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Menor volume de negócios e queda da Bolsa prejudicam receitas e empresas ficam vulneráveis

Corretoras passam por momento ruim, diz Cintra Neto
Agência Estado
Corretoras passam por momento ruim, diz Cintra Neto
O momento ruim dos mercados de capitais está deixando as corretoras de valores brasileiras, principalmente as menores, em uma situação difícil. A queda do volume de operações na BM&FBovespa e do próprio Ibovespa, com os investidores preferindo atuar com mais cautela, vem pressionando as receitas das operadoras dos mercados de capitais. Enquanto algumas casas adiam investimentos, outras torcem para que nenhum funcionário peça demissão.

“Se alguém sair, não temos como repor a vaga neste momento,” diz o economista de uma corretora brasileira, que prefere não se identificar. Quando o mercado de capitais vai bem, os investidores se animam a fazer operações e as empresas ganham mais com comissões e taxas sobre os negócios. Quando algum motivo desanima os investidores, o volume de negócios diminui e as corretoras de valores veem suas receitas caírem quase na mesma proporção.

O que vem desanimando os investidores neste momento é a crise europeia e os receios em relação à economia norte-americana. Diante de notícias negativas sobre as duas regiões, os investidores - principalmente os estrangeiros, que têm uma participação significativa no mercado brasileiro - acabam retirando seus recursos de mercados emergentes , como o Brasil. Entre os que permanecem com suas posições, o volume de operações vem diminuindo.

Para Manoel Felix Cintra Neto, presidente da Associação Nacional das Corretoras e Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários (Ancord), as empresas que atuam nos mercados de capitais acabam sendo vítimas dessa situação. “O momento é ruim para as corretoras por conta da queda de volume de operações, tanto nos mercados à vista como nos de derivativos,” afirma.

Segundo dados da BM&FBovespa, o volume médio diário de operações vem caindo mês a mês. Em maio, a baixa foi de 9% em relação ao mês anterior. Em junho, a queda foi de 2,6% e, em julho, de 3,7%. Em agosto, que vêm sendo um mês de forte volatilidade nos mercados, houve um aumento de volume, mas o motivo foi em grande parte a saída de investidores dos mercados de capitais após notícias que trouxeram incertezas em relação à economia mundial. Entre elas está o rebaixamento dos Estados Unidos pela agência de risco Standard&Poor´s, no dia 8.

No mercado de opções de ações, por exemplo, o volume total de negócios caiu 25% de janeiro a julho deste ano, na comparação com o mesmo período do ano passado.

Os investidores estrangeiros também estão operando menos no Brasil por conta dos aumentos de impostos recentes para conter a especulação nos mercados, afirma o presidente da Ancord.

Neste cenário , as corretoras independentes são sempre mais vulneráveis, diz Edemir Pinto, presidente da BM&FBovespa. Aquelas que fazem parte de conglomerados têm redes de distribuição, conseguem fazer investimento com mais facilidade e têm um pouco mais de mobilidade, segundo o executivo. “Enquanto isso, as independentes olham mais para o médio e longo prazos e veem dificuldades, como a crise na Europa e a economia norte-americana e acabam desanimando a fazer investimentos.”

“Há corretoras suspendendo planos de ampliação de equipes. Ao invés de contratar, fica mais em conta comprar relatórios de análises de empresas especializadas nisso,” diz um analista que preferiu não se identificar.

Além de ter menores receitas com operações, algumas corretoras também estão tendo problemas para cobrir prejuízos.

Muitas casas fizeram operações apostando na alta da bolsa de valores. Mas como essa alta não aconteceu, agora estão tendo prejuízos para honrar seus contratos. “Algumas utilizam recursos de clientes que estão em custódia para cobrir os prejuízos,” diz um corretor do Rio de Janeiro, que pediu para não ter seu nome revelado.

Consolidação

Embora considere que as corretoras devem suportar esse período de menor volume sem ir à falência, Cintra Neto diz que o momento atual de crise é propício para uma intensificação no movimento de consolidação do setor, que vem acontecendo desde o ano passado. De agora em diante, ele acredita que devem ocorrer negócios entre corretoras menores, em busca de sinergias.

“Há uma tendência maior de consolidação entre as corretoras, principalmente entre casas complementares, pois juntas podem cortar custos e ter sinergias. Se o mercado está bom, está bom para todos os segmentos, então as corretoras não precisam se unir,” afirma.

Neste momento, entretanto, faz sentido corretoras de tamanho parecido serem compradas por outras, segundo o presidente da Ancord. “Uma casa que atua com câmbio pode adquirir uma especializada em derivativos agrícolas, por exemplo.”

Entre os movimentos de fusões e aquisições no setor desde 2010, está a compra da Link Investimentos pelo UBS , em abril do ano passado. Três meses depois, o banco estatal português Caixa Geral de Depósitos adquiriu o controle da corretora do Banif. Recentemente, a corretora inglesa Tullett Prebon obteve aprovação do governo brasileiro pra comprar a Corretora Convenção.

Custos menores

A BM&FBovespa afirma estar trabalhando em três projetos que vão reduzir os custos das corretoras de valores, o que poderá ao menos aliviar a situação das casas que estão passando por maiores dificuldades. Segundo Edemir Pinto, o primeiro deles deve ser implementado ainda neste ano.

Edemir Pinto: Bolsa está trabalhando com três projetos para reduzir custos das corretoras
Divulgação BM&FBovespa
Edemir Pinto: Bolsa está trabalhando com três projetos para reduzir custos das corretoras
"Vamos oferecer um 'pool' de serviços às corretoras, através da Ancord," afirma. A contratação de fornecedores de serviços relacionados com as operações em bolsa poderão ser feitas em conjunto por mais de uma casa. Assim, os custos serão menores. "A fase de estudos já está finalizada e devemos operacionalizar até o fim do ano," diz o presidente da Bolsa.

O segundo projeto é o cadastro único de investidores que são clientes de empresas diferentes, o que deve ser colocado em prática até junho do ano que vem, segundo o executivo. "Esses dois trabalhos têm o objetivo principal de cortar custos para as corretoras," diz Edemir Pinto.

O terceiro é a customização das exigências para o acesso à BM&FBovesp a de acordo com o nicho de atuação das empresas. Atualmente, o nível de exigência e as taxas para a atuação das corretoras é o mesmo. "Vai ficar mais barato para as menores, que poderão solicitar um cadastro compatível com as suas atividades," afirma o presidente da BM&FBovespa.

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