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Em busca de identidade, negros empreendem em mercado étnico e movimentam R$ 2,7 milhões em feira paulista

Quando, em 2001, Adriana Barbosa ficou desempregada, ela não imaginava o que estava por vir. Sem oportunidades no mercado, a jovem de 23 anos recorreu às ruas para ganhar seu sustento. Vendeu suas próprias roupas em uma barraca de rua, montou um bazar de feira, vendeu pastel, até que enxergou, em sua própria pele, uma oportunidade. Ao notar a ausência de negros nas feiras que participava, Adriana decidiu, ao lado de uma amiga, iniciar uma feira temática. Nascia ali, na Praça Benedito Calixto, zona oeste de São Paulo, a Feira Preta. Nove anos depois, a feira tornou-se um evento de grande porte e já movimentou aproximadamente R$ 2,7 milhões, com mais de 85 mil visitantes e centenas de expositores. Em sua nona edição, neste fim de semana, a Feira Preta ocupa um dos pavilhões do Centro de Exposições Imigrantes, um dos maiores da capital paulista.







“É um segmento altamente promissor. Hoje, as pessoas se auto-declaram negras e, aí, há oportunidade empreendedora”, diz Adriana Barbosa. “O mercado precisa enxergar essa população. Existem poucas empresas com desenvolvimento de produtos específicos para os negros”, completa.

Entre os corredores da Feira Preta, centenas de expositores expõem seus mais variados produtos, desde os tradicionais penteados Black Power até cursos de inglês com foco na cultura negra. “Temos um acervo cultural muito rico. A cultura negra é muito mais que as vestimentas e o cabelo”, diz Fernanda Felisberto, proprietária da livraria carioca Kabatu, especializada em literatura negra.

A livraria de Fernanda – que conta com uma sócia, também negra – tem mais de mil títulos. O campeão de vendas é o infantil. “Os pais estão preocupados com a auto-estima de seus filhos”, diz. Mas tem pai branco comprando literatura infantil negra para seus filhos? “Tem, sim”, responde Fernanda. “É o pai que quer mostrar a diversidade para suas crianças”, completa.

E é a diversidade que fez com que a pensionista Vera Lúcia Pedroso começasse seus trabalhos artesanais. Em busca da “identidade do negro”, a artesã e microempresária quis desfazer os mitos estabelecidos pela cultura branca. “Sempre vimos um Jesus branco, loiro e de olhos azuis. Fiz um Menino Jesus negro.” Com peças que variam de R$ 8 a R$ 180, Vera Lúcia reclama da ausência de heróis negros. “O artista não ter cor, sexo, nem raça. Só põe para fora o que sente”, diz, segurando nas mãos uma de suas obras: um Papai Noel de pele negra.

As irmãs Ana Maria e Edna dos Santos encontraram na segmentação de seu artesanato uma oportunidade de negócio. Com foco em bonecos negros, as irmãs de Praia Grande, litoral de São Paulo, já planejam abrir uma loja para vender suas peças. “A boneca negra foi uma de nossas criações. Ela é muito importante, porque é uma forma de valorizar nossas origens”, disse Ana Maria.

De olho também na cultura de suas origens, o metroviário Saulo Alexandre dos Santos deixa o corre-corre da manutenção da Linha Amarela do metrô de São Paulo para, nas horas vagas, se dedicar às tranças nos cabelos afro. “Para mim, é uma terapia. Não importa o valor. O legal é ver meu trabalho na cabeça das pessoas”, diz, enquanto entrançava os cabelos da modelo Cindy Gabryella.

Já o cabeleireiro Tiago Pereira vive de fazer a cabeça dos negros em seu salão, na Cohab Raposo Tavares, periferia da capital paulista. “Na Vila, a gente mexe com o público negro”, diz. Tiago defende que seus clientes deixem de lado a chapinha. “O natural é mais bonito. O negro assumindo seu estilo faz com que esse preconceito acabe.”

Yes, we can

Entre os stands da Feira Preta, um cartaz com a fotografia do presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, oferecia ao público um curso de inglês diferenciado. “Nossa escola tem o foco na cultura negra”, explica Rodrigo Faustino, diretor da Ebony English. Com foco no público das classes C e D, os cursos têm preços mais acessíveis que nas escolas tradicionais: R$ 120 mensais.

“O Obama criou a identificação do negro e reforçou nossa auto-estima. Qualquer negro chega onde quiser, se estudar. Pode até ser presidente dos Estados Unidos”, diz Faustino.

Já Emerson Teodoro, do Cursinho 20 de Novembro (nome que coincide com a data da morte de Zumbi dos Palmares, em 1695), orgulha-se por ter o maior índice de aprovação entre os vestibulandos da Fatec. Com mais da metade de alunos negros, o cursinho Fatec Afro oferece bolsas de 30% a 80% para os estudantes. Teodoro diz que há elementos da cultura negra durante as aulas, mas não tanto quanto gostaria. “Nosso foco é fazer o aluno ser aprovado”, afirma.

De negro para negro

Ao percorrer os stands da Feira Preta é fácil notar que a maioria esmagadora dos expositores são negros produzindo e vendendo produtos e serviços para o público negro. Adriana Barbosa, organizadora do evento, lamenta o desconhecimento do mercado com relação a este nicho. “Os negros estão empreendendo pela escassez. O mercado ainda não sabe o que é o negro”, diz.

“Nossa classe média negra está crescendo e emergindo economicamente. O mercado precisa enxergar essa população”, completa. Para ela, a Feira Preta vem para reforçar essa situação. “É todo um processo. O mercado vai se adaptando.”

Como prova desse movimento, o Banco Santander montou na feira um stand para oferecer palestras voltadas ao microcrédito aos expositores e ao público da Feira Preta. Adriano Santos, analista comercial do banco, que chegou à instituição por meio de um programa para negros, diz que as linhas de crédito variam de R$ 500 até R$ 40 mil. Para os empreendedores, é necessário ter o negócio há, pelo menos, seis meses.

“A concessão do crédito é através do grupo solidário, onde uma pessoa avaliza a outra”, explica Santos, que conta com 99% de pessoas físicas e 62% de mulheres como clientes. A inadimplência da carteira é de 3,8%, menor que a média do mercado.

Exposição de Barbies negras conta com 85 bonecas
Guilherme Lara Campos/Fotoarena
Exposição de Barbies negras conta com 85 bonecas
Black Barbie

Outra atração para os visitantes da Feira Preta é uma exposição de Black Barbies. Com mais de 85 bonecas negras à mostra, o colecionador Carlos Keffer diz que os modelos “celebram a beleza negra e os 30 anos da primeira Black Barbie.”

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A primeira boneca negra da linha Barbie foi criada em 1967. Franci era uma prima negra da personagem principal. Dois anos depois, foi criada a boneca Cristie, que surgiu como a melhor amiga de Barbie. Nos anos 80, conta Keffer, houve uma grande diversificação da Barbie e a linha negra foi criada. “A Barbie foi ganhando nariz mais arredondado e lábios mais carnudos. Vemos que os elementos da cultura negra estão presentes”, diz. Claro, a Barbie com cabelo Black Power não poderia ficar de fora.

Na coleção de Keffer, a Black Barbie mais cara é a Barbie Deusa da África, que está avaliada em R$ 3 mil. “Foram 20 mil exemplares em todo o mundo, feitos a mão.” Os detalhes do vestido, desenvolvido pelo estilista Bob Mackie – que vestiu grandes atrizes de Hollywood – são o grande trunfo da boneca negra.