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Madeireiros recebem concessões de permissões florestais e alugam áreas aos mineiros ilegais, que migram o tempo todo de um lugar para outro

Um longo e largo rastro de barro poluído e estéril marca a passagem da corrupção e da mineração ilegal onde antes era floresta amazônica em Madre de Dios, no sudeste peruano.

Ao longo de dezenas de quilômetros entre a Rodovia Interoceânica, que une Brasil e Peru, e o rio Manuani, um afluente do Malinowski que marca o limite da Reserva Nacional Tambopata, a paisagem é parecida com a de um lugar que sofreu um intenso bombardeio de napalm.

Rio Tambopata, na região de Madre de Dios, no Peru
Michael Langford/Getty Images
Rio Tambopata, na região de Madre de Dios, no Peru
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O rastro tem cerca de cinco quilômetros de largura e nele não há vida: desapareceu totalmente a fina camada de solo fértil que alimenta a Amazônia, ecossistema com maior biodiversidade da Terra e declarada Maravilha da Natureza pela Unesco em 2010.

Tampouco ficaram as dragas, bombas de sucção, tratores, pás mecânicas, garrafas de mercúrio e de cianureto; nem as tendas de plástico que alojavam leitos, bares e prostíbulos, uma vez que os mineradores ilegais já transferiram seu acampamento para outro lugar.

Camponeses ribeirinhos, que tentam conter o avanço da mineração ilegal em suas terras e na reserva, mostraram onde esteve há semanas o acampamento mineiro, uma zona chamada La Pampa. Eles advertiram que, no lugar onde se instalaram agora, os estranhos podem ir, mas não voltar.

Os ânimos estão especialmente exaltados entre os mineiros ilegais depois que três deles foram mortos em um enfrentamento com a polícia em Madre de Dios, na última semana, quando protestavam pelas novas leis para tentar colocar alguma ordem na mineração fluvial.

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Durante os protestos, segundo disseram testemunhas à Agência Efe, dirigentes mineiros enumeravam os manifestantes para dar a eles 70 sóis (aproximadamente R$ 50), gratificação que subia para 100 sóis (R$ 70) conforme ia aumentando o número de policiais.

A cada dois ou três meses, os mineiros ilegais não só mudavam de lugar seu acampamento com sua maquinaria pesada, mas também levavam mulheres e meninas menores de idade para se prostituirem em pequenas tendas.

No que foi um desses bordéis de quatro metros quadrados, ainda se pode ler o nome comercial do local: "La Chapita".

Os habitantes da região, agricultores, coletores - muitos deles mineiros artesanais com reduzido impacto meio ambiental, embora também utilizem mercúrio -, denunciaram os grupos de mineradores ilegais que invadiram a área há cinco anos, na mesma época da abertura da estrada.

De nada serviram as denúncias, reconhecem os moradores, que pouco depois tiveram que enviar suas mulheres e filhas a Puerto Maldonado, capital de Madre de Dios, porque os mineiros ilegais estão bem armados e consomem muito álcool nos acampamentos.

Embora o governo tenha dito recentemente que lutará contra a mineração ilegal, para os habitantes da região que falaram com a Efe sob a condição de anonimato, a corrupção na região é impossível de ser parada.

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Segundo eles, a corrupção começa com a concessão de permissões florestais a um grupo madeireiro na "zona de amortiguamento" da reserva de Tambopata. Estes madeireiros cortam as árvores e alugam a área aos mineiros, embora, perante uma eventual e improvável acusação, afirmam que seu território foi invadido pelos procuradores de ouro.

Em seguida, vem o aluguel - em ouro - da maquinaria e de bombas de sucção aos mineiros por parte de empresários, negociantes e inclusive de autoridades, que trazem o equipamento de regiões do Peru onde não estão controladas.

"Na estrada a polícia pede as permissões às caminhonetes que levam famílias, mas os caminhões com a maquinaria pesada circulam sem problemas", criticou um dos moradores.

Com equipamento para processar as toneladas de areia necessárias para obter poucas gramas de ouro, só faltam novas armas e mais mulheres e meninas "importadas" de outras regiões mais povoadas do Peru para que o acampamento fique de novo instalado.

Das instalações, e com a cumplicidade de madeireiros e auditores, o rastro de desolação e barro avançará dois quilômetros mais, a floresta receberá um ferimento bem visível do alto e o mercúrio e o cianureto contaminarão mais águas do rio Manuani, a bacia da reserva e a do rio Amazonas.

La Pampa é só um das centenas de lugares onde a mineração ilegal arrasa os rios de Madre de Dios: de acordo com números oficiais, há pelo menos 50 mil mineiros na região, e a extração 18 toneladas de ouro mensais contribui muito para a destruição da Amazônia peruana. Por Raúl Alonso. Tambopata (Madre de Dios, Peru)

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