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Investidor pouco arrojado ganhou em apostas seguras em ano difícil para economia brasileira e mundial; especuladores da bolsa também viveram dias de grandes ganhos com eleições

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Os investidores que passaram os últimos meses reclamando dos riscos da falta de alternância de poder para a economia brasileira comemoram os ganhos com a especulação feita durante o período eleitoral.

A indefinição política, típica de anos eleitorais em diversos países, cria um momento de estresse, com fases agudas, o que aconteceu neste ano no Brasil. O mercado financeiro viveu oscilações bruscas, alimentado pelas notícias políticas – e pelas inúmeras pesquisas eleitorais – e os especuladores aproveitam para surfar em grandes ondas.

“Todo momento de muito estresse gera grandes oportunidades para o especulador da bolsa. É como um surfista campeão. Se o mar está com a maior ressaca, ele não fica assustado, mas aproveita os movimentos bruscos para se sobressair em cima daquele que não conhece tão bem o mar e que, por isso, não cai na água”, explica José Alalou, especialista em alocação da Gradual Investimentos

Os investimentos em renda fixa, que conceitualmente têm riscos e ganhos menores do que a renda variável, deram um retorno muito acima da renda variável na comparação preliminar de 2013 e 2014.

A conclusão foi feita pela Gradual Investimentos a partir de um levantamento feito pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiros e de Capitais (Anbima) a pedido do iG , que compara a captação da renda fixa versus renda variável de 2013 com 2014 (dados preliminares até 12 de dezembro deste ano).

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Os fundos de renda fixa Curto Prazo tiveram prejuízo de R$ 6 milhões na captação de janeiro até dezembro de 2013, enquanto a mesma modalidade lucrou R$ 9,1 milhões (de janeiro até o dia 12 de dezembro de 2014). Já os fundos renda variável Ações Livres captaram R$ 389 mil em todo o ano de 2013, mas registram prejuízo de R$ 439 mil até o dia 12 deste mês.

“O mercado de fundos de renda variável, de maneira geral, performou mal, com captações muito baixas de fundos de ações e mulimercado. Ganharam mais os ativos lastreados à Selic e à inflação, que tem uma rentabilidade garantida”, analisa Mariana Orosco, gerente de Wealth Manegement da Gradual Investimentos.

“Os investimentos em renda variável sofreram inevitavelmente por conta da volatilidade do mercado internacional e também das eleições, em determinado período. A sensação de indefinição [de quem seria o presidente do Brasil no ano que vem] no período pré-eleitoral fez o investidor migrar para títulos com proteções maiores como LCI e LCA, que além de serem isentos de Imposto de Renda, têm garantias do Fundo Garantidor de Crédito [FGC, fundo que administra um mecanismo de proteção aos correntistas, poupadores e investidore socorreu o rombo do Banco Panamericano em 2012]" .

A especialista explica que se a Selic sobe, investidores migram da bolsa para renda fixa e quando a renda fixa cai, investidores ficam com mais apetite para ir para bolsa atrás de mais rentabilidade, mais risco. “Em um ano de baixa confiança do investidor e do empresário na economia brasileira a bolsa sofreu muito.” .

O investidor de longo prazo, diz Alalou, não especula com o sobe e desce do mercado. Ele investe em diversos papéis e em fases assim não perde nem ganha, mas mantém o capital protegido. “Mas houve quem aproveitou para ganhar muito dinheiro especulando este ano na bolsa brasileira, na fase eleitoral. Esse investidor é tido como arrojado e corre grande risco, ele é considerado menor, com capacidade de investimentos de até R$ 100 milhões e tem perfil de trader [negociador que pode comprar e vender ações num mesmo dia]. Diferente do grande investidor [com aportes de R$ 5 bilhões], que tem foco no longo prazo, ele não compra ações da empresa porque acredita nela e quer ser sócio de uma marca confiável como faz o acionista que espera dividendos, por exemplo. O trader especula, se aproveita do movimento, compra na baixa em um dia e vende na alta no outro, ou faz esse mesmo movimento em uma mesma data”, explica Alalou.

Um obstáculo que impede o grande investidor é o fato de não poder especular como o menor porque qualquer movimentação acima de bilhões mexe com o giro da bolsa como um todo, não passa despercebido. 

“De certa forma, é comum ver a leitura de dados em favor de um ou outro candidato para criar um clima de favorecimento por parte do setor. Mas isso reflete a realidade. A presidente [Dilma Rousseff] não tem tido bons resultados e isso não era novidade. Quando uma pesquisa indicava queda dela nas pesquisas, o mercado ganhava confiança e crescia, o contrário também é verdadeiro. O especulador se beneficia desse momento e o mercado já vinha sinalizando desaprovação, não era novidade.”

A média de movimentação da bolsa neste está em torno de R$ 6 bilhões ou R$ 8 bilhões. Um exemplo, no dia 6 de outubro, a bolsa brasileira subiu 6% após pesquisa eleitoral indicar alta do candidado do PSDB à Presidência Aécio Neves nas pesquisas eleitorais. Na ocasião Neves havia subido para 33,5% ante 41,5% de Dilma.