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Ação da empresa que uniu Sadia e Perdigão caiu 10,7% no mês. Para analistas, estresse continua

Relator do Cade reprova fusão da Sadia e Perdigão
Agência Estado
Relator do Cade reprova fusão da Sadia e Perdigão
A sombra do julgamento do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) sobre a fusão Sadia-Perdigão fez a Brasil Foods, empresa resultante da união, perder R$ 2,7 bilhões na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) em junho, até o fechamento de ontem. O número corresponde a pouco mais de 10% do que a companhia valia em Bolsa em 31 de maio.

A sangria equivale a uma queda das ações de 10,7% no mês, enquanto o Ibovespa perdeu 2,45%, fazendo com que o valor de mercado da Brasil Foods caísse de R$ 25,5 bilhões para R$ 22,8 bilhões.

Boa parte dessa perda aconteceu ontem, quarta-feira, quando os papéis despencaram 6,27% . Essa pressão de última hora aconteceu no dia do julgamento. A palavra final, no entanto, foi dada somente após o fechamento da Bovespa. Hoje, as ações abriram em nova queda , liderando as baixas do Ibovespa.

E a palavra final foi desfavorável para a empresa. Com um voto que durou mais de quatro horas, o conselheiro relator do Cade no caso, Carlos Ragazzo, votou pela reprovação da união das empresas . Para os analistas, a decisão agrega ainda mais estresse à abertura dos negócios nesta quinta-feira, e deixa o mercado em suspenso até 15 de junho. Isso porque o julgamento foi suspenso até essa data, em função do pedido de vista do conselheiro Ricardo Ruiz.

“O pior cenário será um pedido de dissolução total do negócio”, disse Lika Takahashi, coordenadora de análise de investimento e estrategista da Fator Corretora. Ela lembra que o retorno seria até fácil no que diz respeito à separação física, como a retomada de fábricas e divisão de negócios.

A grande questão seria como dissolver os balanços das empresas, separar contas que já estão juntas há dois anos, como emissões de ações e de dívidas.

“Ainda não sabemos exatamente o que pode acontecer, então é difícil fazer contas”, afirma a analista. Ela lembra que, num caso complexo como esse, as variáveis e os múltiplos financeiros a serem considerados são numerosos. “É prematuro tirar grandes conclusões.” A especialista lembra, no entanto, que a própria perda de valor em junho já embute parte da expectativa de decisões mais severas por parte do Cade.

A derrota é um revés para os fundos de pensão, entre eles a Previ (do Banco do Brasil) e a Petros (da Petrobras), que controlavam a Perdigão e hoje possuem 28,3% das ações ordinárias da BRF. A empresa possui ainda 26 mil investidores pessoas físicas.

Veja cronologia da fusão:

25 de setembro de 2008 – A Sadia, a maior processadora e exportadora de carne do país, anuncia perdas de R$ 760 milhões com operações de derivativos cambiais. A empresa encerra o ano com prejuízo de R$ 2,5 bilhões, o maior em seus 64 anos de história.

Maio de 2009 - Os presidentes da Sadia, Luiz Fernando Furlan, e da Perdigão, Nildemar Secches, antes concorrentes ferrenhos, anunciam a fusão entre as duas empresas e a criação da BRF Brasil Foods.

Setembro de 2009 – é concluída a troca de ações entre as empresas. A Sadia transformou-se em uma subsidiária da Perdigão, que passou se chamar BRF Brasil Foods. As empresas ainda se mantêm como entidades separadas, à espera do julgamento do Cade.

30 de junho de 2010 - Secretaria de Acompanhamento Econômico (Seae), ligada aos Ministério da Fazenda, emite parecer em que afirma a fusão "resulta em concentrações significativas em diversos mercados relevantes de oferta de carne in natura e produtos industrializados". A secretaria recomenda o licenciamento das marcas Perdigão ou Sadia por, no mínimo, cinco anos, além da venda de um conjunto de fábricas e unidades de abate.

Julho de 2010 – A Secretaria de Direito Econômico (SDE), do Ministério da Justiça, acompanha a avaliação da Secretaria de Acompanhamento Econômico (Seae).

Maio 2011 - Parecer dos procuradores do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) recomenda fortes restrições ao acordo ou a reprovação do negócio.

08 de junho de 2011 - Com um voto que durou mais de quatro horas, o conselheiro relator do Cade no caso Sadia-Perdigão, Carlos Ragazzo, votou pela reprovação da união das empresas. Um dos conselheiros pede vistas do processo e o julgamento é suspenso.

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