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Para professores de finanças, efeitos de compras parceladas ainda devem repercutir nas dívidas

Os próximos meses devem mostrar mais aumentos nas dívidas dos brasileiros. Ainda deve demorar um pouco para que os consumidores percebam que devem suspender um pouco as compras para reequilibrar as finanças, segundo especialistas.

Nesta terça-feira, a Serasa mostrou que a inadimplência do consumidor registrou crescimento de 8,2% em maio, na comparação com o mês anterior. Foi o terceiro mês consecutivo de alta – em março, a taxa subiu 3,5% e, em abril, 1,5% – e a maior variação desde março de 2010.

As dívidas com os bancos foram as maiores responsáveis pela alta. De acordo com os economistas da Serasa Experian, "a elevação dos juros e as medidas de restrição ao crédito para controle da inflação intensificaram a evolução da inadimplência do consumidor". As dívidas bancárias contribuíram com 55% de toda a variação mensal (4,5 pontos percentuais).

No Banco Central, as últimas informações mostram que a taxa de inadimplência das pessoas físicas subiu de 6,0% em março para 6,1% em abril, o maior patamar desde agosto do ano passado, quando o índice era de 6,2%. O resultado de março, que inicialmente era de 5,9%, foi revisado pelo Banco Central para 6,0%.

“A fatia de endividados deve continuar crescendo pelo menos até agosto”, diz Otto Nogami, professor de ambiente econômico global do Insper. Segundo ele, esse é o tempo necessário para que caiam parcelas restantes de compras feitas, por exemplo, em cinco ou seus vezes no cartão de crédito.

Para o especialista, essa alta no nível de endividamento era esperada, já que as pessoas compraram muito mais, sobretudo no final do ano, animadas pelo crédito mais fácil até 2010. “Foram momentos de euforia, quando o brasileiro ultrapassou seus limites de endividamento”, diz.

Nogami também acredita que as medidas prudenciais, adotadas pelo governo federal para conter o crédito, demoram a ser absorvidas pelos consumidores. “Muitos continuaram comprando, mesmo após as altas de juros promovidas pelo Banco Central.” Ele diz ainda que muitos consumidores brasileiros parcelam suas compras sem perceber que estão comprometendo as finanças futuras.

Gilberto Braga, professor do Ibmec, também espera alta no nível de dívidas. “As medidas macroprudenciais atingiram em cheio quem já estava endividado”, acredita. “Primeiro, os endividados usaram o décimo terceiro para tentar controlar a situação. Agora, não há mais dinheiro sobrando.”
Para os especialistas, esse aperto na situação financeira dos brasileiros levará, em breve, a uma queda mais forte do consumo, surtindo o efeito esperado pelo governo. “Parte disso já está sendo sentida, com a redução da inflação”, diz Nogami.

Preocupante?

Para Braga, do Ibmec, o atual nível de endividamento do consumidor, em torno de 6%, é pouco preocupante, pois apesar da perspectiva de aceleração menor, a economia ainda crescerá este ano. “Teremos uma alta entre 3,7% e 4% do PIB”, diz. Ele também destaca o que vê como uma mudança qualitativa no perfil de renda da população. “Apesar dos endividados, muitos desempregados conseguiram vagas e outros tiveram aumentos reais de salários.”

Já Nogami acredita que, apesar de a situação ser ruim e comprometer o próprio financiamento à produção, os níveis tendem a retornar ao patamar histórico brasileiro, entre 2% e 2,5%.

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