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Após suicídio do filho, em dezembro, financista que deu o golpe em Wall Street diz que bancos e fundos hedge foram "cúmplices"

Em sua primeira entrevista para publicação desde sua prisão em dezembro de 2008, Bernard L. Madoff – com aparência visivelmente mais magra e abatida no uniforme caqui da prisão – sustentou que os membros da família não sabiam nada sobre seus crimes.

Bernard Madoff, investidor condenado a 150 anos de prisão, diz que bancos foram
Ruby Washington/The New York Times
Bernard Madoff, investidor condenado a 150 anos de prisão, diz que bancos foram "cúmplices"
Mas, durante uma entrevista privada de duas horas em uma sala de visitantes aqui na terça-feira, e em emails anteriores, ele afirmou que  de sua elaborada fraude, uma reviravolta de suas alegações anteriores de que ele era a única pessoa envolvida na fraude.

Madoff, que está cumprindo uma sentença de 150 anos, parecia frágil e um pouco agitado em comparação com a calma estóica que manteve antes de sua prisão em 2009, talvez sobrecarregado com a tristeza pelo suicídio de seu filho Mark, em dezembro.

Além dessa perda, a família também tem enfrentado pilhas de processos, a perda potencial da maior parte dos seus bens, além da suspeita pública implacável e a inimizade que afastaram Madoff e sua esposa Ruth de seus filhos.

De muitas maneiras, no entanto, Madoff parecia inalterado. Ele falou com grande intensidade e fluência sobre suas relações com vários bancos e fundos de hedge, apontando a sua "cegueira deliberada" e sua falha em analisar as discrepâncias entre os documentos oficiais e outras informações disponíveis para eles.

"Eles sabiam", disse Madoff. "Mas sua atitude era uma espécie de 'se você está fazendo algo errado, eu não quero saber’".

Embora tenha admitido sua culpa na entrevista e afirmado que nada poderia desculpar seus crimes, ele concentrou seus comentários nos grandes investidores e instituições com quem fez negócios, e não na dor financeira que causou a milhares de seus investidores mais modestos. Em um email escrito no dia 13 de janeiro, ele observou que muitos de seus clientes de longo prazo tiveram mais lucros legítimos com ele nos anos que antecederam a fraude do que poderiam ter em outros lugares. "Eu adoraria que eles não tivessem perdido nada, mas havia um risco de investir no mercado do qual eles estavam bem cientes ", escreveu ele.

Madoff disse que ficou surpreso ao saber de alguns dos emails e mensagens que suscitavam dúvidas quanto a seus resultados, que muitos banqueiros circularam antes do esquema desmoronar – e que agora surgiram em ações judiciais.

"Estou lendo mais agora sobre suas suspeitas do que imaginava na época ", disse ele com um leve sorriso.

Ele não afirmou que nenhum banco específico ou administrador de fundo sabia ou foi cúmplice no esquema de Ponzi que durou pelo menos 16 anos e consumiu cerca de US$ 20 bilhões em dinheiro e quase US$ 65 bilhões em riqueza de papel. Em vez disso, ele citou a falta um controle necessário.

As entrevistas e a correspondência por email foram realizadas como parte da pesquisa desta repórtera para um livro sobre o escândalo Madoff, que será publicado na primavera deste ano pela editora Times Books, uma divisão da Henry Holt & Co.

Nas entrevistas e emails ele também alegou que está ajudando o administrador judicial à cargo do fundo das vítimas, que está tentando recuperar bilhões perdidos em nome de seus clientes enganados. Em emails, Madoff disse várias vezes que forneceu informações úteis a esse administrador, Irving H. Picard, para que el tente recuperar os bens das vítimas da fraude. Ele se reuniu com a equipe de Picard durante quatro dias no verão passado, disse. Os emails foram escritos em dezembro e janeiro, mas só recentemente ele concordou que eles poderiam ser divulgados em público.

Na prisão, o acesso de Madoff ao mundo exterior é limitado e monitorado. Todos os visitantes precisam ser aprovados pelas autoridades da prisão, que também monitoram suas ligações e a entrada e saída de emails e cartas, embora entrevistas com advogados, como Picard e seus colegas, sejam menos limitadas e possam ser realizadas em ambiente privado.

Questionado sobre sua cela, ele descreveu uma sala de cerca de 1.2 metros quadrados com uma grande janela com vista para o complexo penitenciário – ele disse também que tem um companheiro de cela, o segundo desde que chegou na prisão. Ficou claro desde os emails e da entrevista que Madoff acompanhou de perto as notícias relacionadas ao seu caso em dezembro, o segundo aniversário de sua prisão. Ele reclamou do que chamou de uma cobertura "vergonhosa" da morte de seu filho Mark, que se suicidou em 11 de dezembro.

Mark Madoff, de 46 anos, foi encontrado enforcado em casa em dezembro do ano passado
AP
Mark Madoff, de 46 anos, foi encontrado enforcado em casa em dezembro do ano passado
Contestando relatos de que ele se recusou a participar do funeral de Mark, ele disse que a prisão lhe informou que não iria aprovar um pedido de saída emergencial para que participasse do enterro por "questão de segurança pública" e devido ao pouco tempo disponível para fazer os arranjos necessários. Ele concluiu que qualquer funeral "seria um circo da mídia" e que "seria cruel a família" passar por isso, ele escreveu no dia 29 de dezembro.

Quanto às suas reuniões com a equipe legal de Picard, Madoff afirmou em um email escrito no dia 19 de dezembro que ele havia concedido a eles " informações fundamentais na recuperação de ativos daquelas pessoas cúmplices na bagunça em que eu me coloquei”.

Em uma mensagem 10 dias depois, ele foi ainda mais explícito sobre o que disse ao administrador: "Eu estou dizendo que os bancos e os fundos foram cúmplices de uma forma ou de outra, e as informações que passei a Picard quando ele esteve aqui estabeleceram isso".

As alegações de Madoff devem ser contrapostas com a sua tênue credibilidade. Depois de enganar reguladores federais e investidores supostamente sofisticados por pelo menos 16 anos, ele certamente poderia ser considerado um mentiroso por advogados de defesa caso aparecesse como testemunha contra qualquer réu em um tribunal – um fato que ele admitiu melancolicamente durante a entrevista de terça-feira.

Apesar de suas muitas referências à cumplicidade dos outros, Madoff reconheceu em um email no 19 de dezembro que não havia compartilhado a mesma informação com os procuradores federais que trabalham em processos criminais relacionados com a sua fraude – embora o administrador tenha provavelmente feito isso, caso a informação de Madoff seja relevante para a investigação em andamento.

Madoff escreveu em um email que, embora ele estivesse disposto "desde o início" a dar aos advogados informações "para ajudar a recuperar os investimentos”, ele se recusou “a ajudar a fornecer os elementos de prova criminal".

Na entrevista, ele se recusou a discutir qualquer um dos casos criminais ainda sob investigação.

Nos meses seguintes às entrevistas da equipe de Picard na prisão, a Baker & Hostetler apresentou centenas de ações judiciais buscando aproximadamente US$ 90 bilhões em prejuízos e lucros fictícios retirados do esquema de Madoff ao longo dos anos. Os réus nesses casos incluíram a família Wilpon, os proprietários do New York Mets, o JPMorgan Chase, que serviu durante décadas como o banco primário de Madoff, e Sonja Kohn, o financista vienense no centro de uma rede de fundos de hedge que investiram pesadamente com Madoff.

Sobre Fred Wilpon e Saul Katz, cunhado e parceiro de negócios de Wilpon, Madoff disse: "Eles não sabiam de nada. Eles não sabiam de nada".

Não havia nenhum sinal óbvio de que qualquer dessas ações foi baseada em provas ou orientação de Madoff. Todos os réus disseram que não tinham conhecimento da fraude e negaram afirmações do administrador dos fundos das vítimas que disse que, como investidores financeiros sofisticados, eles deveriam ter sido suspeitos desde o início.

Picard não quis comentar se sua equipe havia entrevistado Madoff e não disse se as informações dele contribuíram com o vasto corpo de ações movidas desde o verão passado.

Em alguns emails, Madoff admitiu que a equipe de Picard realizou a sua própria investigação sobre os saques feitos por alguns grandes clientes nos anos anteriores ao colapso do esquema de Ponzi para determinar quem poderia ter descoberto o quê e quando. Tais saques podem indicar que os investidores tinham conhecimento da fraude, o que poderia aumentar a sua responsabilidade.

No entanto, Madoff acrescentou, "o fato é que apenas eu estava presente em certas reuniões com esses clientes".

Até o momento, nenhum dos grandes bancos ou fundos de hedge que faziam negócios com Madoff foi acusado pelo Ministério Público Federal de investir em seu esquema Ponzi com conhecimento. No entanto, em processos civis Picard afirmou que os executivos de alguns bancos expressaram suspeitas sobre Madoff há anos, mas continuaram a fazer negócios com ele e a orientar seus clientes a investir seu dinheiro em suas mãos.

Todas as entidades financeiras que enfrentam ações judiciais por parte das vítimas de Madoff e Picard negaram qualquer conhecimento da fraude.

Em um email do dia 12 de janeiro sobre o assunto, Madoff citou acordos feitos fora dos tribunais que alguns bancos e os fundos negociaram com investidores privados de Madoff ao longo dos últimos dois anos e afirmou que alguns acordos foram feitos "para manter-me em silêncio" sobre o papel das instituições em "criar a minha situação" e sobre a identidade de quem se beneficou efetivamente de algumas de suas contas particulares.

Picard já recuperou aproximadamente US$ 10 bilhões por meio da venda de ativos e acordos com vários bancos estrangeiros e alguns clientes importantes de Madoff, incluindo a propriedade de um investidor privado, Jeffry Picower, e outra da família de Carl Shapiro, um filantropo de Palm Beach, Flórida.

Embora o acordo Picower tinha estado em negociação pelo menos desde o outono de 2009, os acordos com a família Shapiro e o banco suíço Union Bancaire Privee vieram depois da visita de Picard à prisão em Butner. Mas como os dois acordos aconteceram antes de Picard apresentar qualquer reclamação pública no tribunal, não está claro se qualquer informação oferecida por Madoff ajudou nas negociações.

Nem Shapiro, nem o banco suíço foram acusados de qualquer cumplicidade em crimes de Madoff, e Picard reconheceu publicamente a sua cooperação com as suas investigações quando anunciou o acordo, que totalizou mais de US$ 1 bilhão.

As únicas pessoas formalmente acusadas de cumplicidade num crime de Madoff são seu ex-auditor e membros do sua própria equipe.

Embora Madoff tenha jurado em tribunal que realizou sua elaborada fraude por conta própria, seu contador, David Friehling, e o braço direito de Madoff, Frank DiPascali, se declararam culpados e estão cooperando com os promotores. Outros cinco ex-funcionários de Madoff foram indiciados, alegaram inocência e estão aguardando julgamento.

Embora Madoff tenha dito que estava determinado a ajudar nos esforços para a recuperação de ativos, ele também foi crítico das ações do administrador judicial, alegando que Picard estava buscando muito mais dinheiro do que o necessário para solucionar as reivindicações dos investidores.

Além das reclamações dos clientes da perda de dinheiro e da riqueza em papel, a propriedade de Madoff também enfrenta reclamações de credores em geral, como vendedores não pagos, que não poderá ser recuperada até que todos sejam pagos.

Madoff alegou em vários emails que a responsabilidade de Picard é de devolver apenas os US$ 20 bilhões em dinheiro perdido pelos investidores no esquema de Ponzi.

Uma vez que Picard já recuperou cerca de US$ 10 bilhões, Madoff calculou que as ações judiciais contra grandes bancos e fundos de hedge devem gerar mais do que suficiente para cobrir o restante das perdas de dinheiro sem Picard ter de perseguir ações judiciais contra alguns investidores de longa data que retiraram mais de suas contas do que colocaram ao longo dos anos.

* Por Diana B. Henriques 

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