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Ferramenta nasceu nos EUA no século passado e ganha adeptos no Brasil; analistas alertam para riscos de métodos que parecem mágico

Imagine uma calculadora capaz de apontar quando a Bolsa de Valores vai atingir máximas e mínimas. Com ela, o investidor sabe o momento certo de comprar e vender as ações e, assim, ganhar dinheiro. É o que faz o economista José de Oliveira Barros, que trouxe a chamada “Calculadora dos Quadrados Naturais” dos Estados Unidos para o Brasil e afirma ter ficado “muito bem financeiramente” com ela. O método é tentador, mas requer cuidados, segundo analistas.

Calculadora dos Quadrados Naturais foi elaborada a partir de conceitos de astrologia, geometria, economia e religião
Divulgação
Calculadora dos Quadrados Naturais foi elaborada a partir de conceitos de astrologia, geometria, economia e religião

Criada no início do século passado pelo matemático e operador de mercado norte-americano William Delbert Gann, a Calculadora dos Quadrados Naturais é composta por réguas circulares e retangulares, números e ângulos. A partir do posicionamento das réguas em datas e números (que podem significar preços ou pontos), os ângulos formados entre elas ditam se o momento é de virada de preços (“turning points”), suporte (valor mínimo) ou resistência (valor máximo). Há uma legenda para indicar o que significa cada ângulo.

Com a ferramenta, Barros diz que foi possível prever os pontos máximos do Ibovespa – o índice de referência da Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) – em 2008 e 2009. Em um relatório publicado em 2007, o economista havia ditado o comportamento do índice para o ano seguinte. Para chegar aos números, ele posicionou as réguas nos ângulos que, na legenda, correspondiam aos pontos de máximas. Além disso, o uso da calculadora requer também o conhecimento de um componente da análise gráfica tradicional, que é a observação da performance do preço do ativo na história, segundo Barros.

“Antes de ler a calculadora, é preciso conhecer o histórico do mercado e analisar graficamente se o movimento é de ascensão ou declínio”, explica. Pelo histórico do ativo, o analista projeta os ciclos no futuro e identifica se a trajetória é para cima ou para baixo. Para isso, Barros possui uma base de dados e estuda constantemente o comportamento das commodities, ações ou índices de ações. Para este ano, ele diz que as réguas apontam para um terceiro trimestre ruim para o Ibovespa. “A tendência é de baixa até 2012”, completa.

Método atemporal

Para fazer projeções como a do Ibovespa, Barros diz ter estudado a Calculadora dos Quadrados Naturais e seu criador, o matemático William Delbert Gann, durante mais de quatro anos. “Eu atuava no mercado desde 1985, mas em 2006 decidi deixar tudo e me dedicar ao estudo do método de Gann, que eu já conhecia um pouco”, conta.

Barros viajou a uma fazenda em Pomeroy, nos Estados Unidos, onde fez um curso sobre a calculadora e os ensinamentos de Gann. Hoje, 55 anos após a morte do norte-americano, lá funciona uma empresa que comercializa os livros escritos por Gann e oferece seminários e cursos sobre o operador. Uma das fundadoras, Nikki Jones, conta que por lá já passaram economistas renomados de diversas partes do mundo.

Barros e Nikki acreditam que o método de Gann, apesar de antigo, é atemporal por ter como base sequências de números que se repetem no tempo, além da natureza humana, a religião e a astronomia. “Gann tem como premissas que os ciclos se repetem na história e que o mercado é uma geometria”, diz Barros.

O economista não diz quanto dinheiro ganhou com a calculadora, mas afirma estar “muito bem financeiramente”. Nikki diz que recebe retornos de diversos ex-alunos contando que fizeram bons negócios. Sobre o criador, jornais da década de 1920 dizem que Gann ganhou US$ 50 milhões (R$ 88 milhões, em valores de hoje) investindo nos mercados de capitais, uma fortuna para a época - e também para os dias de hoje.

O economista José de Oliveira Barros, estudioso do matemático norte-americano Gann, estudou o método durante quatro anos
Juliana Kirihata
O economista José de Oliveira Barros, estudioso do matemático norte-americano Gann, estudou o método durante quatro anos
Tentadora, mas arriscada

As promessas podem ser tentadoras, mas, antes de comprar uma calculadora ou fazer cursos, é preciso cuidado, segundo analistas de mercado brasileiros. Não existe fórmula mágica para ganhar dinheiro, enfatizam.

O principal risco, dizem, é de as ferramentas não funcionarem e o investidor perder dinheiro e tempo. “Muitas pessoas criam novidades, mas elas costumam perder a eficiência rapidamente e deixam de ser usadas”, diz Regis Chinchila, grafista da Gradual Investimentos. Ele diz não saber exatamente a causa da perda de eficiência, mas sugere que o investidor faça diversos testes para ver como os instrumentos se comportam antes de aplicar dinheiro no mercado.

O analista acrescenta que alguns instrumentos alternativos, como é o caso da Calculadora dos Quadrados Naturais, apesar de muito difundidos nos Estados Unidos, podem não ser bem aproveitados aqui. “A volatilidade dos dois mercados não é a mesma e, portanto, os ciclos têm tamanhos e comportamentos diferentes. Como a maioria das novidades utiliza ciclos, algumas podem funcionar apenas em um local”, diz.

Uma opção para a utilização da calculadora - ou de outras novas ferramentas - é como complementares, diz Leandro Martin, professor de análise gráfica da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) e autor do site Seu Consultor Financeiro.

No dia a dia das corretoras de valores, os métodos mais tradicionais de análise são o fundamentalista, que avalia os fundamentos do ativo, e o gráfico, que observa o comportamento dos preços. Assim, as ferramentas poderiam servir como auxiliares. Primeiro, o investidor pode identificar na calculadora ativos que possam ter potencial de ganho ou perda. Depois, pode avaliá-los por meio de análises fundamentalistas ou técnicas tradicionais.

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