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Segundo ex-presidente do BC, reação inicial ao discurso foi negativa, mas, depois, bolsas voltaram a subir

Mais importante que as eventuais medidas que poderiam ser anunciadas pelo presidente do Federal Reserve (Fed), Ben Bernanke, o que realmente importou foi o tom usado, avalia Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central do Brasil.

Para ele, o tom foi adequado ao sublinhar a preocupação do Fed com o desempenho da economia americana e fornecer sinais ao mercado. Franco cita como exemplo o fato de Bernanke ter anunciado que a próxima reunião do Fomc, o comitê de política monetária daquele país, que ocorrerá em setembro, será de dois dias.

"Foi um sinal sutil. Um gesto pequeno, mas às vezes os bancos centrais atuam dessa forma, com gestos que em si não dizem nada, mas que são indicações importantes", disse durante o 5o Congresso Intenacional de Mercados Financeiro e de Capitais da BM&FBovespa, em Campos do Jordão (SP).

A interpretação desses sinais ficou clara pela reação do mercado, disse ele. Segundo Franco, num primeiro momento houve uma reação negativa, já que todos esperavam alguma medida mais concreta. Mas, passada a decepção inicial, o mercado entendeu que o Fed pretende agir para restaurar emprego e crescimento e as bolsas voltaram a subir.

O ex-presidente do BC brasileiro não trabalha com um cenário de recessão para a economia americana, mas acredita em crescimento "muito baixo" por longos anos. "O PIB será cadente, mas uma recessão só ocorreria em um cenário de ruptura, que não se espera." O impacto para o Brasil, portanto, caso não haja um evento como foi a quebra do Lehman Brothers, não significará uma "descontinuidade".

Para ele, economia brasileira ainda continuará enfrentando o desafio de controlar o que ele considera um "superaquecimento". Ele também não vê possibilidade concreta de que o Brasil aproveite a crise para fazer a convergência das taxas de juros para padrões internacionais, como vem sinalizando o governo brasileiro.

Segundo Franco, a questão fiscal, variável mais relevante para permitir a queda dos juros, não está equacionada. "Acho importante o governo ter isso como meta, mas para isso é preciso colocar em ordem a questão fiscal."

Ele não acredita que o atual esforço do governo seja suficiente e vai além, ao afirmar que as medidas de superávit primário "perderam credibilidade após as recentes manipulações das contas públicas". O foco deveria passar para a dívida pública, segundo Franco.

O Brasil precisa rolar todo ano 17% do PIB em títulos, o que só não é um problema maior porque ocorre basicamente no mercado interno. O problema, no entanto, é que essa necessidade "assustadora", nas palavras de Franco, se reflete no preço pago pelo governo e impede uma queda das taxas brasileiras. "É preciso repensar a dívida pública, mas o governo não oferece sinais positivos nessa direção", concluiu.