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Rebaixamento da nota dos EUA pela Standard & Poor’s deflagrou debate sobre a necessidade de reformar a atividade das agências

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O rebaixamento da nota de risco dos Estados Unidos pela Standard & Poor’s deflagrou não apenas temores nos mercados internacionais, mas trouxe à tona o debate sobre a necessidade de medidas para reformar a atividade das agências de rating (classificação de risco). Na origem da polêmica, um tema que tem suscitado fortes reações de políticos, economistas e acadêmicos desde a crise de 2008: a credibilidade dessas agências.

A deputada democrata da Califórnia Maxine Waters solicitou à Comissão de Serviços Financeiros da Câmara dos EUA, na última quarta-feira, uma audiência para investigar as implicações do rebaixamento da S&P, além de pedir à Securities and Exchange Comission (SEC, a Comissão de Valores Mobiliários americana) para esclarecer se houve vazamento do anúncio do corte da nota de risco americana.

O preço das ações das três maiores agências de classificação de risco - S&P, Moody’s e Fitch - segue em queda desde o pico atingido no primeiro semestre de 2007, antes do estouro da bolha de crédito, com a proliferação de instrumentos de investimentos considerados tóxicos por ter como lastro hipotecas com fraquíssimo perfil de crédito, a exemplo das chamadas Obrigações de Dívida Colateralizadas (CDO, na sigla em inglês).

As ações da Moody’s eram negociadas na manhã de sexta-feira a US$ 31,39, mas em fevereiro de 2007, quando havia forte demanda para avaliar o risco de instrumentos como CDO, valiam US$ 73,95. Os papéis da McGraw Hill, dona da S&P, caíram de US$ 71,25, em junho de 2007, para US$ 36,92. E as ações da francesa Fimalac SA, que controla a Fitch, eram negociadas a 25,83 euros na Bolsa de Paris, contra 75,10 euros em fevereiro de 2007.

Credibilidade

“A questão da credibilidade tem tido um papel relevante na queda no preço das ações dessas agências, pois se elas perdem credibilidade isso terá implicações negativas para o desempenho de seus negócios”, disse à Agência Estado Peter Appert, analista que cobre as ações da Moody’s e da McGraw Hill para a corretora Piper Jaffray & Co, em São Francisco, Califórnia.

Segundo Appert, antes da crise de 2008, as ações das agências eram procuradas porque, diante do aumento pela demanda por produtos de crédito, essas empresas “eram vistas como cobradores de pedágio na estrada para o mercado de capitais superaquecido daquele período”.

Mas as agências de rating levaram parte da culpa e da publicidade negativa na crise financeira, já que premiaram muitas CDOs e outros produtos derivativos complexos com notas máximas de crédito, ou AAA, além de avaliarem positivamente bancos como o Lehman Brothers até poucos dias antes de sua falência.

É esse “calcanhar de Aquiles” que o presidente Barack Obama tentou explorar ao desacreditar o rebaixamento da nota americana e mencionar o erro de US$ 2 trilhões no modelo utilizado pela S&P para basear a decisão.

Porém, Obama sabe que a decisão da S&P dá maior poder político a todas as três agências, pois, se uma das outras duas agências rebaixar os Estados Unidos, o governo americano terá de pagar juros bem mais elevados e muitos investidores serão obrigados, por força estatutária, a abandonar os títulos americanos.

Regulação

E o maior poder político a que as agências almejam tem um alvo claro: deixar o governo Obama refém e impedir a adoção de medidas mais restritivas de regulação das atividades das empresas de classificação de risco, no âmbito da Lei Dodd-Frank, aprovada pelo Congresso em 2010. A lei busca promover uma reforma regulatória do sistema financeiro para evitar a repetição dos abusos que levaram à crise de 2008.

“O rebaixamento da nota de risco dos EUA levantará a questão de existir ou não uma tentativa de retaliação da administração Obama se houver agora um esforço do governo em implementar novas medidas regulatórias da atividade”, disse Joseph Mason, professor de Finanças da Universidade de Louisiana.

Vingança ou não, o movimento pela reforma das atividades de classificação é real e é hoje o maior risco para investidores com ações das agências de rating, na opinião de Appert. “O temor dos investidores é que o governo Obama passe a praticar ‘bullying’ contra as agências de rating pela regulação.”

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