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Apesar dos esforços do governo, moeda norte-americana subirá muito pouco, segundo economistas

Comprar dólar para investimento não é, nem será, um bom negócio, pelo menos até o fim do próximo ano, na visão de economistas. Para eles, o Banco Central está “enxugando gelo” com suas medidas para tentar conter a desvalorização da moeda norte-americana, e encher o bolso de dólares neste momento só vale por um motivo: fazer caixa para viajar ao exterior.

O iG consultou as previsões de sete bancos e corretoras para o dólar ao fim deste ano e de 2011: Santander, HSBC, Fator, Itaú Unibanco, Link, Alpes e Bradesco. A média para dezembro próximo é de R$ 1,73, cotação quase estável na comparação com a atual, que gira em torno de R$ 1,70. Para 2011, a projeção sobe, mas pouco. A média é de R$ 1,81, alta de 6,4% sobre o valor do momento.

Caso encerre o ano que vem na média projetada, o dólar renderá menos que os juros do Brasil, que estão em 10,25% (taxa básica, a Selic) e perderá também para a poupança, e ainda embutindo muito mais risco. Segundo o Banco Fator, a poupança deve render 8,37% entre este mês e o final de 2011.

Compra de dólares só é recomendada como proteção, diz José Góes, da Alpes
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Compra de dólares só é recomendada como proteção, diz José Góes, da Alpes
Para os economistas, não vale a pena investir em dólar esperando uma valorização. “O tempo que a pessoa física demora para entrar e sair é muito grande. Ela acaba pagando muitas taxas e é um mercado mais arriscado”, diz Marianna Costa, economista-chefe da Link Investimentos. Para José Góes, economista da Alpes Corretora, o ideal é uma exposição pequena, de 5% a 20% da carteira, mas apenas para investidores qualificados. “Não recomendo como investimento, mas sim como proteção”, afirma.

Para o consultor financeiro Humberto Veiga, a compra de dólares como investimento só faz sentido se a estratégia for de diversificação, para longo prazo. “Não é o caminho ideal para o pequeno investidor, pois não há uma certeza de lucro em um prazo mais curto”. Isso porque não há uma sinalização de que a inversão do fluxo de capitais para o País está próxima. “Caso os estrangeiros acreditassem em uma queda do juro no Brasil, poderia haver uma saída de dinheiro”, afirma. Mas, segundo ele, este não é o cenário, pois o Brasil ainda possui uma economia aquecida.

Nas contas modestas dos economistas para o dólar entra uma guerra difícil de ser vencida pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, sem que sejam tomadas medidas impopulares ou hostis ao capital estrangeiro. Isso porque, no exterior, a liquidez de recursos é abundante, e tem se direcionado com fervor para os mercados emergentes.

Fechando apenas uma das torneiras

Os especialistas contam que, em sua atuação no mercado cambial, o governo federal está agindo de forma imperfeita. “Imagine várias torneiras. Ao elevar a alíquota do IOF em alguns investimentos de renda fixa e variável, o governo tenta reduzir o fluxo de apenas uma delas”, conta Maurício Molan, economista do Santander. “Com isso, os recursos dos estrangeiros podem continuar entrando, por outras vias”, continua.

Para Molan, governo fecha apenas uma torneria do câmbio
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Para Molan, governo fecha apenas uma torneria do câmbio
O Santander prevê entrada de US$ 380 bilhões em recursos externos este ano, um aumento de 46% sobre os US$ 260 bilhões do ano anterior. Do total esperado, US$ 230 bilhões virão de exportações, US$ 35 bilhões de serviços, US$ 30 bilhões de investimento estrangeiro direto, US$ 30 bilhões de renda variável, US$ 30 bilhões de renda fixa e apenas US$ 22 bilhões de capital de curto prazo, que é o foco inicial do governo.

“Essa última fatia é pequena demais, e os investimentos em renda fixa de longo prazo permanecem interessantes”, diz. “Face à forte liquidez internacional, mexer apenas nessa parte reduz um pouco o apetite, mas não é suficiente para mudar a direção da moeda.”

“O dólar só voltará à casa dos R$ 2,00 se o governo fizer algum desaforo”, ironiza José Francisco de Lima Gonçalves, economista-chefe do Banco Fator. Por desaforo, entenda-se taxar a saída de capitais estrangeiros que já estariam no País, ou criar quarentenas para retirada do dinheiro.

Ele também acredita que será muito difícil o próximo presidente mudar a política cambial, seja ele Dilma Rousseff (PT) ou José Serra (PSDB). “Creio que haverá mais um pouco de ajuste via imposto e aumento da poupança do governo, mas nada que faça a moeda mudar de rumo.”

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