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Para o ex-ministro, atual modelo impede que Selic caia abaixo do piso de 8%, o que afeta competitividade do país nos mercados interno e externo

O ex-ministro da Fazenda Antônio Delfim Netto defendeu nesta terça-feira que a remuneração da caderneta de poupança seja atrelada à taxa Selic, como forma de possibilitar uma queda maior da taxa de juros no país, atualmente a maior do mundo. O economista participou da apresentação de um estudo da Fecomercio-SP que sugere mudanças no cálculo da poupança, cuja remuneração atual cria um limite de juros mínimos de curto prazo.

“Uma aplicação líquida e segura como a caderneta de poupança não pode ser remunerada com juros altos, pois vai acabar atraindo os investidores de outros produtos, como fundos de investimento e CDB”, afirma Delfim Netto. Caso a Selic continue caindo abaixo do piso de 8%, pode haver uma migração em massa de recursos para esse tipo de aplicação, até porque a poupança não paga imposto de renda, diferente de fundos de investimento e outras aplicações.

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Governo tem medida provisória para nova poupança

Mas, para o economista, o atual modelo prejudica o próprio poupador. “Ele está sendo roubado e não sabe. Se ele guarda R$ 500, recebe uma remuneração de R$ 15 no ano. Mas se pega um financiamento de R$ 1.000 e deixa de pagar, vai acabar desembolsando R$ 400 no ano. Com o juro menor, ele paga menos no financiamento”, explica Delfim Netto. O ex-ministro, porém, reconhece que mexer na poupança é um tema sensível, por ainda estar vivo na memória dos brasileiros o bloqueio dessa aplicação durante o governo Collor.

Na opinião do ex-ministro, reduzir os juros e mudar a forma de remuneração da poupança traria benefícios à maioria dos poupadores, enquanto uma minoria – no caso, aqueles que vivem de renda - seria afetada. O setor bancário também seria atingido, principalmente porque a queda dos juros forçaria os bancos a reduzir a taxa de administração dos fundos de investimento, para torná-los mais competitivos. “Mas essa diferença a menos no setor bancário seria canalizada para o comércio, para o aumento do consumo”, ressalta Delfim Netto.

Maiores juros do mundo

No evento da Fecomercio-SP, o ex-ministro da Fazenda criticou as altas taxas de juros praticadas no país. Ele lembrou que o desequilíbrio entre as taxas de juros reais externas e internas afeta o fluxo de importações e o de exportações, atraindo capital interessado em explorar a diferença entre as taxas. Essa movimentação acaba valorizando o câmbio, quebrando a cadeia produtiva industrial, pois a indústria não pode investir na sofisticação da produção, e é obrigada a aumentar suas importações, destaca.

A proposta da Fecomercio é trabalhar sobre as variáveis que impedem a redução da Selic e promover uma harmonização da política de juros no Brasil. “Ninguém quer diminuir a caderneta de poupança, mas sim cortar juros. Se cortar 1%, já são menos R$ 6 bilhões em juros de financiamentos”, afirma Fabio Pina, assessor econômico da Fecomercio.

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