Tamanho do texto

A estreia dos recibos de ações do Banco do Brasil (BB) em Nova York fecha o ciclo de grandes instituições financeiras brasileiras com escala suficiente para atrair o interesse do investidor estrangeiro. Segundo analistas, a listagem dos American Depositary Receipts (ADRs) do BB, que acontece nesta quarta-feira em Nova York, não indica uma tendência para o setor, pelo menos por enquanto.

Os ADRs são recibos de ações negociados nos Estados Unidos. Podem ser de balcão (Nível 1, como os do BB), negociados em Bolsa (Nível 2) ou recibos que correspondem a um novo lançamento de ações diretamente nos EUA, com aumento de capital (Nível 3).

Dos 21 bancos listados na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), apenas sete possuem ADRs (incluindo o BB). Pesquisa feita pelo iG com base em números da consultoria Economática e das Bolsas de São Paulo e Nova York (Nyse) mostra que somente três destes sete possuem níveis superiores ao de balcão: Itaú Unibanco, Bradesco e o Santander Brasil. Os demais, além do BB, são Daycoval, Patagônia e Paraná Banco.

Apesar do pequeno número de representantes, quem já tem histórico para contar mostra que a negociação com os ADRs tem sido maior nos EUA do que na bolsa local. Tanto Itaú Unibanco quanto Bradesco, os únicos que negociaram ambos os papéis durante todo o ano de 2009, tiveram volumes financeiros diários superiores em solo americano.

A média diária do Bradesco na Nyse este ano foi de US$ 134,4 milhões, ante US$ 75,7 milhões de giro na Bovespa. Já o Itaú Unibanco negocia US$ 163,3 milhões por dia, comparados aos US$ 90,4 milhões na Bolsa paulista. O levantamento exclui o Santander Brasil pois sua estreia se deu apenas em outubro.

Para os especialistas, a situação paradoxal tem explicação: os bancos têm o interesse de ser listados nos Estados Unidos, mas a maioria não tem escala para atrair o investidor estrangeiro. Entre os benefícios desta listagem, lembram os analistas, estão a visibilidade e a maior transparência frente aos investidores. Isso tende a reduzir a volatilidade das ações. Quando uma empresa possui papéis com comportamento mais estáveis e previsíveis, a tendência é que seu valor de mercado cresça.

Outra vantagem da exposição maior é a captação mais barata de recursos, pois uma companhia mais conhecida tende a embutir menos risco. "Tendo recibos, uma captação realizada por um banco no Brasil é estendida para o ADR. Assim, a instituição aumenta seu espectro de investidores internacionais", diz Kelly Trentin, analista de bancos da corretora SLW.

Apesar das vantagens, Kelly não vê outros bancos seguindo a tendência dos maiores do País. "Os grandes bancos brasileiros já possuem ADRs e não vejo nenhum movimento dos bancos médios neste sentido."

"Há poucos bancos de capital aberto no Brasil, poucos deles de grande porte. Os que têm mais liquidez e relevância são os que já possuem ADRs", afirma Aloísio Lemos, analista da Ágora Corretora. Segundo Lemos, outros bancos médios brasileiros ainda têm pouco tempo de mercado. "Uns dez bancos médios que vêm à minha cabeça abriram capital mais recentemente".

Além de restringir o interesse, a falta de escala também faz com que o banco pense mais se vale à pena arcar com os custos do processo. Para negociar ADRs, a instituição precisa seguir regras mais rígidas de transparência e divulgar balanços conforme as regras da contabilidade americana. "Como há esses custos e o processo é trabalhoso, os bancos ficam em dúvida se o esforço compensaria. Muitos podem acreditar que não seja o momento agora", complementa Laura Lyra Schuch, da Ativa Corretora.

Segundo a área de relações com investidores do BB, a listagem dos ADRs dará mais visibilidade ao banco no exterior e funciona como um primeiro passo para a ampliação de sua fatia de ações em negociação no mercado, conhecida como "free float". A ideia é entrar no Novo Mercado da Bovespa, segmento que reúne as empresas mais transparentes do mercado. Para isso, o BB precisa conquistar novos acionistas, e o mercado americano oferece o acesso a uma parcela maior de investidores. Para entrar no Novo Mercado, uma empresa precisa ter 25% de suas ações em circulação. Atualmente, a fatia do BB é de 21,7%.

Os esforços do BB na conquista do Novo Mercado também tiveram de passar por um decreto presidencial que autorizou a ampliação da fatia de estrangeiros no capital da instituição financeira. Em meados de setembro, o limite subiu de 12,5% para 20%.

Leia mais sobre ADRs

    Leia tudo sobre: bovespa
    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.