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Parte da Europa e o Japão entraram oficialmente na segunda fase da crise (recessão) e os Estados Unidos caminham rapidamente para a mesma situação. O colapso financeiro abalou a economia real e políticos avisam que a terceira fase está próxima: a crise social.

Dados sobre desemprego comprovam que o alerta não é exagerado.

São quase 10 mil novas demissões a cada dia na Europa. Ontem, o Departamento de Trabalho dos Estados Unidos anunciou uma alta inesperada do número de pedidos de auxílio-desemprego. Em uma das medições, o resultado foi o pior desde 1983.

O Reino Unido divulgou esta semana o mais expressivo aumento do desemprego em 16 anos. O governo inglês é obrigado a pagar pensões a 980 mil pessoas - e a situação pode piorar ainda mais. "Não estamos ainda no fundo do poço", afirmou o ministro do Trabalho inglês, Tony McNulty.

Ontem, a British Telecom informou que demitirá 10 mil pessoas até o fim do ano. Em termos porcentuais, a taxa de desemprego chega a 5,8% no Reino Unido e 7,5% na zona do euro, número que deve aumentar para quase 9% em 2009, segundo projeções de analistas. Para a HBOS, 3 milhões de pessoas podem ficar desempregadas até 2010 na região. Nos EUA, a taxa está em 6,5%.

Na França, o governo estima que mais de 1,2 mil pessoas recebem cartas de demissões por dia. Na Espanha, apenas o mês de outubro registrou 192 mil novos desempregados, e o número de pessoas sem trabalho já chega a 2,8 milhões.

"O custo humano da crise será maior do que se esperava", afirmou John Cridland, vice-diretor da Confederação da Indústria Britânica. Numa estimativa publicada há duas semanas, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) alertou que a crise atingirá 20 milhões de pessoas até o fim de 2009.

Um dos primeiros efeitos está sendo sentido na população de imigrantes. Na Espanha, quase metade dos estrangeiros vivendo legalmente no país está desempregada - são cerca de 350 mil. Em outubro, 36 mil perderam seus trabalhos.

Para 2009, a Inglaterra diminuiu o número de vagas abertas para trabalhadores estrangeiros. No total, serão 800 mil postos, incluindo profissionais de outros países europeus. O número é 20% inferior ao de 2008. Apenas como exemplo: 1 milhão de poloneses mudaram para a Inglaterra nos últimos quatro anos em busca de trabalho.

Em recente seminário, o presidente da BP e representante especial da ONU para Migrações, Peter Sutherland, alertou sobre o impacto da crise. "Será inevitável que a queda do crescimento global tenha efeito sobre os imigrantes. Ou eles serão incentivados a voltar para casa ou serão os primeiros a perder seus empregos."

Jakob von Weizsaecker, pesquisador da entidade Bruegel, alerta que a crise em países como a Ucrânia pode provocar um novo fluxo de migrações, agravando ainda mais o problema na Europa.

As más notícias parecem longe do fim. Estados Unidos, Japão e os 15 países da zona do euro devem sofrer recessão severa em 2009, segundo o relatório de previsões econômicas da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento (OCDE), divulgado ontem, em Paris.

Segundo os especialistas, os 30 países-membros da entidade crescerão 1,4% em 2008, mas enfrentarão queda de 0,3% no Produto Interno Bruto (PIB) em 2009. Em 2010, vem a retomada. O maior decréscimo no próximo ano se dará nos Estados Unidos: -0,9%.

Os americanos devem enfrentar quatro trimestres de queda no crescimento. A crise se agrava de forma progressiva no país: no terceiro trimestre, a retração será de 0,3%, chegando no fim do ano ao fundo do poço, com 2,8% negativos. Em 2009, a previsão é de decréscimo de 2% no primeiro trimestre e de 0,8% no segundo. A queda brusca na primeira metade do ano levará a uma retração do PIB próxima de 1 ponto porcentual. Segundo a OCDE, só no segundo semestre de 2009 os EUA começarão a se recuperar. Em 2010, a maior economia do mundo deverá crescer 1,4%.

Ontem, a Alemanha, maior economia da Europa, anunciou que o PIB se contraiu pelo segundo trimestre seguido, o que configura tecnicamente uma recessão. A economia recuou 0,5% no terceiro trimestre, depois de cair 0,4% no segundo.

Segundo a OCDE, o grupo de 15 países que adotam o euro - entre os quais Alemanha, França, Itália e Espanha - também deve viver quatro semestres consecutivos de crescimento negativo: -0,5% no terceiro trimestre de 2008, -1% no quarto, -0,8% no início de 2009 e -0,4% no segundo trimestre do ano.

Jorgen Elmeskov, diretor de Estudos Econômicos da entidade, confirmou que os 30 países que integram a OCDE - Brasil não incluso - entram em recessão, com perspectivas de desaceleração prolongada.

Para ele, a tensão do mercado financeiro verificada desde setembro terá curta duração. "O stress vai continuar nos mercados por algumas semanas", disse. Mas a instabilidade nas bolsas cederá lugar a um "longo período de perturbações financeiras até o fim de 2009".

O relatório da entidade também reitera a convicção de que os grandes países emergentes, como China, Índia e Brasil, embora em desaceleração, sustentarão o crescimento internacional durante a recessão no G-7. "O crescimento em países não-membros da OCDE também se desacelera", disse Elmeskov. "Mas é claro que o nível de elevação do PIB desses emergentes ajuda os países desenvolvidos a enfrentar a crise."

Questionado pelo Estado sobre quando China, Índia e Brasil voltarão a acelerar, o economista não respondeu. "Vamos divulgar um relatório exclusivo sobre o tema em 25 de novembro." Além do espectro da recessão, a incerteza paira sobre as projeções para 2009.

Segundo Elmeskov, a conjuntura pode tanto apresentar degradação ainda mais grave quanto evoluir de forma mais favorável que o previsto. "É um momento de incertezas." Para evitar o aprofundamento da crise, a OCDE defende a adoção de planos de relançamento macroeconômicos, baseados em investimentos públicos. As informações são do jornal O Estado de S.Paulo.

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