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Para especialistas, Ibovespa vai recuperar parte da forte perda até agora. Mas nada garante valorização no ano

O Ibovespa, principal índice da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), deve recuperar no segundo semestre a perda acumulada no ano, segundo analistas. Mas as perspectivas para os negócios com ações não são boas. “A Bolsa só fecha em alta este ano por um milagre”, diz Leonardo Milane, estrategista da Santander Corretora.

Polícia usa gás lacrimogêneo para dispersar manifestantes em frente ao Parlamento grego. A Itália é a bola da vez?
AP
Polícia usa gás lacrimogêneo para dispersar manifestantes em frente ao Parlamento grego. A Itália é a bola da vez?
O índice cai 14,75% este ano. A performance é uma das piores do mundo e se assemelha à de países em crise, como Grécia. O fechamento desta quarta-feira ficou nos 59.119 mil pontos. Para os especialistas, um indicador a 75 mil pontos no final do ano é um sonho distante.

“Acho que a Bolsa pode, no máximo, chegar a 65 mil pontos até dezembro”, diz Milane. Para atingir esse nível, precisa subir 10%. Já o gestor de renda variável Valmir Celestino acredita que há chances de a Bolsa subir até 68 mil pontos. Em 2010, o Ibovespa encerrou em 69.304 pontos. A tendência, portanto, é de um índice em baixa este ano.

Demosthenes Pinho Neto, vice-presidente da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), pe ainda menos otimista. Para ele, o primeiro semestre foi “claramente desfavorável” para a renda variável e o segundo semestre não deve melhorar.

“Não teremos um semestre promissor para o mercado de ações por causa da situção internacional, que está mais complicada agora do que estava no início do ano. Eu acredito que é muito otimismo imaginar que o segundo semestre será melhor ou igual ao primeiro.”

Os fatores de pressão são externos e internos, dizem os analistas, e insistem em não se dissipar. Com isso, o ano tem sido dos conservadores , fazendo com que renda fixa e ouro sejam as opções mais rentáveis.

No front externo, o agravamento de tensões na Europa e nos Estados Unidos faz com que o Ibovespa amargue queda de 5,3% apenas em julho. Para especialistas, uma alta de recuperação só acontecerá quando os investidores começarem a vislumbrar uma luz no fim do túnel, e seu momento é difícil de prever. “Teremos uma Bolsa de recuperação no segundo semestre, mas essa alta representará mais uma correção, do que uma tendência”, diz Celestino.

Algumas amarras do exterior começam a ser liberadas. A primeira delas é a situação da dívida dos Estados Unidos. A resistência do Congresso dos Estados Unidos em aprovar o aumento do teto da dívida do país fez com que algumas agências de classificação de risco colocassem o rating do país em observação .

Mas a situação melhorou, e o Ibovespa subiu levemente nos dois últimos pregões. Na terça-feira, o Senado dos Estados Unidos aprovou a elevação do teto da dívida americana para US$ 14,3 trilhões, o que representa um incremento de US$ 1,9 trilhão em relação ao limite anterior.

A segunda trava, de acordo com os especialistas, é mais difícil de ser eliminada. “Não estou tão animado com a situação europeia. Não consigo ver o fundo do poço dos problemas”, diz Milane. “São governos endividados que precisam de dinheiro para sobreviver, mas seus países não crescem para suprir essa necessidade.”

O HSBC diz em relatório que o pior problema da Europa no momento é a entrada da Itália no rol de países em crise. “É uma nação maior que a Grécia, e bancos franceses e alemães possuem muitos títulos de governos do Sul da Europa.” O banco acredita, no entanto, que a situação está ficando severa o suficiente para trazer uma resposta dos governos.

Eliminados os problemas com a Europa, resta a China. Para Celestino, tudo indica que o pico de inflação e ajustes de juros no país já foi atingido, o que abre espaço para novos crescimentos chineses, movimentando novamente a economia mundial.

Enquanto isso, no Brasil...

Eliminados os problemas externos, resta ainda o entrave interno, que é o aumento da inflação no Brasil. Em seu relatório, o HSBC rebaixou a recomendação para ações do país de compra para neutra, apesar de acreditar que os papéis brasileiros estão baratos na comparação com seus múltiplos históricos e com pares na América Latina.

“O problema fundamental é que o pico de inflação e de taxas de juros parece estar próximo, mas a política monetária não deve ser relaxada tão cedo”, dizem os analistas. O economista para Brasil, André Loes, prevê uma política monetária apertada por um longo período. Essa situação, que inclui juros altos, provoca migração da renda variável para a fixa, e desestimula a Bolsa.

O que deve subir

As ações que mais subiram este ano são de empresas consideradas defensivas . Papéis de telecomunicações, energia elétrica, concessões e as boas pagadoras de dividendos entraram na lista. “O investidor buscou proteção e comprou ações com geração de caixa previsível”, diz Milane. Algumas elétricas também foram procuradas pois oferecem uma segunda proteção, contra as altas da inflação. “Os contratos são ajustados pelo IGPM”, lembra Celestino.

Mina de ferro da Vale. Ações de mineradoras devem subir no segundo semestre
Agência Estado
Mina de ferro da Vale. Ações de mineradoras devem subir no segundo semestre
Enquanto o Ibovespa cai quase 15%, 16 papéis do indicador sobem. As maiores altas são de TIM (38%), Eletropaulo (30,9%), Cielo (25%), Cesp (23,4%) e Cemig (22,3%).

Na visão de Celestino, as ações defensivas devem continuar com boa performance na recuperação do segundo semestre, mas não serão as principais valorizações. “Com a recuperação da economia chinesa, as commodities vão subir. Devemos esperar altas de mineradoras, empresas de petróleo e siderúrgicas”, acredita.

Já Milane aposta em papéis que mesclam defesa e um tipo de demanda doméstica que não sofre efeitos negativos da inflação. “As concessionárias de estradas, como a Ecorodovias, tendem a subir. Os contratos são indexados à inflação e as pessoas continuam viajando.” Outra empresa que pode se beneficiar do cenário é a BR Properties, que vende escritórios comerciais.

(colaborou Olivia Alonso)