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No estouro da crise, Ibovespa atingiu 29 mil pontos. Mas a XP Investimentos lembra que os lucros das empresas cresceram, o que muda o patamar de comparação

Quando o clima é de tensão nos mercados acionários e a Bolsa de Valores começa a cair, surge logo a pergunta: “Qual o fundo do poço do Ibovespa?” Analistas evitam responder, mas é possível fazer uma estimativa com base em múltiplos, que medem os preços das ações em relação a outros dados das empresas, como lucro, ou patrimônio. Em relatório desta semana, analistas da XP Investimentos usam a relação entre o preço e o lucro das companhias do Ibovespa para chegar à conclusão de que se o índice cair até os 43 mil pontos, estará em um patamar equivalente ao fundo do poço da crise de 2008, quando atingiu 29 mil pontos.

Para chegar a este número, os analistas compararam a relação entre preço das ações e lucro das empresas em 2008, no dia em que o índice atingiu sua menor pontuação, e nesta semana. Em 29 de outubro de 2008, o Ibovespa fechou cotado em 29.435 pontos.

Na ocasião, as empresas do índice tinham uma relação de preço sobre lucro de 6,7 vezes. Atualmente, o número está em 8,11 vezes. Quanto maior o valor, significa que a empresa está mais valorizada. Nos cálculos da XP, para chegar aos 6,7 vezes - ou seja, piorar, e ficar como era há três anos -, seria preciso que o Ibovespa caísse para 43.651 pontos. Isso significa uma queda de 18% em relação ao fechamento da última quinta-feira (53.343 pontos).

Os analistas não afirmam, porém, que o Ibovespa irá atingir este patamar. Também ressalvam que não é possível garantir que, caso o índice caia os 9,8 pontos percentuais, haverá uma inflexão, ou seja, que a bolsa voltará a subir.

A ânsia em tentar determinar o fundo do poço aumenta em momentos em que as tensões dos investidores estão mais afloradas. Desde o início do mês, os mercados globais de ações vêm mostrando grande volatilidade com preocupações relacionadas à dívida dos países europeus e à economia norte-americana. No Brasil, o forte sobe e desce é evidente nos últimos pregões. Somente em agosto, o Ibovespa perdeu 17% do dia 1º até a ultima segunda-feira, quando caiu 8,08%. Nos três dias seguintes, subiu quase 9%.

Bovespa barata

Com um múltiplo de 8,11 vezes, os analistas da XP identificaram que a Bolsa de Valores brasileira está entre as mais baratas do mundo. Com base na relação entre preço e lucro, a corretora verificou que o Ibovespa só perdia para o IBEX 35, da bolsa da Espanha, como índice que têm menor relação entre o valor das ações e o ganho das companhias.

Uma relação de preço sobre lucro de 8,11 vezes significa que, caso as empresas mantenham seus lucros inalterados, em 8,1 anos 100% dos investimentos retornariam apenas via lucros. Com esse número, o Ibovespa perde para índices dos Estados Unidos, França, Alemanha, Inglaterra, Japão e China, sendo que o índice norte-americano Nasdaq apresentava a maior relação, de 19,07 vezes, segundo dados levantados nesta sexta-feira pela corretora.

Relação entre Preço e Lucro (P/L) de índices de ações
Ibovespa - Brasil 8,11x
Dow Jones - EUA 12,02x
Nasdaq - EUA 19,07x
S&P 500 - EUA 12,86x
CAC 40 - França 9,27x
DAX 30 - Alemanha 10,47x
FTSE 100 - Inglaterra 10,63x
IBEX 35 - Espanha 7,35x
Nikkei - Japão 16,91x
Shanghai - China 14,34x
XP Investimentos

Cautela

Apesar de identificarem que a Bovespa está barata, a XP recomenda aos investidores que tenham cautela neste momento e tomem atitudes “moderadas” em seus movimentos, sejam de compra ou venda. “Acreditamos que pode estar surgindo um ponto de compra interessante, mas o momento requer cautela,” dizem em relatório.

Segundo eles, a solução dos principais problemas que preocupam os investidores não é fácil. E, apesar de o Brasil estar com sua economia “superaquecida”, o País “pode ser atingido por uma piora do cenário global, principalmente por conta de uma abrupta queda nas cotações das commodities, que são a base das exportações brasileiras,” afirmam os analistas no relatório.

A solução europeia, na visão dos analistas, deverá envolver uma “ação coordenada de diversos bancos centrais provavelmente recomprando títulos de economias fragilizadas e, consequentemente, aliviando seus balanços.” Mas acrescentam que, os países ajudados seriam “obrigados a promover cortes em seus orçamentos, bem como reduzir seus elevados benefícios sociais, o que, por sua vez, refletiria negativamente na atividade econômica global.”

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