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Após os Estados Unidos verem sua classificação de risco reduzida, outras nações devem ter problemas com suas dívidas e seguir o mesmo caminho

Quando os Estados Unidos espirram, o resto do mundo fica resfriado. É com este ditado que o Standard Bank abre a discussão sobre um possível rebaixamento em cadeia da nota de risco de diversos países. Três dias depois de a agência de risco Standard & Poor´s ter reduzido a classificação dos Estados Unidos , as bolsas do mundo inteiro desabaram na última segunda-feira, e as preocupações não se limitam à economia norte-americana. Na opinião dos economistas, é possível que outros países também vejam suas notas reduzidas nos próximos meses.

Pedestres caminham diante da Bolsa de Valores de Nova York na última segunda-feira: Rebaixamento dos EUA provocou quedas superiores a 5%
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Pedestres caminham diante da Bolsa de Valores de Nova York na última segunda-feira: Rebaixamento dos EUA provocou quedas superiores a 5%
“Esperamos outros rebaixamentos na zona euro,” diz o Standard Bank. O banco sul-africano não acredita que a Inglaterra perderá o status de AAA , mas afirma que outras agências – além da Standard & Poor´s - devem rebaixar não apenas os EUA, mas também outras nações. “Ainda que leve um ano ou mais, isso vai acontecer,” afirmam os economistas do banco.

No mesmo sentido, a a Black Rock afirma em seu relatório sobre rebaixamento dos títulos dos EUA estar “preparada” para novos revisões de classificações de muitos outros emissores de títulos nas próximas semanas. Os cortes devem atingir não só países, na visão da maior gestora global de fundos de investimento, mas também companhias privadas ou estatais que emitem papéis derivados dos títulos norte-americanos.

Para o diretor do escritório brasileiro de um banco europeu de investimentos que prefere não se identificar, a expectativa é que a Standard & Poor´s analise novamente os países da zona do euro nas próximas semanas. “Depois de rebaixar o rating soberano dos Estados Unidos, o mais coerente é que a agência reavalie a nota de países que se encontram em situação muito pior que a americana, como Portugal e Espanha. Se a Standard & Poor´s se omitir agora, poderá ser acusada de ter rebaixado os EUA apenas por birra ou para conseguir atenção da mídia”, afirma o executivo.

Alexandre Chaia, professor de Finanças do Insper, concorda que um rebaixamento em cadeia é “muito possível”. Mas ele discorda que as agências reduzam as classificações de outros países apenas para manter uma coerência após o ocorrido com os Estados Unidos. Na opinião dele, os cortes de notas de Espanha e Itália, por exemplo, devem acontecer pois os países vão dar motivos para serem rebaixados.

“Por enquanto, não há nada de novo no cenário da Europa. Itália e Espanha têm as mesmas situações que tinham há um mês,” afirma o professor. Mas o rebaixamento norte-americano influencia, de alguma forma, a piora dos ratings de outros locais na medida em que gera uma tensão global e leva investidores a agirem com mais cautela. “Eles passam a evitar títulos da dívida de outros países”, diz Chaia.

Segundo ele, o rebaixamento em cadeia vai acontecer justamente quando os investidores pararem de comprar os bônus de outras nações, o que vai gerar dificuldades para que os países lidem com seus endividamentos. “A Essas nações não vão conseguir rolar suas dívidas e poderão chegar a uma situação de insolvência. Assim, darão razões para seus rebaixamentos,” afirma.

Atualmente, a dívida global – somados os endividamentos de todos os países – está em torno de US$ 60 trilhões, segundo Chaia.

O efeito dos rebaixamentos, na opinião do professor do Insper, poderá ser catastrófico. “Veremos uma tensão ainda maior no mundo e uma grande desconfiança em relação aos pagadores. As pessoas deixarão ainda mais de comprar títulos, mas os governos vão continuar precisando de dinheiro. Então começa um cenário de inflação com estagnação,” afirma.

Por ora, a sugestão dos economistas é que os investidores não façam apostas em títulos da zona do euro, ainda que as nações tenham classificação AAA , que significa nível máximo de confiança. “Bônus de Alemanha, França e outros países da zona do euro, ainda que sejam bem classificados, não são recomendados para o curto prazo,” diz o Standard Bank.

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