Tamanho do texto

Na primeira exposição pública depois da sua indicação para a diretoria de Política Monetária do Banco Central (BC), o economista Aldo Mendes disse ontem, em sabatina no Senado, acreditar que não existe taxa de câmbio ideal para a economia brasileira e que o tripé da política econômica exige que o regime cambial seja flutuante. Segundo ele, se o objetivo da política econômica é cumprir a meta de inflação, o instrumento que o BC tem à disposição é a calibragem da Selic.

O câmbio, acrescentou, deve flutuar para permitir que o tripé (baseado no regime de meta de inflação, responsabilidade fiscal e câmbio flutuante) funcione.

"Não podemos ter mais de uma incógnita nessa política", afirmou ele, numa resposta aos críticos que pressionam o BC para reduzir os juros para permitir uma desvalorização do real ante o dólar e, com isso, ajudar os exportadores. "A taxa Selic tem de subir ou descer de acordo com a meta estabelecida. O câmbio ideal é o determinado pelo próprio mercado."
Durante sabatina na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado, Mendes afirmou que a taxação do capital externo com o Imposto de Operações Financeiras (IOF) é uma ação na área fiscal, que somará as novas medidas em estudo pelo BC de modernização da legislação cambial. Sem se aprofundar na avaliação, admitiu que o IOF "ajuda no monitoramento e efetivação" da política cambial.

Contrário no passado à independência do BC, Mendes defendeu a aprovação de projeto de lei que dá autonomia formal ao banco. Em artigo publicado em 1993, o diretor indicado se colocou contrário à autonomia. Segundo ele, a autonomia de fato que já existe permite a calibragem da taxa Selic de forma "técnica".

A sabatina foi acompanhada com atenção pelos analistas do mercado financeiro, ávidos em conhecer melhor as posições de Mendes, ex-vice-presidente do Banco do Brasil, em relação à administração das políticas cambial e monetária. Chamou atenção, sobretudo, a citação feita por ele do economista John Maynard Keynes para responder a uma pergunta do senador Tasso Jereissati (PSDB-CE), sobre a relação entre o nível de poupança interna e o câmbio.

Mendes disse que o aumento dos investimentos é o motor do crescimento econômico e o que traz a elevação da poupança interna. Por isso, afirmou, é preciso criar condições no País para que melhorem as expectativas dos empresários, para que eles se antecipem e invistam no Brasil. "Dessa forma, os investimentos virão e, por consequência, a taxa de poupança" afirmou Mendes. Keynes defendeu uma política econômica de Estado intervencionista, por meio da qual os governos usariam medidas fiscais e monetárias para mitigar os efeitos adversos dos ciclos econômicos.

Essas declarações alimentaram as avaliações de que Mendes terá uma postura mais branda do que Mário Torós, a quem sucederá na diretoria do BC. Mas ele evitou responder à pergunta sobre a possibilidade de o BC fazer uma ação contrária ao aumento de gastos do governo para evitar a volta da inflação. "A responsabilidade fiscal está assimilada pela sociedade. O Estado deve gastar aquilo que arrecada." Diante da insistência dos senadores, Aldo Mendes disse que as estatísticas não mostram um desequilíbrio entre receitas e despesas.

Para impedir que a sabatina fosse adiada com o pedido de vista apresentado pelo senador Heráclito Fortes (DEM-PI), a base governista aprovou a convocação de Torós para explicar em audiência pública os motivos do seu pedido de demissão do cargo. Essa discussão dominou boa parte do início da sabatina. No fim da tarde, a indicação de Mendes foi aprovada pelo plenário do Senado com 41 votos a favor e 11 contrários. As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.