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Endividamento de Brics desperta insegurança em investidores e gestores de fundos

NYT

Seja em busca de petróleo no Brasil, fabricando aço na Rússia ou erguendo arranha-céus na China, os investidores de títulos globais financiaram alguns dos maiores projetos de investimento assumidos pelas economias emergentes nos últimos anos.

Implosão da OGX, de Eike Batista, tem sido apontada como um dos exemplo de que os emergentes estão vulneráveis
Luiz Roberto Lima/Futura Press
Implosão da OGX, de Eike Batista, tem sido apontada como um dos exemplo de que os emergentes estão vulneráveis

Porém, à medida que o crescimento deixa a desejar em diversos países em desenvolvimento, economistas e reguladores se preocupam cada vez mais com as consequências do excesso de empréstimos e com o risco de que os fundos mútuos e os fundos hedge (ferramenta que serve para proteger investidores de possíveis perdas) – que já substituíram boa parte dos bancos comerciais mais estáveis no papel de financiadores globais – possam se decidir por uma fuga repentina de capitais, todos ao mesmo tempo.

"É justo dizer que o mercado se tornou excessivamente exuberante", afirma Scott A. Mather, chefe de Gestão de Portfólio Global da gigante dos fundos mútuos Pimco. "Muitos anos de crescimento do crédito no setor privado geraram uma série de grandes vulnerabilidades".

Os analistas destacam que, se comparada à crise financeira de 1997, a atual farra dos empréstimos está sendo financiada em grande parte pelos investidores globais e também inclui empresas de fora da Ásia. Diferentemente de duas décadas atrás, os governos de países em desenvolvimento possuem grandes reservas de moedas estrangeiras e têm mais força para superar uma crise financeira.

Ainda assim, muitos temem que a venda de títulos chineses, russos e brasileiros possa se transformar em um tumulto financeiro. No longo prazo, a grande questão é o possível efeito do fechamento de um mercado de títulos que era receptivo a mutuários das regiões do planeta responsáveis pelo crescimento global nos últimos anos.

O problema subjacente, segundo Mather, é que investidores com pouca ou nenhuma experiência em mercados emergentes compraram muitos títulos na busca de rendimentos mais altos que os gerados pelas ações mais seguras dos Estados Unidos e de outros países, adquirindo cotas de empresas com perfis de crédito ainda mais arriscados.

O estouro da manada levou à ilusão de liquidez, que pode ter levado muitos investidores a crerem que vender os títulos seria tão fácil quanto comprá-los. "A liquidez é ainda pior agora do que antes da crise", explica Mather.

Desde que o Banco Central dos EUA começou seu programa agressivo de compra de títulos, levando as taxas de juros à maior baixa em décadas nos EUA, a emissão de títulos internacionais de alto rendimento por mutuários não governamentais de mercados emergentes mais que dobrou.

O total de títulos devidos chegou ao recorde total de US$ 2 trilhões, de acordo com um novo relatório da Merrill Lynch, que alerta sobre as consequências dessa explosão na dívida dos mercados emergentes e no distanciamento dos empréstimos de bancos tradicionais.

Veteranos do mercado de ações, como a Petrobras, a gigante energética brasileira que emitiu quase  US$ 30 bilhões em títulos em moeda estrangeira nos últimos quatro anos, ainda é a líder do setor.

À medida que o crescimento não é grande o bastante e a lucratividade diminui, alguns desses credores não estão pagando suas dívidas. Entre os maiores calotes está a implosão da OGX , o conglomerado energético brasileiro que faliu recentemente; outros incluem construtoras mexicanas e bancos do Cazaquistão.

"Acredito que isso esteja dando uma nova perspectiva às expectativas dos investidores", avalia Richard Segal, analista de títulos de mercados emergentes da Jefferies, em Londres.

Nos últimos tempos, o problema foi tratado por Washington, depois de o Escritório de Pesquisa Financeira, um órgão analítico recém-criado que faz parte do Ministério da Fazenda, apresentar um relatório que apontava para a tendência suicida dos gestores de ativos globais de "migrar em massa em direção a classes populares de ativos ou bens mobiliários, independentemente do tamanho ou da liquidez dessas classes de ativos ou bens mobiliários".

O relatório afirmou que mais de US$ 1,5 trilhão haviam sido investidos em fundos de ações nos últimos cinco anos – superando em muito outros segmentos como títulos e mercados cambiais – e apontou que grandes entidades de gestão de ativos, como a Pimco, a BlackRock, a Capital Research e a Fidelity se tornaram as maiores beneficiárias desse fluxo de dinheiro.

Para a indústria financeira que já acredita ser exageradamente regulada, o estudo da OFR foi um choque. O principal grupo comercial que representa os gestores de ativos, o Investment Company Institute, contestou agressivamente a sugestão da agência de que a exposição excessiva dos fundos de gestão americanos aos títulos arriscados de mercados emergentes representam uma ameaça ao sistema financeiro.

Em comparação, a decisão da agência de destacar esse fator de risco atraiu apoio de diversos economistas, incluindo Hyun Song Shin, economista financeiro de Princeton e chefe de pesquisa do Banco de Acordos Internacionais, uma fábrica de ideias com sede na Basileia, Suíça, que presta serviços a bancos globais.

Em um artigo recente, Shin alerta sobre os riscos que surgem quando investidores que geralmente adotam uma abordagem de prazo mais curto que o de credores comerciais entram a saem do mesmo mercado, ao mesmo tempo. "Nunca vimos nada como isso antes. É algo perigoso e sem precedentes", alertou ele.

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