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Investidor migra para fundos de investimento, que rendem mais. Maio também é considerado um mês ruim para essa modalidade

Uma mistura de inflação e juros em alta fez do mês passado o pior maio para a poupança em cinco anos. Segundo informações do Banco Central (BC), maio registrou saída líquida de R$ 1,3 bilhão, a maior sangria de recursos para o mês desde 2006. No acumulado do ano, as perdas somam R$ 3,06 bilhões, ante entrada de R$ 8 bilhões no mesmo período de 2010.

Para especialistas, o cenário atual, de inflação e juros em alta, é nocivo para as aplicações em caderneta de poupança, o que provoca migração para outros tipos de investimento. “Descontada a inflação, a poupança está com rendimento real negativo”, diz o professor Eduardo Coutinho, do Ibmec. “Enquanto essa situação não for revertida, podemos esperar mais retiradas.”

Juros em alta também fazem com que a poupança perca para a renda fixa, lembra Sinara Figueiredo, superintendente de investimentos do Santander. “Hoje em dia já há fundos de renda fixa com taxas de administração baixas e capital mínimo de entrada exigido menor, o que facilita a migração”, afirma. Em maio, os títulos de renda fixa tiveram o maior rendimento entre as oportunidades de aplicação, com alta entre 0,85% e 1,15%. Os títulos indexados ao IPCA tiveram o segundo melhor rendimento do mês, com faixa entre 0,75% e 1,05%. Já a poupança teve rendimento de 0,66%.

Essa rentabilidade levou à migração de opções citada por Sinara. Segundo boletim da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima), os fundos de investimento tiveram captação líquida acumulada de R$ 51,3 bilhões de janeiro a abril, superando toda série histórica para o período, iniciada em 2002.

Uma questão de agenda

Além dos juros e da inflação, a agenda também conta nas retiradas de abril e maio. Apesar da saída líquida no acumulado do ano, a poupança teve ingressos em janeiro e março, e as retiradas mais fortes aconteceram nos dois últimos meses. Abril teve saída ainda maior que maio, com rombo de R$ 1,7 bilhão. “Se olharmos para trás, vamos ver que existe quase uma regra: os meses de março, abril e maio quase sempre registram saídas de recursos”, lembra José Francisco de Lima Gonçalves, economista-chefe do Banco Fator. O padrão pode ser verificado na série histórica do BC pelo menos desde 1995.

De acordo com ele, esses meses espelham um comportamento tradicional do investidor: fortes aportes em dezembro e janeiro, quando entra o dinheiro do décimo terceiro salário, e retiradas nos meses seguintes. “Muitas vezes falta dinheiro para pagar algumas contas de começo de ano, e o que foi aplicado na poupança é retirado.”

“Maio realmente não é um bom mês para os investidores”, concorda Sinara Figueiredo, superintendente de investimentos do Santander. Mas ela acrescenta um outro fator, além dos juros em alta, que contribuiu para fazer de 2011 um ano com mais saída que os anteriores: ajuste após fortes ingressos em 2010.

O padrão de retirada de recursos entre março e maio vem ocorrendo desde 2006, segundo números do BC. Em 2010 a regra se manteve, mas o ano foi tão forte em ingressos de recursos que estes apenas diminuíram entre março e maio. O ano passado não registrou sequer um mês de saída líquida.

Economia em expansão e ingresso de novos poupadores estão entre os motivos desse boom, conta Sinara. Apenas o segundo semestre do ano passado teve ingressos de R$ 26,4 bilhões. O ano fechou com entradas de R$ 38,6 milhões, ante R$ 30,4 bilhões no ano anterior.

Outro fator que ajuda na aplicação em poupança é sua simplicidade. A poupança é conhecida de todos e não sofre incidência de imposto nas retiradas. Para a superintendente, o ano passado trouxe muita gente que nunca havia investido antes, muitos aplicadores da classe C. Esse fato, acredita, pode estar ditando um novo comportamento na poupança. “As políticas de restrição ao crédito e a alta da inflação podem ter comprometido a renda desses novos poupadores, o que contribuiu para uma retirada maior de dinheiro.”

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