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Fortalecimento da economia e de instituições faz com que mercado esteja menos suscetível a mudanças políticas, dizem especialistas

Quando Dilma Rousseff estava montando sua equipe econômica, mas ainda não havia anunciado nomes, o mercado financeiro queria Antonio Palocci Filho. O ex-ministro da Fazenda do governo Lula estava nas bocas dos investidores, que o sugeriam para a Casa Civil, Fazenda ou presidência do Banco Central, como um indicador importante de continuidade. Em relatório da época, o banco HSBC chegou a comentar que a Bolsa reagiria em forte alta se o médico fosse confirmado na Casa Civil.

Ministros da Fazenda e Ibovespa

Confira a volatilidade da Bolsa nos meses em que ministros deixaram seus cargos (%). O levantamento considera meses fechados, independentemente do dia de saída

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Sete meses depois, Palocci cai sem barulho. Ao contrário de anos anteriores, quando quedas de ministros em posições importantes do governo provocavam nervosismo, o Ibovespa ontem, por exemplo, subiu 0,24%, a despeito de um dia ruim nos mercados internacionais. Hoje, operou de lado, e fechou em ligeira baixa , acompanhando os mercados internacionais.

Levantamento feito pelo iG com base em números da Economática mostra que a volatilidade do Ibovespa, um importante indicador de nervosismo dos investidores, vem caindo drasticamente nas últimas décadas (veja gráficos) em momentos de troca de ministros. A volatilidade é medida em percentual e indica a intensidade e freqüência de variações bruscas da cotação do índice Bovespa. É também uma medida de risco. Quanto maior, mais nervoso o mercado está.

Quando Gustavo Krause deixou o Ministério da Fazenda do governo de Itamar Franco, em dezembro de 1992, o Ibovespa apontava volatilidade de 20,3%. Agora, com a queda de Palocci, o indicador de nervosismo estava em apenas 4,8%. O pico de estresse em meses de saídas de ministros aconteceu em janeiro de 1995, quando Clóvis Carvalho deixou a Casa Civil no governo de Fernando Henrique Cardoso: nada menos que 37%. A pesquisa tomou sempre meses fechados, independentemente do dia de saída dos ministros.

“O mercado não está nem aí para o Palocci”, comenta Reginaldo Alexandre, presidente da Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de Capitais em São Paulo (Apimec-SP). “Nas mesas de operação, praticamente não foram ouvidos comentários ligando o ex-ministro a oscilações de mercados”, disse. “A ampla maioria dos investidores enxergou o episódio como pouco importante”, complementou José Francisco de Lima Gonçalves, economista-chefe do Banco Fator.

Presidentes do BC e Ibovespa

Veja o nervosismo no mercado de ações nos meses de saída de presidentes do Banco Central (%)

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Um país mais forte

O principal motivo para esse descolamento, segundo os especialistas, foi o aumento da força da economia e das próprias instituições brasileiras. “Torna-se natural que, à medida que o país avance, eventos como trocas de ministros percam importância”, diz Alexandre. “Passamos para um nível no qual as instituições e suas políticas tornaram-se mais importantes que pessoas.”

Nesse caminho, instituições mais sólidas e independentes foram fundamentais para uma maior estabilidade, também dos mercados. “Desde o Plano Real, o país passou por mudanças estruturais importantes, que incluíram maior independência na condução da política monetária”, diz Alexandre Galvão, professor do Ibmec. A neutralidade política do Ministério da Fazenda e a independência do Banco Central estão entre elas.

Casa Civil e Ibovespa

Veja o nervosismo da Bolsa nos meses de saída dos ministros da Casa Civil

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“Este divórcio da vida política com a econômica aconteceu de forma decisiva com o episódio do mensalão”, acredita André Perfeito, economista-chefe da Gradual. “Naquela época, o senador Jéferson Péres costurou um acordo para blindar a economia dos efeitos da crise política.” Para ele, a Lei de Responsabilidade Fiscal também contribui para a melhora.

Esse avanço institucional ocorreu juntamente com o fortalecimento econômico. “A economia também está mais forte, o que a torna menos vulnerável a notícias ruins”, diz Galvão, do Ibmec. “Antes, éramos um país que devia em dólares. Qualquer incerteza que aparecesse refletia imediatamente no mercado”, complementa Gonçalves, do Fator.

Ele também acredita que, nos últimos meses, o mercado também não dava mais muita importância a Palocci. “Os investidores estão tranqüilos, porque não era ele quem conduzia nem o Banco Central, nem a política fiscal.”

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