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Especialistas descartam ataque especulativo e apontam excesso de liquidez internacional; entenda por que a moeda americana se desvalorizou mais de 8% desde janeiro

Desvalorização do dólar preocupa Banco Central, que tenta conter a queda da moeda
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Desvalorização do dólar preocupa Banco Central, que tenta conter a queda da moeda
Nos últimos dias, o mercado financeiro tem acompanhado uma queda-de-braço. De um lado, o Banco Central brasileiro luta para manter o dólar no patamar de R$ 1,70. Do outro, uma enxurrada de moeda estrangeira entra no País, forçando seu preço para baixo. O resultado? Desde janeiro, o preço da moeda já recuou 8,19% frente ao real.

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Para os analistas, a tendência, pelo menos no curto prazo, é o dólar continuar se depreciando. "A moeda americana pode atingir o patamar de R$ 1,65", acredita o economista-chefe da Prosper Corretora, Eduardo Velho.

Para ele, essa dinâmica reflete um misto de movimentos especulativos com a valorização natural do real, após anos de reformas fiscais e tributárias realizadas pelo governo brasileiro. “O Brasil é um polo de atração para os investidores, que buscam ganhar com moedas de emergentes, como o rand sul-africano, o peso mexicano e o peso chileno”, afirma o economista. Dentro desse grupo, o Brasil é visto como um “porto seguro”, com boas reservas cambiais e baixa relação entre dívida pública e Produto Interno Bruto (PIB).

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A desvalorização da moeda americana também foi influenciada pela melhora do humor do mercado, graças a sinais positivos vindos da Europa. Por isso, na opinião dos economistas, a moeda americana está longe de voltar a se valorizar ante ao real. “A tendência ainda é de baixa do dólar. O Banco Central vai continuar absorvendo esses dólares, não para mudar a tendência, mas para estancar a queda”, diz José Carlos Amado, operador de câmbio da Renascença Corretora.

Nos últimos dias, o Banco Central tem ido ao mercado fazer operações de compra de dólares e swap reverso, para segurar o câmbio. "Além disso, já circulam notícias de que a autoridade monetária prepara novas medidas cambiais ”, afirmava Amado. (Atualização: nesta quinta-feira, o Governo aumentou o IOF para conter a queda do dólar )

O operador não acredita que a flutuação cambial tenha a ver com pressão especulativa. “Após a primeira elevação do IOF , não sobrou muito espaço para ganhar com ataque especulativo”, diz. “Claro que alguns investidores buscam ganhar com a diferença de juros paga no Brasil, o que traz mais dólares para o país, mas isso não pode ser chamado de ataque especulativo contra a moeda”, afirma.

“O quadro geral para as próximas semanas, caso não haja nenhuma notícia ruim vinda da Europa ou dos EUA, é de que a queda do dólar continue”, diz Fernando Ribeiro, professor de economia do Insper. “O Banco Central também deve continuar intervindo para sustentar a barreira psicológica de R$ 1,70”, afirma.

Para Eduardo Velho, da Prosper, o BC tem um arsenal à disposição para continuar a estancar a queda da moeda americana. “Ele pode aumentar o IOF de compulsórios e da renda fixa, restringir a captação ou limitar as posições de bancos”, ressalta. “Se não estivesse havendo essa intervenção, o dólar teria caído mais. Porém o governo estabeleceu a faixa de R$ 1,70 a R$ 1,90 para a moeda, então o BC deve continuar comprando a prazo e à vista para conter a queda”, afirma Velho.

Quem ganha e quem perde
A queda do dólar não é ruim para todo mundo, lembra Ribeiro, do Insper. Enquanto o governo segura o câmbio por se preocupar com as exportações e a balança comercial, o dólar baixo favorece a maioria dos consumidores e auxilia nas metas de inflação. “O dólar barato segura o preço de produtos e insumos importados, ajudando a conter a alta dos preços”, diz. “Na prática, ele aumenta o salário real dos brasileiros, que recebem em moeda nacional”, explica.

Por outro lado, a valorização do real pode ter um efeito negativo na indústria, com a perda de exportações devido à menor competitividade dos bens brasileiros no mercado. “Produtos chineses são muito competitivos no mercado internacional, enquanto os produtos nacionais têm que competir com preços mais altos. Os setores de calçados e têxteis brasileiros sofrem muitos com importados da China”, afirma Daniel Moreli Rocha, economista do Banco Indusval & Partners.

“Para atenuar o impacto dessa apreciação [ do real ], o governo poderia conceder renúncia fiscal a determinados setores”, sugere Eduardo Velho. “As empresas perderiam com o câmbio, mas seriam compensadas com a queda de imposto”, destaca.

Já para Ribeiro, o Banco Central tem sido “sábio” e conduzido de forma adequada a política cambial. Para ele, a tendência geral de queda do dólar já é observada há muito tempo – desde 2002 – e isso se deve a mudanças nos fundamentos da economia brasileira, que tem melhorado. Ou seja, talvez o real simplesmente valha mais, mesmo. “Além disso, o empresariado brasileiro tem de parar de depender da taxa de câmbio para ser competitivo”, alerta.


* Colaborou Ilton Caldeira

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