Tamanho do texto

Pânico dos investidores no primeiro pregão após o rebaixamento do rating dos EUA castigou empresas brasileiras na bolsa

selo

O pânico dos investidores no primeiro pregão depois do rebaixamento da nota de crédito dos Estados Unidos pela Standard & Poor’s castigou as empresas brasileiras negociadas na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa). Só ontem, elas perderam R$ 146,98 bilhões, segundo levantamento da empresa de informação financeira Economática. Em valor de mercado, as maiores perdas foram da Petrobras (cerca de R$ 22 bilhões) e Vale (quase R$ 21 bilhões).

Mas, em porcentual, outras empresas lideraram o ranking de queda no ¿?ndice da Bolsa (Ibovespa). A campeã foi a Marfrig, do setor frigorífico. No pior momento do pregão, as ações chegaram a despencar 28%, mas fecharam o dia em 25,75%. As empresas do empresário Eike Batista também sofreram com o caos no mercado. A OGX, de petróleo e gás, e a LLX, braço de logística do grupo EBX, recuaram 16,82% e 14,05%. Juntas, as três companhias perderam R$ 7,2 bilhões no dia, segundo o levantamento.

“A aversão ao risco foi generalizada. Mas, além do risco sistêmico que afetou todas as ações, há o risco individual das empresas, avaliado especialmente pelo fluxo de caixa”, afirma o professor de finanças da BBS Business School, Ricardo Torres. No caso da Marfrig, a empresa está bastante alavancada por causa de aquisições feitas nos últimos anos, como a Keystone e a O’Kane. Ontem, o valor de mercado da companhia representava metade de seu patrimônio líquido.

Além disso, parte do endividamento está em moeda estrangeira, o que deixa o grupo mais exposto aos humores dos investidores. Junta-se a isso o fato de os custos terem crescido bastante nos últimos meses e ameaçarem as margens da companhia. “Apesar disso, não acredito que a empresa vá ter problemas graves. O grupo tem sócios fortes, capazes de sustentar uma crise”, diz Eduardo Miziara, gestor dos fundos de ações da Capitânia.

Ele explica que boa parte do desempenho das ações da empresa deve-se ao movimento de um dos sócios da Marfrig. Trata-se do banco GWI, do coreano Mu Hak You, que apostou fortemente na empresa no início do ano, quando anunciou a compra de uma participação de 5,22%. O GWI, que chegou a encerrar temporariamente suas operações após a crise de 2008, depois de registrar fortes perdas em operações de risco muito alto, foi ao mercado ontem para se desfazer dos papéis da Marfrig.

No caso das empresas de Eike Batista, a situação é um pouco diferente. Na OGX, o desempenho costuma seguir a tendência do preço internacional do petróleo, que ontem caiu 6,41% e fechou no menor nível em quase nove meses. Mas há um outro fator que acaba influenciando as decisões dos investidores num momento de pânico. Tanto a OGX como a LLX são empresas que têm em sua carteira projetos que ainda não estão operando.

“São empresas pré-operacionais, que ainda vão começar a produzir. Essas empresas tendem a ser mais voláteis”, afirma o analista chefe da corretora Socopa, Osmar Camilo. Ontem, enquanto a OGX caiu 16,82%, a Petrobras recuou 9,01%. Ele explica que, no caos, ninguém se salva. “Na hora do aperto, os investidores precisam fazer caixa e vendem o que podem.”

Mercado imobiliário

Entre as empresas do mercado imobiliário listadas na Bolsa, as que registraram as maiores quedas foram Even (11,42%), Brookfield (11,07%) e Tecnisa (10,23%). Na avaliação de executivos de construtoras e incorporadoras, o momento ainda não é dos mais dramáticos para o setor. “Estamos numa situação diferente da de 2008. Desta vez, as empresas vêm de operações fortes, com um volume de vendas muito bom”, diz Emílio Fugazza, diretor financeiro e de relações com investidores da Eztec.

As mais impactadas com o clima de tensão são as empresas com dívidas de curto prazo, que faziam planos de recorrer ao mercado em breve. Como a expectativa é de que o governo federal reduza juros para amenizar os impactos da crise no País, os empresários acreditam que, em princípio, o ritmo de crescimento não será afetado. “Na pior das hipóteses, vamos deixar de crescer para executar o que já estava planejado e deixar o caixa voltar”, diz outro executivo.

Na cabeça dos investidores, neste momento, um dos pontos que pesam contra as empresas do setor imobiliário é a incerteza em relação ao nível de crédito e de inadimplência. Ninguém sabe de que forma a crise mundial afetará o Brasil, se haverá escassez de crédito, a exemplo de 2008. “Mas sabemos que, quando o risco aumenta, a tendência natural do mercado é recuar e reduzir o volume de crédito. Com o nível de desconfiança em alta, os bancos tendem a proteger seu caixa”, diz Ricardo Torres.