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A queda foi maior para as empresas do que para pessoas físicas. Ao mesmo tempo, juros e spreads continuaram subindo: 0,6 e 0,4 ponto percentual em média, respectivamente, segundo dados parciais do Banco Central

Brasil Econômico

O crédito engatou uma forte marcha à ré em julho. Nos primeiros dez dias úteis do mês, as contratações médias diárias foram 11,6% menores do que nos primeiros dez dias de junho. A queda foi ainda maior para as empresas: 15%, segundo o Banco Central (BC). Para pessoas físicas, o recuo foi de 7,9%. Considerando que nos primeiros dez dias de junho as concessões haviam caído apenas 0,2%, e terminaram o mês com recuo de 3,8%, a desaceleração pode ficar ainda maior do que 11,6% no mês todo de julho.

Contratação de rédito desacelerou 11% nos dez primeiros dias de julho
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Contratação de rédito desacelerou 11% nos dez primeiros dias de julho

Ao mesmo tempo, juros e spreads continuaram subindo no começo deste mês: 0,6 e 0,4 ponto percentual em média, respectivamente. Spread é a diferença entre o custo de captação — mais impostos, taxas e compulsórios — e a taxa que o banco cobra dos clientes nos empréstimos. Os dados referem-se apenas ao que o BC chama de “crédito livre” — exclui imobiliário, BNDES e crédito rural.

Os dados de junho já indicavam uma piora geral — a única exceção foi em relação à inadimplência. Mas com a Selic mantendo a curva de alta, os juros dos empréstimos devem acompanhar — e empréstimos mais caros pesam mais no orçamento, o que junto com desemprego maior pode voltar a causar problemas com calotes no final do ano, segundo a opinião de alguns analistas.

“Estamos preocupados com uma possível piora de qualidade das carteiras”, diz Maria Rita Gonçalves, analista sênior especializada no setor financeiro da Fitch Ratings. Luís Santacreu, analista da Austin Ratings, lembra de um fator adicional: “Quando o saldo estava crescendo mais fortemente, o índice de inadimplência caía naturalmente pelo efeito matemático do denominador maior — o índice é calculado dividindo-se o volume em atraso pelo volume total emprestado.

Mas, quando o saldo para de crescer, o inverso acontece.” Em junho, o saldo cresceu meros 1,8%. Com a desaceleração das concessões, o saldo tende a crescer menos ainda em julho.

O chefe do Departamento Econômico do Banco Central (BC), Tulio Maciel, está mais otimista. Na sua avaliação, a inadimplência deve continuar a cair. Os atrasos acima de 90 dias do crédito de todo o sistema financeiro cederam 0,2 ponto percentual para as empresas (para 2,1%) e 0,3 ponto percentual para as famílias (5%). Para Maciel, a educação financeira e a maior seletividade dos bancos, com melhor análise de perfil dos clientes e das garantias, contribuem para essa queda, disse.

O estoque total do crédito (recursos livres e direcionados), atingiu R$ 2,531 trilhões em junho — a alta foi de 2,9%nas carteiras com recursos direcionados e de 0,9% nas operações com recursos livres. O saldo dos empréstimos a pessoas físicas totalizou R$ 1,157 trilhão, enquanto o para empresas foi de R$ 1,374 trilhão.

Considerando apenas o saldo com recursos livres — que excluem linhas do BNDES, crédito rural e imobiliário, os que ainda registram algum crescimento — a desaceleração foi ainda maior: aumento de 0,9% no mês, para R$ 1,446 trilhão (equivalente a 31,6% do PIB) em junho, e representou 57,1% do total. Os empréstimos a pessoas físicas atingiram saldo de R$ 715 bilhões (aumento de apenas 0,2%), enquanto para pessoas jurídicas a alta foi de 1,7%, somando R$ 730 bilhões. Nas pessoas físicas, os maiores aumentos foram no crédito consignado e cartão de crédito rotativo; para empresas, no desconto de duplicatas, repasses externos e capital de giro com teto rotativo.

O saldo de crédito direcionado totalizou R$ 1.086 trilhão, após elevação de 2,9% no mês (3,3% em pessoas físicas, com destaque para crédito rural e imobiliário; e 2,6% para pessoas jurídicas — rural e BNDES).

Mas até as operações do BNDES dão sinais de esgotamento. As concessões ao setor produtivo somaram R$ 14,7 bilhões em junho — um recuo mensal de 13,6%, depois de registrar avanço de 72% nos desembolsos acumulados no primeiro semestre. Os empréstimos para capital de giro caíram 39% em junho, de R$ 1,209 bilhão para R$ 832 milhões.