Tamanho do texto

José Carlos Magalhães começou a investir aos 16, quebrou aos 18 e aos 23 fundou a Tarpon, que tem R$ 8 bilhões em carteira; ele fala de sua estratégia de crescimento

Loja da Morena Rosa no shopping Morumbi, em São Paulo
Divulgação
Loja da Morena Rosa no shopping Morumbi, em São Paulo
“Quem manda nos gastos da família é a mulher. Então entender essa consumidora e onde ela vai privilegiar os itens da família é como xadrez”, afirma José Carlos Magalhães, fundador da Tarpon Investimentos, uma das principais gestoras de recursos do Brasil hoje. A frase ajuda a entender os últimos movimentos da equipe liderada por ele, que envolveram varejistas do segmento feminino como Arezzo, Hering, Marisa e, mais recentemente, Morena Rosa

O olhar sonhador de José Carlos ao explicar suas decisões de investimento não esconde a determinação de quem começou no meio aos 16 anos, quebrou aos 18 e, em 2002, aos 23 anos, decidiu deixar o emprego no grupo Semco, de Ricardo Semler, para abrir sua própria companhia. Há dez anos, a Tarpon Investimentos tinha cerca de US$ 1,5 milhão em caixa, levantados com a ajuda de amigos e familiares. Hoje, são R$ 8 bilhões, graças ao tino para negócios de José Carlos, ou Zeca, como é conhecido no mercado. 

Nos primórdios, ele procurou se cercar de pessoas com experiência, para dar credibilidade à empresa criada por garotos de vinte e poucos anos. Agora, opta por um perfil ligeiramente diferente: “procuro desequilibrados”, afirmou o executivo, um dos convidados da série Grandes Investidores, realizada pela Casa do Saber na unidade de Jardins, em São Paulo, na última segunda-feira.

Leia : "Na próxima crise, o que vai perder valor é o dinheiro", afirma Stuhlberger

Mas não se trata de qualquer desequilibrado. “Busco o ‘expoente’ do mundo, o cara com o talento raro”, afirma José Carlos. Foi apostando no diferencial e na contramão do que os investidores mais tradicionais pregavam que o fundador da Tarpon conseguiu arrebanhar um portfólio que inclui investimentos na BrasilAgro, Brenco, Arezzo, Direcional, Gerdau, Cyrela, Marisa, Brasil Foods e na Morena Rosa .

“Tive muita sorte de ter tido oportunidade de trabalhar e crescer em uma área de que gosto naturalmente”, diz o investidor. “Quando fundei a Tarpon, tentei me resguardar e acoplar experiência, evitando incorrer no excesso de testosterona e falta de sabedoria”, afirma o executivo. O fruto dessa decisão foi o conselho consultivo da companhia, no qual constavam nomes como Ricardo Semler, Luis Stuhlberger (da gestora de recursos Credit Suisse Hedging-Griffo) e Luiz Alves Paes de Barros, seu tio, para o qual trabalhou quando ainda estava com seus 16 anos. 

Gerenciamento de riscos

E foi essa complementaridade de talentos que ajudou a Tarpon em seus negócios, além de uma pitada de ousadia. “A gente enxerga o risco diferente do mercado. O risco não é a volatilidade, mas sim a degeneração permanente e a impossibilidade de gerar valores”, afirma o sócio executivo da empresa. Com essa filosofia que, em 2002, a private equity (gestora que investe em participação em outras empresas) adquiriu ações da Sadia, as quais foram vendidas três anos depois. 

Já em 2008 a Tarpon estava tão consolidada que disputou com a Perdigão o controle da Sadia, na operação que criaria a Brasil Foods. Como se sabe, a batalha foi perdida, mas em termos. Hoje, a Tarpon possui cerca de R$ 2,4 bilhões de ativos da Brasil Foods na carteira, e José Carlos é membro independente do conselho de administração da empresa. 

Mais : Dicas dos especialistas para ter R$ 1 milhão na conta bancária

Mas nem só de investimentos em outras companhias vive a Tarpon, que, em 2007, abriu capital na bolsa de São Paulo. Para o executivo, a estabilidade e flexibilidade de capital obtidas com a operação ajudaram a empresa a enfrentar a crise econômica que estourou no ano seguinte. Leia mais: Tarpon pega carona na usina de projetos do Brasil

E, para quem pensa que a história da empresa é um mar de rosas, José Carlos recorda situações em que a Tarpon entrou em rota de colisão com parceiros investidores e outros acionistas, como nos casos envolvendo a Brasil Agro e Acesita. Na primeira situação, divergências de visão com os sócios argentinos fizeram com que a empresa vendesse o controle que tinha na Brasil Agro. “É muito difícil fazer diferente no setor de etanol, principalmente devido aos fortes subsídios da Petrobras à gasolina”, afirma, citando ainda os setores de capital intensivo e imobiliário como complicados nesse aspecto. 

Em relação à Acesita, a dificuldade foi convencer os investidores a permanecerem no barco mesmo quando parecia que ele estava afundando. “Ficamos em uma posição que precisávamos mudar de filosofia ou trocar de investidores. Escolhemos a segunda opção”, diz. 

Qualidade versus quantidade

Hoje, a Tarpon prioriza a qualidade do investimento à quantidade. “Estamos ficando menos generalistas e mais especialistas. Preferimos fazer negócio na mesma indústria fora do Brasil do que investir em uma nova indústria no país”, conta o fundador da empresa. 

Além do segmento de varejo para o público feminino, José Carlos vê também possibilidades no setor de alimentos. “É um assunto que tem água por trás, custos marginais crescentes e dinâmica de criação de valor”, ressalta. No sentido oposto está o setor bancário. “Uma intuição me diz que o negócio é para pior”, diz. 

Também : Eles vieram de famílias de classe média baixa e hoje têm R$ 1 milhão no banco

José Carlos não é muito de expor sua vida pessoal. Mas, quando o assunto é neurociência, o executivo não se furta a falar. “Tenho lido bastante coisa sobre o assunto, ajuda a entender como o cérebro se molda. Li ‘How we decide’ (de Jonah Lehrer), ‘Thinking, Fast and Slow’ (de Daniel Kahneman)”, conta.

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.