudar na era digital é a cidade. Elas foram mal projetadas na era industrial. Ok, era o que havia disponível naquele momento, mas é por isso que temos essas cidades complicadas como São Paulo ou a cidade do México, que beiram o total colapso. Houve um erro terrível depois da Segunda Guerra Mundial: separamos o lugar onde trabalhamos, compramos e vivemos. Criamos o centro, a periferia e os shopping centers. Uma das maneiras de reconstruir as cidades é motivar, conscientizar a população para que ela reimagine a cidade. Existem áreas em que a revolução digital pode fazer muita diferença, quase como um “ brainstorming digital”. Se você vê um problema, um crime, ou um buraco na estrada, você pode informar o local desse problema. Dizem que isso é difícil, mas é muito fácil. Todas essas são ações na internet que fazem uma cidade se mobilizar.

Motoboy passa por corredor formado por carros: dados sobre acidentes na web podem salvar vidas e são exemplo de interação entre governo e população, diz Tapscott
AE
Motoboy passa por corredor formado por carros: dados sobre acidentes na web podem salvar vidas e são exemplo de interação entre governo e população, diz Tapscott

A juventude como trunfo

Há três gerações do pós-guerra na força de trabalho agora: os baby-boomers , os filhos do pós-guerra, que nasceram entre 1947 e 1965. Depois, por mais de uma década, houve uma queda na taxa de natalidade. E, em 1978, veio a próxima. A geração de agora é a primeira a crescer digitalmente. O problema é que quando essas pessoas entram na força de trabalho, nós as colocamos em um cubículo e as tratamos como o Dilbert (burocrático personagem das tirinhas criadas por Scott Adams) ou um funcionário de escritório e até os privamos de ferramentas como as redes sociais. Fazemos o oposto do que deveríamos e criamos um firewall de gerações. O melhor é ouvi-los e tentar aprender, e não tratar essas pessoas como um gestor do século XX. Sim, jovens podem aprender com os mais velhos, mas o fundamental é: pela primeira vez na história humana, os mais jovens são autoridade em algo que é de fato importante. Diferentemente da Itália ou de países do leste europeu, o Brasil tem um grande patrimônio : uma população jovem.

Ação do governo

Os governos se fazem mais necessários que nunca em muitos aspectos. Ocorre que as abordagens para a solução dos problemas não têm sido as mais adequadas. Outra coisa: não há dinheiro para financiar os governos e as dívidas são enormes, mesmo nos Estados Unidos. É preciso repensar e recriar o papel do governo. É uma questão muito complicada, mas a essência é simples: o governo faz leis e regras, mas há um novo modelo emergindo que pode usar o governo como plataforma por meio da abertura de dados e informações. O governo tem dados e dados macroeconômicos até as estatísticas de acidentes em São Paulo, por exemplo. É só publicar esses dados sobre acidentes de motocicleta. Em 24 horas, alguém vai criar um mapa no Google com os lugares mais perigosos para as motos. Os motoqueiros vão evitar esses lugares e vidas serão salvas. E quanto isso custou ao governo? Nada. Essa não é uma privatização do governo, e chefes de Estado inteligentes vão pensar de maneira diferente. O maior aplicativo da internet vai ser salvar o planeta. Literalmente.

A história da humanidade em dois dias

Quem tem 13 anos ou menos é de uma geração totalmente diferente da geração X, ou geração net, que nasceu entre 1978 e 1997. A minha filha tinha sete anos quando usou o computador pela primeira vez. Vai ser uma geração interessante. Não acho que eles vão rejeitar a tecnologia. Eric Schmidt , ex-CEO do Google, contou em uma conferência em Londres, há um ano: entre seu início e 2003, a humanidade registrou cinco exabytes de informação - e, nos últimos dois dias, nós criamos cinco exabytes de informação. Pesquisei no mês passado e descobri que em um dia foram criados esses mesmo cinco exabytes. Tem informação que não serve pra nada, como o vídeo no youtube de alguém brincando com seu gatinho, mas há coisas mudando a forma de aprender e de vermos o mundo.

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