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Lançado por inventor do Second Life com dinheiro de Jeff Bezos, da Amazon, serviço tem freelancers mais baratos que o mercado, para áreas como TI e tradução

Philip Rosedale tentou mudar a natureza dos jogos com Second Life, um mundo virtual de avatares coloridos online que chamou muita atenção alguns anos atrás. Agora ele quer mudar a natureza do trabalho.

Embora o Second Life ainda exista, ele nunca correspondeu à badalação. Porém, Rosedale, 43 anos, está de volta com uma nova empresa chamada Coffee and Power, pela qual as pessoas podem comprar e vender qualquer tipo de tarefa, como fazer fantasias para o Dia das Bruxas ou programar um site sofisticado.

Philip Rosedale:
NYT
Philip Rosedale: "Prefiro contratar um moleque brasileiro louco por trabalho do que alguém de Stanford"
Para provar o argumento de que a troca de trabalho poderia funcionar, Rosedale construiu o software da nova empresa contratando programadores do mundo inteiro e dividindo a função em cerca de 1.600 tarefas individuais, de estabelecer bancos de dados a consertar erros. "Achamos que se trata de um novo modelo de como o software será escrito. Funcionou tão bem que decidimos expandir para todo tipo de trabalho", ele disse.

Moeda virtual
A Coffee and Power tem um espaço físico numa parte pouco atraente da Market Street, em São Francisco (EUA), onde as pessoas podem ir se oferecer para trabalhos ou contratar pessoas para tarefas. Elas podem até começar a trabalhar juntas no local. Rosedale trabalha no andar de cima, ao lado de alguns funcionários de período integral.

Recentemente, o espaço tinha três grupos de pessoas utilizando os combustíveis para humanos e computadores que dão nome à empresa (café e energia, em tradução literal). Os grupos trabalhavam em projetos de software, planejamento de negócios e tutoriais.

Da mesma forma que com o Second Life, o negócio tem uma moeda virtual para comprar, vender ou dar tarefas como se fossem presentes. A Coffee and Power cobra 15% de comissão para transformar o dinheiro novamente em dólares de verdade.

O site está no ar desde meados do primeiro semestre, sem muito alarde. Ele atraiu menos de 700 transações, mas agora está começando a solicitar compradores e vendedores de forma ativa. "Uns 25% do site são de 'precisa-se', o resto é de ofertas. Necessitaremos de umas dez mil transações antes de saber qual é o balanço final."

É mais barato
Outros serviços online têm ideias similares, como Task Rabbit, Freelancer.com e Amazon's Mechanical Turk. Uma das coisas impressionantes desses serviços é como é barato conseguir que algo seja feito. Atualmente, serviços de tradução são vendidos na Coffee and Power por US$ 10 (R$ 18) o trabalho, e um mensageiro de bicicleta pode ser contratado por US$ 15 (R$ 27). Muitas vezes, as pessoas envolvidas já estão nessas profissões e querem ganhar um dinheirinho extra nas horas vagas.

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Além de pressionar para baixo o valor que as pessoas podem cobrar, os preços reduzidos também levantam questões sobre a qualidade dos serviços. Esse é um dos motivos pelos quais Rosedale está divulgando que usou mão de obra barata para criar o site.

Segundo ele, foram gastos cerca de US$ 200 mil (R$ 360 mil) para construir a Coffee and Power, usando uma versão anterior do serviço, chamada Worklist. Cada etapa do processo de desenvolvimento é visível no site, inclusive a quantia que as pessoas receberam pelo trabalho. Por exemplo, um australiano registrado com o nome Lithium, ganhou US$ 46.523 (R$ 83 mil) desde janeiro.

Outro projeto teste, batizado Hudat, é um aplicativo para iPhone que converte imagens do Facebook e de amigos do LinkedIn em cartões. A ideia é que a pessoa possa rever as imagens antes de ir a uma festa. O custo de construção foi de US$ 2.600 (R$ 4,6 mil), uma fração do que um trabalho como este normalmente custaria, e o trabalho foi realizado em duas semanas. O processo é aberto para todos verem. "Trabalhamos com transparência total. Se não quiser que vejam com o que está trabalhando, isto não é para você", afirmou Rosedale.

Quando estava em seu auge, o Second Life oferecia uma promessa similar. Embora tenha ficado famoso por bate-papos sexuais, ao longo dos anos ele atraiu uma agência de notícias da Reuters, agora fechada, além de lojas de várias empresas, como American Apparel e Starwood Hotels. A Cisco Systems também realizou reuniões nele. O Second Life ainda existe, mas está muito mais silencioso agora, oferecendo dinheiro virtual, reuniões e imóveis digitais, entre outros serviços.

Embora ainda seja o presidente da Linden Lab, empresa que criou o Second Life, Rosedale fala desse empreendimento no passado. "O problema de criar uma experiência de imersão tridimensional é o fato de ela ser muito envolvente, e ser muito difícil fazer as pessoas participarem. O serviço é adorado por pessoas inteligentes da zona rural, deficientes e gente em busca de companhia. Só que é preciso estar bastante motivado para entrar e aprender a usar."

Rosedale, que levantou cerca de US$ 1 milhão (R$ 1,8 milhão) para a Coffee and Power de investidores como Jeff Bezos, Catamount Ventures e Greylock Partners, acha que a tendência de fracionar o trabalho em porções menores – em tarefas físicas e de software – está ganhando ímpeto. "Prefiro contratar para um projeto um moleque brasileiro louco por trabalho do que alguém que se formou em Stanford."