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Bloco estuda a adoção de limites às vendas a descoberto nos mercados financeiros da zona do euro

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O sinal verde foi dado na Alemanha. O número 2 da equipe econômica de Angela Merkel, Philipp Röesler, defendeu neste fim de semana a adoção de limites às vendas a descoberto nos mercados financeiros da zona do euro.

A medida já é válida provisoriamente na França, Bélgica, Itália e Espanha por decisão da Autoridade Europeia de Mercados Financeiros (Esma), preocupada com a especulação nas bolsas de valores do continente. Com o consenso de franceses e alemães, o tema deve ser anunciado por Nicolas Sarkozy e Angela Merkel amanhã, em Paris. Segundo a chancelaria alemã, o encontro de cúpula vai discutir medidas de longo prazo para a governança da zona do euro.

A reunião bilateral de cúpula é esperada com ansiedade por investidores e deve nortear os números das bolsas hoje na Europa. Em entrevista ao jornal Welt am Sonntag, Röesler confirmou que os dois países estão discutindo a adoção da medida pela União Europeia, com validade para toda a zona do euro.

“É correto que outros países da UE tenham proibido as vendas a descoberto”, analisou o economista. “Mas isso não basta. É necessário que as transações financeiras altamente especulativas sejam interditadas não apenas na Europa, mas no G-7.” Röesler antecipou que o tema será levado à reunião de ministros do grupo, prevista para o início de setembro, em Marselha.

A decisão de proibir as vendas a descoberto - operação feita por investidores que propõem a venda de um título que ainda não têm, apostando na queda de seu valor até o fim do prazo de entrega, quando terão de adquirir o papel para poder entregá-lo - tem como pano de fundo as suspeitas de que rumores estejam sendo lançados nos mercados financeiros para manipulá-los.

A desconfiança aumentou na última semana, quando bancos como Société Générale foram alvo de especulações sobre sua falência, enquanto o governo da França teve de responder às suspeitas de que seus títulos de dívida soberana, classificados AAA, seriam rebaixados. Nem os desmentidos das agências Standard & Poor’s, Fitch e Moody’s acalmaram os mercados.

Na quinta-feira à noite, foi anunciada a proibição por 15 dias das vendas a descoberto, enquanto a Autoridade dos Mercados Financeiros (AMF), da França, investiga a eventual prática de crime de “inside trading” - quando um investidor usa informações sigilosas ou semeia rumores falsos no mercado para obter lucro. A dificuldade de proibir certas modalidades de venda a descoberto no G-7 - grupo que inclui Estados Unidos, Canadá e Japão, além dos europeus - é porque o Reino Unido até aqui não aceita a medida.

Mesmo sem o eventual apoio, França e Alemanha devem levar adiante a proibição na zona do euro, estimulados pelos bons resultados das bolsas na sexta-feira, quando Paris e Frankfurt subiram 4,02% e 3,45%, respectivamente. “Historicamente, quando uma crise afeta a França, há uma reação da Alemanha. A Alemanha sempre se mostrou pronta a manifestar solidariedade”, diz o economista Jean-Pisani-Ferry, diretor do Instituto Bruegel, de Bruxelas.

Se a proibição de certas modalidades de vendas a descoberto avança, outros pontos da pauta econômica da União Europeia continuam parados. Um dos principais é a hipótese de nova recapitalização do Fundo Europeu de Estabilização Financeira (Feef), que hoje tem 440 bilhões de euros para enfrentar crises nos países da zona do euro.

Em parceria com o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Feef já socorreu a Grécia com dois pacotes de 110 bilhões de euros cada, além de Irlanda, com 85 bilhões de euros, e Portugal com 78 bilhões de euros. O mercado espera agora a elevação dos recursos do fundo, já que na lista de países em risco pelo alto déficit e endividamento estão Itália e Espanha, terceira e quarta maiores economias da zona do euro. A Alemanha, porém, resiste à medida.

Eurobonds

Além do Feef, outro objeto de discussões entre Sarkozy e Merkel é a criação de eurobonds - títulos de dívidas soberanas garantidos por todos os países da zona do euro -, que passariam a ser emitidos pelo fundo. A possibilidade está em estudo, tem a concordância a priori dos dois países - mesmo que signifique a “federalização” das dívidas nacionais pela troca de títulos -, mas não deve evoluir enquanto não houver acordos de base sobre a convergência das políticas macroeconômicas nos países que usam a moeda única.

No sábado, o ministro da Economia da Itália, Giulio Tremonti, defendeu a criação dos eurobonds, que, segundo ele, teriam evitado a crise das dívidas soberanas na Europa. “Eu estou convencido de que a solução principal teria sido os eurobonds”, afirmou, referindo-se às medidas para controlar a turbulência.

Uma das possibilidade em discussão para a adoção de eurobonds é que Alemanha e França tenham poder de veto em instituições criadas para influir nas políticas macroeconômicas de países que adotarem os títulos.

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