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Instituições planejam novas agências em favelas de olho no potencial de consumo das classes emergentes

Laís de Jesus Santos, de 17 anos, trabalha como atendente no Fórum do bairro Ipiranga, em São Paulo. É seu primeiro emprego numa grande organização. Ela vive com a família na favela de Heliópolis, vizinha do bairro Ipiranga, desde que nasceu. Nunca havia tido conta corrente em um banco. Em maio, logo após conquistar o novo emprego, juntou seus documentos e foi à agência do Bradesco aberta em novembro do ano passado na comunidade. “É muito importante ter conta num banco”, diz Laís, com um sorriso tímido, diante da reportagem do iG .

A garota é uma das cerca de mil pessoas que já abriram conta na agência de Heliópolis, comunidade com cerca de 120 mil habitantes. Para os que pensam que uma agência numa favela pode ser meio mal-ajambrada, o banco dá sua resposta: os investimentos em Heliópolis foram da ordem de R$ 1 milhão, o mesmo gasto em qualquer outro lugar. Os equipamentos são todos de primeira, com caixas eletrônicos com leitores biométricos. Mobiliário e decoração seguem o clássico padrão Bradesco em tons de vermelho de todas as agências.

Laís, apesar da pouca idade, não ficou só na conta corrente. Já tem uma caderneta de poupança e um cartão de crédito. “Eu já aprendi, também, os cuidados que se teve ter com um cartão”, conta. Como ela, a pernambucana Celi Patrício Araújo Lins, correu ao banco assim que pode. A sua é a quinta conta aberta na agência de Heliópolis. Dona do pet shop Snoopy, localizado na favela, ela conta que antes levava muito mais tempo para ir ao bairro vizinho quando precisava de um serviço bancário. “Para mim, melhorou muito, principalmente os juros e as taxas cobrados”, revela a ex-correntista de uma instituição concorrente.

Outra comerciante que trocou seu antigo banco pelo Bradesco de Heliópolis por conta da comodidade foi Michele Costa Barros. Dona da loja de roupas MM Modas, no coração da comunidade, ela conta que virou cliente há poucos meses, durante o processo de estabelecimento do seu negócio. “Antes eu levava 15 minutos para chegar ao banco. Agora é rapidinho”, diz.

Bancarização

As três moradoras de Heliópolis fazem parte dos milhões de brasileiros que estão ascendendo aos serviços bancários, a chamada bancarização, para usar o neologismo criado pelos entendidos no setor. “Bancarizamos 7 mil brasileiros por dia”, conta Odair Rebelato, diretor-executivo do Bradesco. Esse volume, segundo ele, não leva em conta os clientes das agências, apenas as pessoas que abrem conta num correspondente ou no Banco Postal, que funciona nos Correios. Heliópolis é a segunda experiência do Bradesco em comunidades. Ele já tem uma agência na Rocinha, no Rio de Janeiro.

De olho nesse contingente de pessoas que estão obtendo um novo trabalho ou ganhando um salário melhor, os bancos não perdem tempo. O Bradesco prevê abrir mais quatro agências em comunidades até o final do ano, sendo duas em São Paulo e duas no Rio. Uma delas, na capital paulista, será em Paraisópolis, na Zona Sul. Os produtos demandados são os mesmos de outros locais, como conta corrente, caderneta de poupança, cartão de crédito e título de capitalização. “Não adiante criar produto para pobre, porque ninguém aceita esse rótulo. Temos de oferecer produtos semelhantes aos das outras agências”, explica Rebelato. “O segredo de trabalhar com pessoas de baixa renda é saber que todo cliente é rentável.”

O executivo do Bradesco calcula que os integrantes da classe D devem consumir neste ano algo como R$ 380 bilhões, o que faz brilhar os olhos de qualquer banqueiro. “Nos próximos anos, a classe D será mais forte que a C e a B em termos de consumo”, acrescenta, justificando o interesse no público de renda mais baixa.

O Banco do Brasil prepara duas agências em comunidades carentes no Rio e duas em São Paulo. A primeira abre as portas no dia 15, também na favela Paraisópolis. Alexandre Correia Abreu, vice-presidente do BB, afirma que os investimentos por unidade serão entre R$ 100 mil e R$ 200 mil, os mesmos valores médios despendidos para qualquer agência.

Antes de abrir um ponto, um fator que o banco leva em consideração é a quantidade de pessoas no local. “Há muita gente das classes C e D nessas comunidades carentes, em razão da recente migração de classes no País”, afirma o executivo do BB. Ele faz questão de ressaltar que o Banco do Brasil não faz qualquer diferenciação em itens de segurança nas comunidades. “É uma agência como qualquer outra.”

Microcrédito

O Santander abriu uma agência com 450 metros quadrados no Complexo do Alemão, conjunto de favelas no Rio, em junho. É sua primeira experiência. “A comunidade abraçou o banco”, conta Robson Rezende, superintendente de expansão do banco de capital espanhol. “Temos feito ações para reforçar as informações financeiras na região”, acrescenta.

Segundo Rezende, o microcrédito é um dos produtos mais demandados no local. O banco já fechou 500 contratos desde a abertura da agência. “É um produto para o empreendedor montar um negócio, tem taxas reduzidas e diferenciadas.” O tíquete médio desses empréstimos é de R$ 1,5 mil, sendo que os valores liberados variam de R$ 800 a R$ 2,2 mil. “Ele destina-se à empreendedora que quer montar um salão de beleza ou iniciar a venda de cosméticos”, exemplifica.

“Se liberamos R$ 5 mil para um empreendedor, ele transforma o negócio em outro”, complementa Rebelato, do Bradesco. “Isso pode significar mais vendas, mais empregos.” O banco trata esses pequenos empréstimos como “microfinanças. Segundo o executivo, em toda a rede são 5 milhões de contratos de até R$ 500. Na faixa até R$ 1,5 mil, esse volume sobe para 10,2 milhões de contratos.

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