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Entrada de nova bolsa no Brasil vai obrigar BM&FBovespa deixar mais claro suas funções de bolsa e empresa de capital aberto

A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) admite a hipótese de assumir atividades atualmente exercidas pela BM&FBovespa de Supervisão de Mercados (BSM)
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A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) admite a hipótese de assumir atividades atualmente exercidas pela BM&FBovespa de Supervisão de Mercados (BSM)

No jogo de cartas do mercado financeiro, a BM&FBovespa é o Curinga por ser a única operadora bursátil do país a atuar como companhia de capital aberto e ainda como entidade autorreguladora. A chegada de um Ás no mercado brasileiro, no entanto, a poderosa NYSE Euronext, pode esclarecer essa confusão de papéis. Isso porque a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) decidiu se antecipar e admite a hipótese de assumir algumas atividades que atualmente são exercidas pela estrutura de autorregulação da bolsa – a BM&FBovespa de Supervisão de Mercados (BSM) – segundo consulta aberta ao mercado em junho.

“Nós temos reuniões trimestrais com a BSM justamente para ter certeza de que não esteja havendo duplicação e que os processos estejam de acordo com o que diz a regra e, dentro do possível, eles estejam se tornando cada vez mais independentes da bolsa”, disse Leonardo Pereira, presidente da CVM, em entrevista exclusiva ao Brasil Econômico .

Dona de um faturamento que em 2012 ultrapassou R$ 2 bilhões e de um lucro que nos últimos três anos tem superado R$ 1 bilhão, a chegada da concorrência, a ATS Brasil, tem feito a bolsa se reinventar. A empresa cortou custos e ainda deixou de divulgar Ebtida, em consonância com seus pares. Como opção de investimento, as ações da empresa sofreram como o resto do mercado, e como seu próprio índice de ações, registrando perdas de 26,05% no ano.

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“A perspectiva de um novo ambiente de negociação de ativos fez com que o mercado ficasse apreensivo, afinal, não se sabe como vai funcionar essa divisão de funções. Até por isso, acho que a BM&FBovespa ainda vai continuar sendo centralizadora por um bom tempo”, destaca Fabíola Cavalcanti, sócia da área de mercados financeiro e de capitais do escritório Barbosa Müssnich & Aragão (BM&A).

Outro ponto que torna a carta coringa conflituosa são as declarações do presidente da bolsa, Edemir Pinto. Em 2012, o executivo disse que de 40 a 45 empresas estavam preparadas para fazer oferta inicial de ações (IPO, na sigla em inglês), mas apenas três vieram a mercado de fato. No dia da entrevista, as ações da bolsa brasileira subiram mais de 1%. Um ano antes, ele já havia errado nas estimativas, quando afirmou que o mercado em 2011 atingiria o mesmo patamar de 2007. Também estimou que a bolsa teria 5 milhões de investidores pessoas físicas até 2015. A meta acabou sendo adiada para 2018. Segundo a bolsa, essas declarações não passam de entrevistas e não podem ser consideradas como projeções. “O único guidance que divulgamos se refere a despesas”, diz a BM&FBovespa, em comunicado. É nítido, porém, que Edemir tem sido mais comedido em suas conversas com a mídia.

No mercado, há quem não veja qualquer problema nas declarações do executivo, enquanto outros dizem que gera expectativas. Para Rodolfo Zabisky, diretor-presidente do grupo Attitude Global e coordenador do Programa de Aceleração do Crescimento para Pequenas e Médias Empresas (PAC-PME), a bolsa pode continuar com essa conduta, desde que ajuste as projeções com o passar do tempo. “O mercado não gosta de levar sustos, principalmente na renda variável, que já tem essa componente embutida. O ideal é os resultados caminharem de acordo com as projeções, um pouco para cima ou para baixo.”

Já Roberto Gonzalez, professor de governança corporativa e sustentabilidade da Trevisan Escola de Negócios, diz que as declarações com tom de projeção são resquício de um tempo em que a companhia ainda tinha capital fechado. “Imagina que uma indústria de alimentos, listada em bolsa, divulgue que a produção e as vendas aumentarão em 5%. Ela tem que explicar em que está baseando suas projeções. Quanto à BM&FBovespa talvez seja um hábito que não foi corrigido. A bolsa sempre deu esse tipo de declaração. Essa confusão de papéis não é algo negativo e sim uma posição que precisa ser aperfeiçoada”, afirma .

Já um especialista que preferiu não se identificar aponta que o Edemir não poderia dar números que claramente sabe que não vão se concretizar. “Ele sabia que não seria possível, uma vez que atua no mercado há mais de 40 anos e conhece a média ponderada anual de crescimento nesse período.” Um acionista minoritário da BM&FBovespa pondera que o problema não é para quem detém as ações e, sim, para as corretoras. “Elas investiram apostando no número de investidores e de IPOs.”

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