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SÃO PAULO - Depois do pregão indefinido da quinta-feira, os contratos de juros futuros ganharam rumo de baixa na Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F) nesta sexta-feira

SÃO PAULO - Depois do pregão indefinido da quinta-feira, os contratos de juros futuros ganharam rumo de baixa na Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F) nesta sexta-feira. Entre os motivos que estimularam tal movimentação estão matérias publicadas na edição de hoje do Valor, sugerindo um comprometimento de um eventual governo Dilma Rousseff (PT) com redução de gastos. Na avaliação do estrategista de renda fixa da Coinvalores, Paulo Nepomuceno, essa sinalização do governo em reduzir a relação dívida PIB teve influência sobre a curva, mesmo sem nenhuma explicação concreta de como isso será feito. Fora isso, diz o especialista, a ata apresentada ontem pelo Comitê de Política Monetária (Copom) deu a entender que o Banco Central vê a pressão de inflação bastante concentrada em alimentos. E que o nível de atividade não está tão forte. Com tais informações, diz o estrategista, a autoridade monetária sugere que a pressão inflacionária pode ser menor no começo de 2011. O que também indica que uma possível alta de juros em 2011 poderia acontecer, apenas, do segundo trimestre em diante. Antes do ajuste final de posições na BM&F, o contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) com vencimento em janeiro de 2012 apontava queda de 0,03 ponto, a 11,34%. Janeiro de 2013, o mais líquido do dia, mostrava desvalorização de 0,11 ponto, a 11,71%. Janeiro de 2014 perdia 0,16 ponto, também a 11,68%. E janeiro de 2015 devolvia de 0,13 ponto, a 11,66%. Entre os curtos, novembro de 2010 operava estável a 10,64%. Dezembro de 2010 também apontava estabilidade a 10,64%. E janeiro de 2011 apontava 10,65%, sem alteração. Até as 16h10, foram negociados 817.945 contratos, equivalentes a R$ 69,09 bilhões (US$ 40,37 bilhões), em linha com o registrado no pregão anterior. O vencimento janeiro de 2013 foi o mais negociado, com 254.390 contratos, equivalentes a R$ 19,99 bilhões (US$ 11,68 bilhões). Em entrevista ao Valor, o secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa, disse que acha importante o retorno do superávit primário para 3,3% do Produto Interno Bruto (PIB) que, associado a um crescimento médio de 5,5% da economia nos próximos anos, vai permitir uma forte redução da dívida interna. "Conforme estimativas do Ministério da Fazenda, a dívida líquida do setor público pode cair dos 39,6% do PIB estimados para este ano para 27,8% do PIB em 2014. Cumprindo esse desempenho, a taxa de juros real interna poderia baixar para inéditos 2% ao ano em 2014, estima Barbosa. Até lá, portanto, os ganhos com diferencial de juros estariam praticamente neutralizados." Em outra matéria, o jornal apurou que o Tesouro pode reduzir pela metade a quantidade de dinheiro que repassa ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Conforme notou a equipe do Nomura Holdings, juntando a ata que o Copom apresentou ontem, na qual fez comentários sobre a necessidade de ajustes ficais, com essas matérias publicadas hoje, é possível acreditar que no caso de uma vitória de Dilma Rousseff nas eleições deste domingo, a candidata não vai desapontar a tradição de um começo de governo mais austero. "Esse é o nosso cenário e o pilar sobre o qual temos apoiado nossa visão de que os riscos envolvendo a política monetária em 2011 são de baixa, ou seja, enxergamos chances reais de queda de juros", notou o banco, ressalvando que não ignora os riscos de curto prazo, como leituras de inflação mais elevadas. Outro ponto ressaltado pelo Nomura é saber onde o ex-ministro Antonio Palocci pode cair em um eventual mandato de Dilma. Se Palocci ganhar uma posição relevante, como Casa Civil, essa percepção de firme ajuste fiscal vai ficar bem mais clara. Por outro lado, se o ex-ministro ficar em uma pasta de menor destaque, essas apostas serão canceladas. "Parece que se o próximo governo está pensando seriamente em adotar uma dieta fiscal,. E o Brasil pode, finalmente, passar por um necessário alinhamento de taxas de juros", conclui a instituição. Com uma visão mais cética, o economista-sênior para América Latina da empresa de análises de mercado 4Cast, Pedro Tuesta, aponta que o uso do superávit primário como indicador de retidão fiscal é, basicamente, um conceito morto. O arranjo grosseiro do superávit começou com a retirada dos investimentos em infra-estrutura da conta. Tal manobra pode ser justificada com a pecha de que tais gastos vão elevar o PIB potencial, mas isso eleva o grau liberada para mais gastos. Dito de outra forma, diz Tuesta, ao invés de cortar os gastos correntes para poder investir mais, o governo tira os investimentos da conta, fragilizando o conceito de superávit primário. No entanto, diz o economista, tal manobra não é nada quando comparada com a contabilização de recitas de R$ 31,9 bilhões reflexo da capitalização da Petrobras. A prática usual, diz Tuesta, é considerar a venda de ativos como receita não recorrente. "Em outras palavras, o simples conceito de superávit primário mostra tantos furos agora que não é mais um indicativo de política fiscal. É melhor olhar para o comportamento da dívida bruta ou para o déficit total", conclui. (Eduardo Campos | Valor)

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