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Araçatuba, SP, 09 - O Brasil deve processar 598 milhões de toneladas de cana-de-açúcar na safra 2009/2010, iniciada este mês, alta de 5,72% ante às 565,6 milhões de toneladas moídas nas usinas na safra 2008/2009, de acordo com nova estimativa da consultoria Datagro divulgada hoje no 2o Simpósio Internacional Datagro/Udop, em Araçatuba (SP). O Centro-Sul deve moer 530 milhões de toneladas de cana nesta safra, alta 6,08% sobre as 499,6 milhões de toneladas da safra 2008/2009.

Já a região Nordeste, cuja safra começa no segundo semestre, deverá processar, de acordo com a Datagro, as 68 milhões de toneladas restantes.

Segundo o presidente da Datagro, Plínio Nastari, assim como na safra passada, a oferta de cana-de-açúcar será maior e as usinas não conseguirão processar toda a matéria-prima disponível. Em 2008/2009 cerca de 20 milhões de t de cana deixaram de ser processadas.

O freio no avanço do setor sucroalcooleiro, que cresceu 13% ao ano na oferta de açúcar total nos últimos três anos, aconteceu em função da crise nos preços e da crise mundial de liquidez. "Crédito agora é escasso e as usinas, que tinham de 6% a 8% de custo financeiro nos empréstimos, passaram a pagar de 20% a 23% ao ano, o que é alto para um setor que tem entre 11% e 13% ao ano de retorno sobre investimentos", disse Nastari. "Isso reduziu muito o capital de giro", completou.

Ainda de acordo com presidente da Datagro, com o crédito escasso, usinas deverão ter dificuldades de iniciarem a moagem da safra 2009/2010 e as unidades produtoras, que passaram por manutenções deficientes na entressafra, podem ter mais problemas de quebras durante a moagem.

Açúcar

Segundo a Datagro, o Brasil deve produzir 35,2 milhões de toneladas de açúcar em 2009/2010 alta de 11,38% sobre as 31,6 milhões de toneladas da safra passada. As exportações brasileiras da commodity devem disparar 19,21% se comparados os mesmos períodos, de 19,63 milhões de t para 23,4 milhões de toneladas, graças às perspectivas de déficit mundial de açúcar, que deve beirar as 5 milhões de toneladas e que será praticamente todo suprido pelo produto brasileiro.

Segundo a Datagro, o Centro-Sul deve produzir 30,1 milhões de toneladas de açúcar em 2009/2010, alta de 12,5% sobre as 26,753 milhões de toneladas da safra passada. A região deve ainda exportar 20,7 milhões de toneladas de açúcar, crescimento de 23,2% ante as 16,8 milhões de toneladas da safra 2008/2009.

De acordo com Nastari, o cenário de preços para o açúcar é positivo, com o aumento da cotação da commodity no mercado internacional e a valorização do dólar. Segundo ele, o custo de produção atual é de 10,7 cents por libra-peso, ante um custo de 15,3 cents antes da desvalorização do real. Já o preço pago em torno de 14,7 cents passou a ser remunerador desde o ano passado. "Recuperou-se margem para açúcar, que foi negativa em 2007 e 2008, e a demanda segue em expansão", concluiu Nastari.

Etanol

O mercado mais remunerador para o açúcar deve fazer com que a produção brasileira de etanol cresça apenas 2,96% na recém-iniciada safra 2009/2010, para 27,905 bilhões de litros, ante 27,098 bilhões de litros na passada, aponta a primeira estimativa da Datagro.

Já o cenário negativo internacional, a redução nas importações norte-americanas e a queda nos preços do petróleo devem reduzir em 25,74% o volume exportado de álcool brasileiro se comparados os mesmos períodos, de 5,05 bilhões de litros para 3,75 bilhões de litros. Maior produtora e exportadora do País, a região Centro-Sul deve produzir, em 2009/2010, 25,676 bilhões de litros, alta de 3,55%, e exportar 3,5 bilhões de litros, queda de 24,7% sobre a safra 2008/2009.

No entanto, a demanda total de álcool, somando o mercado interno e exportações deve ficar ajustada à oferta em 2009/2010, de acordo com a previsão do presidente da Datagro. Os dados da consultoria indicam que a demanda deve atingir 27,82 bilhões de litros de álcool no Brasil e 24,8 bilhões de litros no Centro-Sul, o que aponta para uma reserva de 100 milhões de litros no País e de 859 milhões de litros na região produtora.

A queda nas exportações deve ser suprida pelo aumento da demanda interna de álcool já que são previstos entre 1,9 milhão e 2 milhões de veículos flex fuel novos no País em 2009. "Mesmo com a queda de 21% prevista para os veículos novos em 2009 sobre 2008, a demanda pelo álcool deve crescer", disse Nastari.

Ainda de acordo com a Datagro, o mix de destino da cana-de-açúcar em 2009/2010 deve ser de 56,5% para a produção de álcool no Brasil e de 58,2% no Centro-Sul. Na safra passada, o destino da matéria-prima para a produção de álcool foi de 58,46% no País e atingiu 60,26% no Centro-Sul. "A safra 2009/2010 ainda será alcooleira, mas a redução no mix do álcool será destinada para o aumento da produção de açúcar", explicou Guilherme Nastari, também da consultoria.

Economia

O uso do álcool combustível em substituição à gasolina gerou uma economia de US$ 71 bilhões em valores nominais ao Brasil desde a criação do Proálcool, em 1975, montante que chegaria a US$ 234 bilhões se o valor fosse reajustado considerando o juro pago pela dívida externa do País, segundo cálculos do presidente da Datagro.

Ao adicionar álcool na gasolina ou utilizar o combustível renovável diretamente no tanque, como combustível veicular, um volume expressivo de petróleo deixou de ser importado, o que garantiu a economia nestes 33 anos, além dos preços mais baixos do álcool em relação à gasolina.

"Os cálculos são bastante conservadores, utilizando uma taxa de conversão da dívida de 200 pontos-base, o que nunca ocorreu no caso do Brasil, que hoje tem um risco em torno de 400 pontos-base", disse. "Os dados mostram a importância do programa do uso do álcool como substituto da gasolina no Brasil e a grande perda seria para o País caso o setor se fragilizasse", disse Nastari.

Os cálculos apontam ainda que entre 1975 e 2008 o álcool substituiu 280,88 bilhões de litros de gasolina no Brasil, ou 1,77 bilhão de barris, o correspondente a 13% das reservas de petróleo do País, de acordo com Nastari. Ainda segundo o presidente da Datagro, as receitas com exportações de açúcar, álcool, melaço em 2008 somadas à gasolina substituída geraram divisas de US$ 18,7 bilhões no ano passado.

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