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Mercado futuro segue bolsas e câmbio em semana de turbulência

SÃO PAULO - Os contratos de juros futuros devolveram praticamente toda a alta acumulada entre quarta e quinta-feira e o que chama atenção dos agentes do mercado é falta de fundamentos para explicar tamanha oscilação de preço.

Como nas bolsas ou mesmo no câmbio e outros ativos, a racionalidade não dá as caras no mercado de juros futuros. Claro que, conforme pioram as expectativas de crescimento mundial, é natural que se projetem juros menores adiante, mas a intensidade da queda e também dos repiques de alta é o que deixa todos perplexos.

De acordo com um operador, parte da queda de hoje, especialmente entre os contratos longos, estaria relacionada à entrada de dinheiro novo no mercado.

Um investidor estrangeiro teria entrado no vértice janeiro de 2017, o que serviu de gatilho para um ajuste generalizado. "Mas o resto da curva está uma bagunça", diz esse mesmo especialista.

Para o estrategista de renda fixa da Coinvalores, Paulo Nepomuceno, o número de variáveis a ser considerado no mercado de juros, que já era grande, cresceu ainda mais. Além dos tradicionais, crescimento e inflação domésticos, os agentes têm de estudar as contas públicas da Itália, saber da saúde financeira de bancos franceses e descobrir se a Grécia vai ter condições de pagar seus empréstimos.

O que se pode afirmar com algum grau de certeza, segundo Nepomuceno, é que toda a piora do cenário que marca essas duas semanas de agosto está ajudando a melhorar as expectativas de inflação.

A curva futura segue mostrando redução de juros ainda em 2011, mas Nepomuceno não acha isso factível. Para o especialista, o BC deve manter a Selic em 12,50% ao ano por um longo tempo.

Ainda nos juros, um gerente de operações que pediu anonimato, chama atenção para o noticiário político. São inúmeras as notícias de que o governo não vai deixar a economia parar, fora as indicações de "esse é o momento" para cortar a taxa de juros.

"Pensando bem, somos o mercado onde a ideia de economia forte e inflação bombando mais rápido se desfez no mundo", diz o gerente, lembrando que no fim de julho se discutia quantas altas mais seriam necessárias na Selic para fazer a inflação convergir para 4,5% em 2012.

Antes do ajuste final de posições, na Bolsa de Mercadorias Futuros (BMF), o contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) com vencimento em setembro de 2011 apontava estabilidade a 12,38%. Outubro de 2011 também não tinha alteração a 12,37. Novembro de 2011 marcava 12,30%, baixa de 0,01 ponto percentual. E janeiro de 2012 projetava 12,26%, queda de 0,03 ponto.

Entre os contratos mais longos, janeiro de 2013 apontava baixa de 0,10 ponto, a 11,86%. Esse contrato abriu o mês a 12,70%. Janeiro de 2014 registrava desvalorização de 0,18 ponto, a 11,87%. Janeiro de 2015 tinha queda de 0,24 ponto, a 11,92%. Janeiro de 2016 caía 0,17 ponto, a 11,99%. E janeiro de 2017 projetava 11,91%, perda de 0,25 ponto.

No mercado externo de juros, as taxas dos papéis americanos também apontam para baixo - algo que denota aversão ao risco. As bolsas americanas, no entanto, operam em alta. "Antigamente, esses ativos tinham correlação positiva, ou seja, ambos apontavam sempre para a mesma direção. Agora, nada faz muito sentido", diz um gestor.

(Eduardo Campos | Valor)