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Enquanto boa parte dos Estados Unidos parece concentrada no sombrio quadro do desemprego, as contratações começam a aumentar justamente no setor que levou a economia à recessão: Wall Street

Enquanto boa parte dos Estados Unidos parece concentrada no sombrio quadro do desemprego, as contratações começam a aumentar justamente no setor que levou a economia à recessão: Wall Street. A mudança sublinha a notável recuperação dos maiores bancos e firmas de corretagem desde que Washington os resgatou no segundo semestre de 2008, e acompanha o impressionante retorno dos lucros para os membros da Bolsa de Valores de Nova York, que chegaram a um total de US$ 61,4 bilhões em 2009, maior valor já registrado. Desde fevereiro, quando o desemprego chegou ao auge, as corretoras de valores de Nova York criaram quase 2 mil postos de trabalho, tendência que parece se verificar também nas empresas financeiras, nas corretoras de contratos de commodities e nas firmas de investimento. Apesar de o número de novas vagas ser pequeno em comparação ao total de funcionários de Wall Street, executivos, economistas e head hunters dizem esperar que o ritmo da recuperação se acelere dentro de meses. "Acho que estamos testemunhando uma rodada de contratações na expectativa um período mais próspero", disse Rae Rosen, economista do Federal Reserve de Nova York. "Wall Street costuma contratar quando espera uma recuperação, e parece haver a impressão de que a situação econômica já atingiu seu ponto mais baixo e estaria agora melhorando lentamente." Outros setores. O aumento nas contratações e o otimismo cauteloso contrastam muito com o ânimo verificado entre trabalhadores de outras áreas, nas quais as vagas de emprego têm relutado em surgir ou simplesmente desapareceram. Desde junho de 2008, o número de posições de trabalho apresentou redução de quase 14% na indústria e de 22% na construção, mas de apenas 8,5% no setor financeiro de todo o país. É também o oposto do que está ocorrendo em outras profissões de altos salários, como a advocacia, que em junho registrou o nível de emprego mais baixo desde o fim de 2001, de acordo com dados do Gabinete de Estatísticas do Trabalho. A força de trabalho do setor financeiro nova-iorquino encolheu em mais de 28 mil postos de trabalho desde o seu auge, registrado em janeiro de 2008, mas ainda se encontra um pouco acima do patamar de 2003, após o estouro da bolha de tecnologia, o que significa que o setor suportou a recessão atual - a pior desde a Depressão - melhor do que a crise anterior. O número de funcionários está de volta ao patamar registrado no fim de 2005, enquanto o nível total de emprego na economia como um todo está próximo dos patamares de 2004. Enquanto as contratações apresentaram retomada em Wall Street, pacotes salariais que lembram os anos de prosperidade estão reaparecendo nos cargos mais elevados. Richard Stein, presidente da Global Sage, firma especializada na procura de executivos talentosos, disse que, nas últimas semanas, clientes corporativos ofereceram a 12 candidatos pacotes de remuneração avaliados em mais de US$ 1 milhão por ano. "As ofertas estão muito aquém das que víamos no mercado em 2006, mas ainda existe uma guerra para ficar com os executivos mais talentosos", diz ele. "Todos pensaram que viveríamos um retorno da era glacial, mas houve um degelo e estamos agora tentando recuperar o prejuízo." Para a economia local, a recuperação de Wall Street é uma rara boa notícia. A prefeitura de Nova York está cortando serviços como creches e programas de alfabetização de adultos para ajudar a equilibrar seu orçamento. "Trata-se de empregos que trazem muito dinheiro para a cidade e têm um impacto desproporcional ao número de postos de trabalho criados", disse Carl Weisbrod, ex-presidente da Aliança pelo Centro de Nova York e presidente da Trinity Real Estate. Isto tem um efeito fundamental sobre as finanças da cidade e do estado, elevando ao mesmo tempo a arrecadação fiscal e a criação de empregos. Cada posto de trabalho criado pelo setor de corretoras gera dois empregos adicionais em Nova York, de acordo com o Gabinete Federal de Análise Econômica. Em parte, isto decorre do fato de que o salário médio pago em Wall Street é muito mais alto do que a média dos demais trabalhadores da cidade: são US$ 392 mil anuais para o setor financeiro e US$ 63.875 para os trabalhadores de outros setores. "É algo muito importante para a cidade e para o estado", diz Robert D. Yaro, presidente da Associação de Planejamento Regional. "Trata-se de uma reviravolta significativa." Vinte por centro da arrecadação fiscal do estado de Nova York é proveniente do setor financeiro, diz Yaro, enquanto Wall Street corresponde a cerca de 12% do orçamento da cidade.

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