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Instituições bancárias privadas poderiam seguir exemplo do BB e da Caixa sem prejudicar seus resultados e sem precisar exigir contrapartidas, comentam os especialistas

Para especialistas, bancos privados têm margens para diminuir spread
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Para especialistas, bancos privados têm margens para diminuir spread
Após os anúncios de cortes de juros da Caixa Econômica Federal e do Banco Brasil, os bancos privados afirmam estar avaliando a possibilidade de seguir o exemplo e cortar suas taxas. Na opinião de economistas, as instituições bancárias têm, atualmente, condições de reduzir seus spreads (a diferença entre os juros pagos como rendimento aos correntistas e o cobrado para emprestar o dinheiro de seus clientes) e cobrar juros menores dos clientes.

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Antes de anunciar qualquer corte, entretanto, os bancos levaram um pacote de pedidos ao governo, na última terça-feira, como uma contrapartida para reduzirem seus spreads. Os pedidos incluem a solicitação de redução de tributos e o pedido de permissão para exigir mais garantia dos clientes. “Os bancos podem estar aproveitando a situação para andar com o pires na mão,” diz o economista Ivo Barbiero, presidente da empresa de análise de crédito proScore. Na opinião dele, os bancos teriam a possibilidade de reduzir suas taxas e, ainda assim, manter suas operações rentáveis. "Os lucros que eles vêm registrando mostra isso," diz.

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O analista de bancos Luís Miguel Santacreu, da Austin Ratings, concorda que as instituições têm margem para cortar os juros. Na opinião dele, os bancos não querem abrir mão de seu spread, mas estão pressionados a cortar suas taxas. A decisão dos bancos públicos de reduzir seus juros força os privados a diminuir o spread, na medida em que o consumidor vai preferir tomar crédito nas instituições que oferecerem as melhores condições, acrescenta o professor de Economia Samy Dana, da FGV. Por isso, pressionam o governo para conseguir algumas isenções tributárias, acelerar execução de garantias e reduzir os compulsórios, afirma o analista da Austin Ratings.

O presidente da Caixa, Jorge Hereda, reforçou a opinão dos economistas ao destacar, na última segunda-feira, que a Caixa tem margem líquida para reduzir taxas para pessoa física e micro, pequenas e médias empresas. “A Caixa pode fazer isso porque desde 2003 tem crescido de maneira consistente”, ressalta o executivo. “Estamos usando essa margem para estreitar o relacionamento com o cliente”, afirmou após anunciar os cortes de juros do banco.

Além de considerar que os spreads dos bancos poderiam ser comprimidos, os economistas afirmam que juros menores não elevam o risco de inadimplência, o que contraria argumentos das instituições bancárias. Um dos pedidos dos bancos ao Ministério da Fazenda - o pacote de requisições foi apresentado por Murilo Portugal, presidente da Federação Brasileira dos Bancos (Febraban) - foi a permissão de usar reservas de previdência de clientes como garantia para empréstimos, como uma forma de segurança contra os maus pagadores. Economistas dizem, entretanto, que não há relação entre redução de juros e aumento de inadimplência.

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“O juro menor eleva os volumes de crédito, mas não existe correlação entre inadimplência e volumes. Os atrasos de pagamentos estão mais relacionados com a taxa de juro alta,” afirma Alberto Borges Matias, professor titular da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP de Ribeirão Preto. Samy Dana acrescenta que quanto maior o risco de calote, mais juros o banco tem que cobrar para ter lucro. “Por isso, conforme a dívida fica mais barata, mais chance o cliente tem de pagá-la”, diz.

Essa equação só fica desequilibrada caso os bancos públicos flexibilizem seus critérios para concessão de crédito. “Se for menos criterioso para conceder o crédito, você pode aumentar a inadimplência”, destaca Dana. O analista da Austin Ratings concorda: “é preciso preservar os critérios de risco. Se o banco mantiver a política de crédito, a inadimplência não aumenta”, afirma.

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