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Como você chamaria uma pessoa que elimina centenas de milhares de postos de trabalho americanos, priva milhões de pessoas de atendimento médico e nutrição adequados, prejudica os investimentos nas escolas, mas oferece uma bonificação de US$ 15 mil para pessoas em boa situação financeira que desejem vender seus imóveis? Um centrista orgulhoso. Pois é exatamente isso que fizeram os senadores que determinaram os parâmetros do pacote de estímulo.

Mesmo que o plano original do presidente Barack Obama - cerca de US$ 800 bilhões em estímulo, com uma fração substancial concedida sob a forma de ineficazes cortes de impostos - fosse aprovado, ele não seria suficiente para preencher o rombo cada vez maior na economia americana, o qual o Gabinete Orçamentário do Congresso já estima que totalizará US$ 2,9 trilhões nos próximos 3 anos.

E mesmo assim os centristas fizeram de tudo para tornar o plano ainda pior e mais fraco. Uma das melhores características do plano original era a ajuda estendida aos governos estaduais sem dinheiro, que teria proporcionado um rápido impulso à economia preservando ao mesmo tempo os serviços essenciais. Mas os centristas insistiram num corte de US$ 40 bilhões justamente nos gastos dessa área.

O plano original também incluía gastos necessários com a construção de escolas; US$ 16 bilhões foram cortados dessas despesas. Incluía auxílio a desempregados, especialmente em relação ao atendimento médico - cortado. Cupons de alimentação - cortados. Ao todo, mais de US$ 80 bilhões foram cortados do plano, a maior parte recaindo precisamente sobre as medidas que teriam maior impacto na redução da profundidade desse declínio e da dor provocada por ele.

Por outro lado, os centristas aparentemente não viram problemas em uma das piores medidas previstas pelo pacote do Senado: um crédito fiscal para os compradores de imóveis. Dean Baker, do Centro de Pesquisas em Política Econômica, chamou a medida de lei "venda sua casa para o seu irmão": custará muito dinheiro e nada fará para ajudar a economia.

No fim, caso a insistência dos centristas em confortar os confortáveis e afligir os aflitos seja refletida no pacote final, esse provocará um aumento significativo no desemprego e no sofrimento de todos.

Mas como isto aconteceu? Eu culpo a crença de Obama de que ele seria capaz de transcender as divisões partidárias - o que distorceu sua estratégia econômica. Afinal, muitos esperavam que ele apresentasse um plano de estímulo extremamente forte, refletindo ao mesmo tempo a gravidade dos problemas e o poder conferido a ele pelos eleitores.

Entretanto, em vez disso, ele apresentou um plano pequeno e dependente demais nos cortes de impostos. Por quê? Porque queria receber amplo apoio bipartidário. Não faz muito tempo que os estrategistas da administração falavam em conseguir 80 votos ou mais no Senado.

As aspirações pós-partidárias de Obama podem também explicar por que ele não fez algo de importância crucial: falar enfaticamente sobre como os gastos governamentais podem ajudar a economia. Em vez disso, ele deixou que os conservadores definissem os termos do debate, esperando até o fim da semana passada para finalmente dizer o que precisava ser dito - que o aumento nos gastos públicos é o objetivo central do pacote. E Obama não recebeu nada em troca da sua abertura ao bipartidarismo.

Nem um único republicano votou pela aprovação da versão do Congresso do plano de estímulo, que por sinal era melhor detalhada do que a proposta original da administração.

No Senado, os republicanos denunciaram as "medidas eleitoreiras" - mas os gastos supérfluos que eles disseram ter identificado (boa parte dos quais era absolutamente justificável) consistiam numa porção trivial do pacote todo. E eles desacreditaram o custo total do pacote - apesar de 36 dentre os 41 senadores republicanos terem votado pela substituição do plano de Obama por um corte de impostos de US$ 3 trilhões, isso mesmo, US$ 3 trilhões nos próximos 10 anos. Assim, Obama se viu reduzido a negociar pelos votos destes centristas.

E os centristas, como era de se esperar, exigiram consideráveis concessões - aparentemente, sem base em nenhum argumento econômico lógico, mas simplesmente para demonstrar o seu poder de barganha. Eles provavelmente teriam exigido um corte de cerca de US$ 100 bilhões da proposta de Obama, fosse ela qual fosse; ao fazer uma oferta inicial tão baixa, o presidente garantiu que o acordo final ficasse muito aquém do necessário.

São estes os perigos de negociar consigo mesmo.

Agora, negociadores da Câmara e do Senado precisam reconciliar suas versões do estímulo e é possível que o pacote final consiga reverter os piores feitos dos centristas. Quem sabe Obama consiga voltar para um segundo rounde. Mas essa foi a sua melhor chance de conseguir que fossem tomadas medidas decisivas e o seu resultado foi insuficiente.

Então, será que Obama aprendeu com esta experiência? Os primeiros indícios não são animadores.

Pois em vez de reconhecer o fracasso da sua estratégia política e os danos provocados na sua estratégia econômica, o presidente tentou dar ao episódio todo um verniz pós-partidário e otimista. "Democratas e republicanos se uniram no Senado e responderam apropriadamente às urgentes demandas do momento", declarou ele no domingo, acrescentando, "as dimensões e a abrangência deste plano são adequadas". Não, eles não se uniram e, não, o plano não é adequado.

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